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Blog do Professor Márcio
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segunda-feira, 23 de novembro de 2015
Grito de justiça chega a Austrália
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domingo, 22 de novembro de 2015
O gueto de Mariana
22/11/2015 02h00
Antonio Prata[i]
Outro dia um amigo me ligou pra reclamar da vida.
Estava trabalhando tanto, ele me disse, que não fazia a menor ideia do que se
passava no mundo: há meses não lia jornal, não via TV, não ouvia rádio. Queria
um consolo, mas recebeu a minha inveja: "Você não tem ideia da sua sorte!
Acho que, desde que a gente nasceu, não teve época melhor pra não saber o que
se passa" –e, veja bem, a gente nasceu numa ditadura.
No final de uma ditadura, é verdade. O governo dos
militares chegava ao fim com a vergonhosa anistia, a esquerda chegava à praia
com o desavergonhado "desbunde". O tempo ainda estava fechado, mas a
previsão era de sol, adiante. Gilberto Gil cantava "Não se incomode/ O que
a gente pode, pode/ O que a gente não pode explodirá" e
"explodirá" rimava com "poderá" e "brilhará", não
com homens-bomba, pautas-bomba, aviões derrubados, chacinas e barragens
arrebentadas.
Vejo na TV a mãe do menino de dez anos assassinado
com um tiro na cabeça, no Alemão, revoltada com o inquérito da polícia,
inocentando os PMs. Vejo aqueles índios mineiros, mal ajambrados, macambúzios,
sentados num trilho de trem, à beira do ex-rio Doce. Leio a carta do viúvo aos
terroristas que mataram sua mulher, em Paris, deixando-o com o filho de um ano
e meio. "Cara, que sorte a sua não ler jornal!", digo ao meu amigo.
"Eu ontem chorei ouvindo a CBN. Que tempos são esses em que a gente chora
com a CBN?"
Serão os tempos? Será que o mundo piorou ou sempre
foi assim e eu é que fiquei adulto? Num esforço de otimismo –veja a que ponto
chegamos–, penso na Segunda Guerra. Lembro do depoimento de um sobrevivente do
Holocausto, no documentário "Shoa". Com outros prisioneiros do gueto
de Varsóvia, o homem criou um esquema elaborado e perigoso para passar cartas
para fora da área em que estavam confinados. Por anos, essas cartas foram
enviadas a governos, instituições e pessoas importantes de vários países. O
homem tinha certeza de que, uma vez que se soubesse do que acontecia ali,
alguém tomaria uma providência. Em seu depoimento, o horror nazista parecia
chocá-lo menos do que o descaso geral.
Lembro do judeu polonês ao ouvir e fazer tantas
vezes a pergunta, depois dos atentados de Paris: como pode um ser humano ter
tamanho descaso pela vida de outros seres humanos a ponto de metralhá-los
indiscriminadamente? Como pode o mundo saber o que Hitler fazia com os judeus,
por anos, sem tomar uma atitude?
Pois, na última quinta-feira, tive a resposta. Não
uma resposta sociológica, histórica, geopolítica: uma resposta íntima, pessoal.
Num pé de página, no jornal, li: "Atentado terrorista mata 45 na
Nigéria" e não senti nada. Ou quase nada. Pensei, "puxa, que
triste", mas não chorei. Só depois é que veio o incômodo, não como um nó
na garganta, mas como um embrulho no estômago: eu sou o destinatário das cartas
de Varsóvia. Todo dia elas me chegam via e-mail, Facebook, Twitter, vindas dos
guetos do Alemão, da Síria, de Barueri, de Lagos, do Pará, do Afeganistão.
Algumas vezes dou um share, noutras mando um casaco, outro dia fui até o Brás,
comprei umas esfirras de um refugiado, me senti bem por semanas. Na maior parte
do tempo, contudo, rolo rápido a tela pra cima, fingindo não ter nada a ver com
essa lama, e vou cuidar dos meus assuntos.
Obtido em: http://www1.folha.uol.com.br/colunas/antonioprata/2015/11/1709412-o-gueto-de-mariana.shtml?cmpid=newsfolha
. Acesso em: 22/11/2015.
[i] ANTONIO PRATA É escritor. Publicou livros de
contos e crônicas, entre eles 'Meio Intelectual, Meio de Esquerda' (editora
34). Escreve aos domingos.
quinta-feira, 19 de novembro de 2015
Rompimentos de barragens de mineradoras têm se tornado mais graves nas últimas décadas
Rachel Costa | Londres - 18/11/2015 - 06h00
Avanço tecnológico da mineração não tem conseguido reduzir intensidade de eventos como o ocorrido em Mariana (MG); evitar próximo desastre só será possível com melhor regulamentação ambiental da atividade
Atualizada às 16h40
Itália, 1985, África do Sul, 1994, e Hungria, 2010. Estas foram as rupturas de barragem de mineradoras mais mortíferas nos últimos 30 anos em países ocidentais. A primeira deixou 268 mortos, a segunda, 17, e a última, 10 vítimas fatais. Em Minas Gerais, o rompimento da barragem de Fundão no último dia 5 em Mariana já fez 11 mortos (quatro deles ainda sem identificação) e outras 12 pessoas seguem desaparecidas. Calcula-se em 62 milhões de metros cúbicos o volume de rejeitos lançados no meio ambiente. Grande parte dele atingindo o Rio Doce, um dos maiores do estado. A chegada ao rio tem causado uma segunda tragédia, com cidades sem água e moradores sem saber o que lhes espera. Governador Valadares, um dos principais municípios abastecido pelo rio, com 278 mil habitantes, decretou estado de calamidade pública desde a última terça-feira (10/11).
Falta água e faltam informações, o que torna difícil calcular a dimensão exata do desastre. A Vale e a BHP, as duas empresas multinacionais por trás da Samarco, companhia responsável pelos reservatórios, terão de desembolsar pelo menos 1 bilhão de reais neste que é um dos maiores desastres ambientais no Brasil e um dos maiores episódios de rompimento de barragem de rejeitos nos últimos 30 anos.
Antonio Cruz / Agência Brasil

Cenário da desolação em Bento Rodrigues, distrito de Mariana (MG), após rompimento da barragem e passagem da lama

Cenário da desolação em Bento Rodrigues, distrito de Mariana (MG), após rompimento da barragem e passagem da lama
E o grande problema é que o avanço tecnológico da mineração não tem conseguido reduzir a intensidade de eventos desse tipo. Muito pelo contrário, afirma o geofísico David Chambers, doCenter For Science In Public Participation (CSP2) [Centro para a Ciência em Participação Popular, em tradução livre], nos Estados Unidos. Chambers mantém desde 2009 uma base de dados com o registro de problemas em barragens de rejeitos em todo o mundo, cobrindo todo o último século. O que se pode aferir pelos números é que, se a quantidade de eventos diminuiu com o avançar da tecnologia, em contrapartida eles se tornaram muito mais graves e a previsão do cientista é que eles sigam ocorrendo em uma média de um grande desastre a cada ano.
Problema internacional
Na lista mantida por Chambers, o último evento classificado como grave também aconteceu no Brasil: foi a ruptura na barragem de uma mina em Itabirito, em setembro de 2014, deixando três mortos. Entretanto, o pesquisador faz questão de enfatizar que tragédias envolvendo reservatórios não estão limitadas ao país. “Quando divulguei os dados da minha pesquisa, a resposta que recebi da indústria foi de que na América do Norte isso nunca aconteceria. Seis meses depois, houve o rompimento da barragem em Mount Polley, no Canadá”, diz Chambers.
Na tragédia canadense, a maior da história desse tipo no país, não houve mortos, mas 23 milhões de metros cúbicos de rejeitos foram lançados no ambiente, atingindo reservatórios de água da região. Em agosto de 2015, um ano depois do desastre, uma equipe da Anistia Internacionalvoltou à área e encontrou moradores ainda inseguros em relação à qualidade da água, aumento nos níveis dos lagos e muitas dúvidas em relação à possível contaminação dos peixes, uma vez que havia criadores de salmão na área.
Jeremy Board / Flickr CC

Ativistas protestam contra a empresa Imperial Metals em abril deste ano no Canadá

Ativistas protestam contra a empresa Imperial Metals em abril deste ano no Canadá
“No caso da Imperial Metals, que operava a mina de Mount Polley, eles são uma companhia muito menor, não são um conglomerado internacional”, avalia Chambers. No Canadá, a mina onde ocorreu o desastre voltou a operar neste ano, alegadamente para a companhia ajudar a cobrir os custos ambientais do acidente causado por ela própria. “É diferente do caso brasileiro. Espero que BHP e Vale cubram os custos operacionais envolvidos. Elas são as donas da Samarco”, fala o cientista, enfatizando que usar companhias locais para fazer a exploração é um procedimento comum entre multinacionais e, portanto, não pode ser usado como pretexto para isentá-las de culpa.
Falta de dados
Durante a apuração dessa reportagem, Opera Mundi consultou três cientistas que acompanham desastres provocados por empresas mineradoras. Para todos eles, a falta de dados oficiais é um problema para definir a dimensão exata da tragédia ocorrida em Minas. Até agora, dados sobre a contaminação da água foram divulgados por Governador Valadares e Baixo Guaiú, no Espírito Santo, mostrando altos índices de alumínio, magnésio e arsênio (este último apareceu nas provas capixabas).
Fred Loureiro / Secom ES

Lama da barragem do Fundão, rompida no dia 5 de novembro, atinge o rio Doce na cidade de Resplendor (MG)

Lama da barragem do Fundão, rompida no dia 5 de novembro, atinge o rio Doce na cidade de Resplendor (MG)
Apesar de alarmados com os índices obtidos pelas provas, os cientistas acreditam que o método usado para a coleta não foi o mais adequado. “Neste momento, o que mais importa é testar a contaminação da água”, diz Chambers. “Pelos resultados dos testes já feitos, parece que eles foram realizados sem filtrar os sedimentos”, completa o geofísico, esclarecendo que o risco maior ocorre quando os metais estão dissolvidos na água.
Sem informações exatas, fica ainda mais complicado montar o intrincado quebra-cabeças do impacto ambiental provocado pelo vazamento. Magnésio em excesso na água, por exemplo, pode afetar o desenvolvimento mental das crianças, lembra a geoquímica Kendra Zamzow, também da CSP2. Zamzow acredita que o mais provável no caso brasileiro é que os metais estejam “presos” aos sedimentos, reduzindo o risco de contaminação. Entretanto, outro problema pode ocorrer, este relacionado ao depósito dos rejeitos: a formação de uma espécie de “cimento” no leito do rio, o que pode afetar a vida dos seres vivos presentes nas águas.
“Este caso da Samarco é muito maior que o de Mount Polley. No rompimento da barragem canadense, os rejeitos se espalharam por apenas oito quilômetros. Eles poderiam ter ido mais longe, mas foram parados pelo lago de criação de salmão”, diz a geoquímica Kendra Zamzow, também da CSP2.
quarta-feira, 18 de novembro de 2015
A Cidade do Peixe Bom
Caro leitor,
Temos a honra de publicar este artigo do Professor Marcos Spagnuolo, doutor em filosofia, apaixonado pela história de Paracatu, para a qual trouxe valiosas contribuições através de seus livros (Os negros em Paracatu, Paracatu: sua história e Vidas vividas em Paracatu), sempre procurando resgatar a história que ninguém quis contar.
Achamos que o texto abaixo faz parte dessa história que ninguém quer contar. O texto do Professor não foi aceito por um órgão de imprensa, devido ao seu teor contundente contra os donos do poder, mas aqui está porque, nas palavras de George Orwell, "liberdade de imprensa é você poder dizer aquilo que o outro não quer ouvir". O resto é propaganda!
Professor Marcos Spagnuolo
Era
uma vez uma região que existia quase no centro do Brasil que era habitada pelos
índios Tupis. O solo era vermelho com suas árvores de galhos tortuosos oferecendo
o buriti, mangaba, caju, baru, pequi, maracujá, jatobá, babaçu, cagaita, umbu,
murici, araticum, bacuri e macaúba.Inúmeros animais pastavam por essa banda
entre eles a anta, o cervo, onça-pintada, suçuarana, tatu-canastra, lobo-guará,
lontra, tamanduá-bandeira, gambá, ariranha, gato-palheiro, veado-mateiro,
macaco-prego, quati, queixada, porco-espinho, capivara, tapiti e preá.
Nos
anos de 1700, inúmeros aventureiros chegaram bem no interior dessa terra
descoberta pelos Portugueses e encontraram ouro em abundância, iniciando o
percurso da História elaborada pelos brancos, começando a devastação dos índios,
e posteriormente do cerrado. Todos os índios foram mortos, não sobrou nenhum
para contar a história sendo que os rios que passavam por essa região ficaram vermelhos
de tanto sangue pela matança indiscriminada dos aborígenes, ou nativos dessas
terras.
Em
cima do ossos dos índios construíram o arraial do Peixe Bom e a primeira capela
para pedirem a Deus mais ouro com o objetivo de sufocarem suas fomes por
riqueza. Para extraírem o ouro buscaram os negros que vieram de outras terras,
percorrendo grandes distâncias enfileirados, a pé e acorrentados, ou então, em
cima dos carros-de-boi. Muitos morreram no percurso e seus corpos foram
deixados para os animais saciarem sua fome.
Os
negros foram colocados nas senzalas e durante o dia, vigiados, cavavam a terra
buscando ouro que eram entregues aos seus donos que passaram a construir nesse
fim de mundo a Vila do Peixe Bom, agora, não somente em cima dos cadáveres dos
índios, mas, também das centenas de negros que aqui foram castigados,
humilhados, explorados, aniquilados e, torturados.
As
negras foram usadas como instrumento de prazer pelos senhores que aos domingos
iam com toda sua família rezar em uma das muitas igrejas que aqui foram
construídas. Os filhos bastardos viviam a margem carregando por toda a vida o
desprezo de seus irmãos consanguíneos e das esposas dos brancos. Ainda hoje
podemos nos colocar em silêncio para ouvir o choro das negras, dos negros, dos
seus filhos e dos bastardos por não compreenderem a causa de tamanho sofrimento
e dor. Se aprofundarmos no silêncio escutaremos também os gritos dos índios
sendo mortos porque estavam defendendo tudo aquilo que gostavam e amavam.
O
tempo foi passando, os negros que sobreviveram foram libertados, mas, permaneceram
nessa terra de sangue e aqui ergueram choupanas para abrigarem suas esposas e
filhos. Continuaram fazendo o que sempre fizeram que era tirar ouro da terra
sangrenta e vender, por preço barato, aos brancos endinheirados. No terreno em
volta do casebre feito de terra batida plantavam suas roças que garantiam suas
sobrevivências.
Arraial,
Vila e agora cidade do Peixe Bom que, tendo por fundamento a extração de ouro, receberam
as dragas que devastaram os rios e riachos. Garimpeiros acampados eram mortos e
seus acampamentos queimados pelos jagunços dos donos da cidade. Muitos brancos
enriqueceram, formaram fazendas, destruíram as matas, as nascentes e pequenos
cursos de água foram substituídos pelo gado visando o abate. Boiadas e mais
boiadas eram levadas para os matadouros distantes cortando o cerrado.
O
tempo passou, o ouro não acabou, e os garimpeiros e as dragas foram
substituídas pelo dragão avassalador, moendo milhões de toneladas de rocha para
tirar o ouro. A moagem liberou e continua soltando o pó, o arsênio, os micro
organismos desconhecidos que estão no interior das rochas. Tudo isso cai, como
se chuva fosse, sobre a cidade. O pobre e o rico, sorrindo vão respirando esse
ar pútrido, não somente o humano, mas também a vegetação, os animais e o gado
que devoramos para saciar a nossa fome. Não satisfeitos criaram mais e mais
barragens para aglutinar os rejeitos envenenados matando, na construção dos
reservatórios, as nascentes, rios, flora e fauna. O povo alegre comemora o
carnaval, a parada do dia da cidade e grita loucamente nos shows subsidiados
pela casa do povo, e também, como não poderia deixar de ser, pelo dragão que
tudo devora.
Descobriram
que no cerrado podiam plantar utilizando muito adubo e esparamadores de água
que roubam dos rios subterrâneos que é de todos. O cerrado vai diminuindo de
tamanho todos os dias e os donos das plantações jogam milhões de toneladas de
veneno em suas abençoadas hortas e esse veneno é levado pelo vento a todos os
lugares.
A
Cidade do Peixe Bom, alimentada pelos venenos, que são jogados na soja, nos
milharais e nos outros tipos de plantações, associada as impurezas do dragão
avassalador e pela secagem dos rios devido a criação dos pastos, eo povo vai
vivendo feliz, chupando sua cerveja, comendo seu churrasco envenenado e tomando
o leite branco como se fosse somente branco. Monta-se um teatro na cidade, onde
a apresentação gira em torno de uma beleza fictícia. Fotografias são tiradas
dos velhões casarões reformados, das cachoeiras que ainda restam ou dos rios
que a cada ano desaparecem, procurando esconder as tristezas que realmente
existem atrás dessas telas.
A
casa da justiça, bestificada, apegada a sua rotina continua com os olhos
vendados como se nada estivesse acontecendo. A casa do comandante da cidade
dirigida pelo galo encantado e a casa da lei controlada pelos pintinhos que
gostam dos farelos jogados pelo galo e pelo dragão avassalador fazem tudo que é
contra o povo. O galo encantado mandou matar a única árvore que restou do tempo
dos índios, e ainda manda construir uma casa administrativa em um terreno que é
de um amigo para pagar durante toda a existência, com o dinheiro dos
esfarrapados, o aluguel do terreno da construção.
Durante
a noite costumo ver os fantasmas dos que morreram buscando suas casas que não
mais existem, os parentes que não mais moram aqui e todos eles fazendo coro com
a alma dos índios e negros suplicando por mais justiça e que diminua a fome dos
nobres que somente querem ouro e mais ouro sem pensar nunca no povo que
continua escravo. Agora, a Cidade do Peixe Bom não mais existe, o dragão
avassalador cuspindo fogo de suas entranhas,
queima as últimas cinzas do que existiu.
quinta-feira, 12 de novembro de 2015
Rompimento da barragem da Samarco
Leia o que diz a Folha de São Paulo sobre o rompimento da barragem de rejeito da Samarco, em Mariana.
Véu de lama
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É impossível calcular todos os prejuízos humanos e ambientais provocados pelo rompimento de duas barragens da mineradora Samarco, controlada pela brasileira Vale e pela anglo-australiana BHP, gigantes do setor. As imagens e as informações ora disponíveis, contudo, bastam para escancarar as dimensões dessa tragédia.Somadas, as barragens continham 62 bilhões de litros de água e rejeitos do beneficiamento do minério de ferro, volume equivalente a um terço da represa Guarapiranga, em São Paulo, ou dez vezes a lagoa Rodrigo de Freitas, no Rio.
Essa imensa quantidade de lama escorreu morro abaixo e devastou um distrito de Mariana (MG), deixando pelo menos seis mortos, 19 desaparecidos e 637 desabrigados. Em seguida, a mistura pastosa avançou cerca de 100 km até o rio Doce, por onde percorrerá outros 600 km antes de desaguar no mar, na costa do Espírito Santo.
No trajeto, os resíduos de minério terão não só ameaçado o abastecimento de água de 500 mil pessoas que vivem perto do rio Doce, mas também causado a morte de um sem-número de animais, destruído os habitat de diversas espécies, soterrado nascentes e afetado unidades de conservação ambiental. Os impactos na vida silvestre se estenderão por muito tempo.
Quanto à saúde humana, a Samarco sustenta que os dejetos espalhados não lhe oferecem perigo. Tomara –mas existem suspeitas de que a água de algumas cidades da região contenha níveis elevados de metais tóxicos. Quem tem razão?
A dúvida, decerto, nada tem de irrelevante –e, para piorar, não se trata da única questão inaceitavelmente sem resposta.
Por que inexistia sistema de sirenes para alertar os moradores de Mariana? Por que a Samarco não apresentou o plano de contingência que diz ter e seguir, em observância às normas legais? Por que uma das barragens rompidas continuou em operação mesmo tendo sua licença vencida desde 2013? Por que os órgãos responsáveis permitem essa óbvia imprudência?
A outra barragem também tinha problemas conhecidos. Dois anos atrás, o Ministério Público recebeu um laudo que apontava riscos de deslizamento de um talude próximo ao reservatório. Ainda assim, a Samarco obteve a licença do Conselho Estadual de Política Ambiental.
Há muito a esclarecer acerca das possíveis causas desse desastre, e é preocupante que a desinformação também esteja contaminando suas consequências. Segundo uma força-tarefa do Espírito Santo, a Samarco não tem prestado informações adequadas sobre as providências que estão sendo tomadas para minimizar o problema.
Tal comportamento é inadmissível –e é de esperar que o peso das empresas envolvidas não turve o discernimento das autoridades competentes. As explicações precisam ser dadas quanto antes, para que se apurem as responsabilidades de todos que, por ação ou omissão, sujaram as mãos nessa lama.
segunda-feira, 9 de novembro de 2015
Tragédia em Mariana
TRAGÉDIA em BENTO RODRIGUES e outras comunidades próximas (Mariana)
e na Bacia do Rio Doce
NOTA DE LUTO E SOLIDARIEDADE
As 117 organizações, entidades, movimentos e todos os cidadãos que fazem parte da Frente Ampla Contra o Projeto de Lei nº 2946/2015, manifestam seu luto pelas perdas de vidas e sua solidariedade aos sobreviventes da tragédia, moradores do Distrito de Bento Rodrigues e outras comunidades próximas assim como aos trabalhadores da empresa Samarco (Vale/BHP), em Mariana, devido ao desmoronamento criminoso das barragens do Fundão e Santarém.
Nas últimas 72 horas nossas vidas estão interligadas com o sofrimento de quem vivenciou tão violento impacto e com o significado da gigantesca devastação ambiental e social de Bento Rodrigues, regiões próximas e os trechos da Bacia do Rio Doce por onde os rejeitos tóxicos seguem numa trilha de destruição sem precedentes.
Não há mais como pensar em Minas Gerais sem lembrar desta página nunca antes imaginada em nossa história, já repleta de situações de impacto oriundas de um modelo de economia e governança neocolonial extrativista intensa e desmedida.
A memória desta tragédia nos manterá mais fortes no empenho e mobilização contra o PL 2946/2015, que exclui a sociedade do processo decisório e não prevê real melhoria nas estruturas de licenciamento e fiscalização, apresentado em regime de urgência pelo Governador Pimentel e incondicionalmente apoiado pela Federação de Indústrias de Minas Gerais (FIEMG) e Sindicato da Indústria Mineral do Estado de Minas Gerais (Sindiextra).
Licenciamentos de projetos prioritários para o Governo do Estado não podem ser agilizados, porque intensificarão o processo de colapso ambiental e da crise hídrica no Estado de Minas Gerais. Somado com os impactos das mudanças climáticas, temos a certeza que o PL ampliará a probabilidade de novas tragédias sociambientais no futuro.
FRENTE AMPLA CONTRA O PL 2946/2015
sexta-feira, 6 de novembro de 2015
Ativista envia mensagem sobre o rompimento da Barragem da Samarco
Companheiros,
estamos
em Mariana e a tragédia é bem maior do que está sendo divulgada. Nenhuma
autoridade tem dados exatos. O atendimento aos atingidos ainda é bem desorganizado.
Sabemos que já são mais de 500 desabrigados.
A
mídia divulga apenas uma morte. Porém ninguém sabe ao certo. Nosso povo viu um
corpo boiando próximo à barragem de Candonga, que já está no Rio Doce. Muita
lama já chegou lá.
O
rejeito é tóxico. A Samarco não divulgou, mas a informação que temos é
que o rejeito contém arsênio, mercúrio e ferro. Que são muito tóxicos. Há risco
de contaminação de toda a bacia do Rio Doce. O distrito de Bento Rodrigues que
foi atingido tinha 188 casas e 65 % foram destruidas. A lama continuou descendo
e atingiu outras comunidades rurais, algumas a 70 km de distância da barragem,
como a comunidade Paracatu.
A
mídia destaca um abalo sísmico. Porém o professor da USP que divulgou o dado já
disse que esse tipo de abalo acontece todos os dias e que é muito difícil de
afetar uma barragem.
Muitas
pessoas estão desaparecidas e agora começou a chover aqui, o que dificulta as
buscas. Moradores do local atingido já vinham denunciando problemas na barragem
há 15 anos. Portanto para nós fica clara a negligência e a responsabilidade da
Samarco, que pertence à Vale e BHP Billington.
Solidariedade
ao povo atingido! E força para lutarmos contra essas mineradoras que matam o
povo.
Aline, do Movimento dos Atingidos por Barragens, em 6/11/2015.
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