Blog do Professor Márcio

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quarta-feira, 24 de junho de 2015

Para que lado pende a balança da Associação dos Magistrados Mineiros?

“todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza.”

   Associações civis, movimentos sociais, sindicato de trabalhadores(as), grupos de pesquisadores  que detêm notório saber sobre conflitos socioambientais, entidades e instituições que atuam na defesa do meio ambiente, da dignidade e dos direitos humanos da sociedade em geral e das populações tradicionais, em particular, vêm manifestar à sociedade mineira e à magistratura mineira e brasileira sua indignação e surpresa com os caminhos delineados na recente iniciativa da Amagis (Associação dos Magistrados Mineiros), de realizar um congresso sobre exploração minerária, concentrando sua escuta naqueles que são a fonte principal da judicialização relativa à matéria.

A programação e o perfil dos participantes revelam que a direção da Amagis privilegiou a presença de parlamentares financiados por mineradoras e de palestrantes declarada ou contratualmente comprometidos com as empresas e organizações corporativas que vêm causando toda sorte de degradação ambiental e social, realidade de amplo conhecimento da sociedade de Minas Gerais, bem como de outros estados onde o desequilíbrio vem se impondo.

Os movimentos sociais e as comunidades em conflito têm, reiteradamente, denunciado violações de direitos humanos e ambientais decorrentes de práticas empresariais e agravadas diante da impunidade e da omissão ou conivência de autoridades do Poder Público que deveriam zelar pelo cumprimento das leis e pelo estabelecimento da Justiça em todas suas dimensões.

Ante tal realidade, todavia, a Amagis opta por privilegiar representantes de empresas e de grupos de interesses da mineração, que têm se pautado em colegiados ambientais e de recursos hídricos, em lobbies nos parlamentos e gabinetes dos poderes executivos das três esferas federativas, para obter privilégios de ordem legal e normativa, exercer abusos e pretensos direitos que violam princípios constitucionais e vilipendiam o bem comum e o sentido mais básico de Justiça e Democracia.

Muitas das instituições convidadas paras as mesas do I Congresso Mineiro sobre Exploração Minerária, que será realizado nos dias 22 e 25 de junho de 2015, [http://www.amagis.com.br/plus/modulos/noticias/ler.php?cdnoticia=17002&cdcategoria=&layout=noticias] são promotoras ou cúmplices de devastação ambiental, da destruição de ecossistemas produtores de água e de condições de vida, e de um cotidiano de violência contra populações vulneráveis no Estado de Minas Gerais.

Nesta configuração, percebemos que o evento organizado pela Amagis vem, factualmente, favorecer os abusivos interesses da mineração e do desenvolvimento não sustentável que têm marcado a cara de um estado e de um país atrasado e cada vez mais dependente da incondicional produção de commodities, por mais que os marqueteiros de plantão tentem passar uma imagem totalmente incompatível com a realidade escancarada à vista de todos.

Ao dar preferência ao lado mais poderoso (política e financeiramente) no debate sobre direitos, conceitos econômicos, planejamento e desenvolvimento, a Amagis vem, por um lado, ignorar que a judicialização em curso resulta em grande parte do abuso da autoridade e do exercício do poder econômico, que busca impor e legitimar na Justiça condições e projetos insustentáveis para as gerações atuais e as futuras. Por outro lado, que a luta por segurança jurídica é hoje uma premência das comunidades violentamente atingidas pelas atividades de mineração, assim como de toda a sociedade que não mais aceita a destruição generalizada dos seus bens naturais – razão pela qual não há como discutir uma realidade ou um segmento de atividades que ultrapassou em muito os limites de uma sociedade sustentável.

Como poderão os magistrados, estudantes e advogados participantes do congresso empreendido pela Amagis,  realizado com o “objetivo de promover o aperfeiçoamento da prestação jurisdicional”,  terem uma compreensão equilibrada de uma realidade narrada basicamente pelos consultores de empresas e sindicatos da mineração? Ao proceder de forma tão enviesada este evento, que deveria comemorar os 60 anos da Amagis, vem reforçar a impressão que boa parte dos movimentos sociais e da sociedade brasileira têm da Justiça. A de que, salvo honrosas exceções, muitas de suas decisões privilegiam os mais poderosos, dão preferência aos argumentos e ao calibre das bancas de advogados que os grandes grupos econômicos conseguem contratar, em prejuízo da ideia de uma justiça que busque se pautar e que também deveria pautar o equilíbrio.

A escassez de recursos naturais, a anunciada exaustão de reservas minerais e a extinção de sistemas hídricos parecem não ser de interesse de parte do Executivo, do Legislativo e agora também, claramente, de parte importante que representa o Judiciário mineiro.

Espera-se que a Amagis seja parcimoniosa e vigilante. Que prestigie o contraditório, princípio basilar do direito. Que conheça e reconheça o porquê da judicialização no contexto da exploração minerária, reflexo de uma indesejada realidade que a quase todos atinge e inferniza, no plano dos direitos difusos, do desenvolvimento socioeconômico de longo prazo e do dia-a-dia da vida de famílias, comunidades tradicionais e da consciência dos cidadãos que querem um país melhor e se indignam a cada ato de barbárie.

A Amagis, ao escolher o caminho da composição de cena deste congresso, evidencia o propósito de realizar o aperfeiçoamento dos formadores e instrumentadores do direito, de forma a solucionar tais demandas de forma parcial e temerária, alijando permanentemente atores e estudiosos, organizações sociais, públicas e privadas que conhecem de perto a situação da população mais atingida e distante dos holofotes dos poderes e de uma ordem econômica e de comunicação que arrisca passos preocupantes para o futuro de um povo altivo. 

As entidades abaixo assinadas registram sua perplexidade com a estratégia de fortalecimento dos interesses econômicos e políticos da mineração que visam ao apressamento da solução dos processos, desconsiderando os graves problemas socioambientais oriundos desta atividade econômica em Minas Gerais.


ASSINAM ESSA NOTA:

Ação Franciscana de Ecologia e Solidariedade - AFES
Articulação da Bacia do Rio Santo Antônio
Articulação Popular pelo São Francisco Vivo
Associação de Conservação Ambiental e Orgânica -ACAÓ
Associação de Defesa e Desenvolvimento Ambiental de Ferros – ADAAF
Associação do Patrimônio Histórico, Artístico e Ambiental de Belo Vale (APHAA-BV)
Associação Para a Recuperação e Conservação Ambiental (Arca Amaserra)
Brigadas Populares
Caminhos da Serra
CEIB (Centro de Ecologia Integral de Betim) 
Coletivo Margarida Alves de Assessoria Popular
Comissão Pastoral da Terra (CPT-MG).
Conselho Pastoral dos Pescadores - CPP/MG
Fica Ficus
Fórum Nacional da Sociedade Civil na Gestão de Bacias Hidrográficas (Fonasc – CBH)
GESTA - Grupo de Estudos em Temáticas Ambientais da UFMG
Instituto Guaicuy - SOS Rio das Velhas
Justiça nos Trilhos
Laboratório de Cenários Socioambientais em Municípios com Mineração –  Labcen (PUC Minas)
Movimento Águas e Serras de Casa Branca
Movimento Nacional pela Soberania Popular Frente à Mineração – MAM
Movimento pela Preservação da Serra do Gandarela
Movimento pelas Serras e Águas de Minas – MovSAM
NIISA-UNIMONTES
Núcleo de Investigações em Justiça Ambiental (NINJA) da UFSJ
ONG Abrace a Serra
Rede de Articulação e Justiça Ambiental dos Atingidos Projeto Minas-Rio – REAJA
Rede Nacional de Advogados Populares – MG
Serviço Interfranciscano de Justiça, Paz e Ecologia – Sinfrajupe
Sindicato Metabase Congonhas
Unidos por Conceição - UNICON

sexta-feira, 19 de junho de 2015

Laudato Si: Organizações sociais aprovam encíclica papal sobre meio ambiente

Organizações sociais de todo o mundo aprovaram a encíclica sobre meio ambiente que o Vaticano divulgou oficialmente ontem (18). No documento pontifício – espécie de carta aos bispos, fiéis e a toda a população interessada -, o Papa Francisco lembra que a poluição atmosférica provoca milhões de mortes prematuras, particularmente entre os mais pobres.
Na encíclica, o Papa concorda com os estudos científicos que apontam a ação humana como maior causadora do aquecimento global e reforça a tese de que, se nada for feito, o desabastecimento e o controle d´água por grandes empresas se transformará em uma das principais fontes de conflitos das próximas décadas.
Para o Greenpeace, organização não governamental (ONG) de proteção ambiental, a divulgação do documento papal a menos de seis meses da 21ª Conferência das Partes da Organização das Nações Unidas (ONU) sobre Mudanças Climáticas, a COP-21, é um forte sinal de que o mundo precisa de um acordo relevante,para evitar que o meio ambiente continue sendo degradado. A organização aponta ainda que os líderes mundiais precisam dar uma resposta à altura do desafio climático. A conferência está agendada para dezembro, em Paris, na França.
Em nota, o Greenpeace diz que considera “extremamente valiosa” a intervenção do Papa Francisco e que a encíclica é “clara e franca” ao tratar da necessidade de mudanças políticas mundiais.
“As palavras do Papa devem servir para afastar os governantes de seu comportamento apático. Elas são um incentivo para que os líderes aprovem legislações severas de proteção ao clima em seus países. E para que, em Paris, no final do ano, cheguem a um sólido acordo sobre o clima”, diz a nota do Greenpeace. A organização ambiental cobra do Brasil o fim do desmatamento e mais investimentos para expandir o uso de fontes de energia renováveis, como a solar.
A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) também se pronunciou sobre o assunto. Durante entrevista coletiva em Brasília, esta tarde, o presidente da instituição religiosa e arcebispo de Brasília, Dom Sergio da Rocha, destacou que, no texto, o papa Francisco conciliou a crença mística com o rigor científico, embasando sua argumentação em dados de pesquisas recentes e em sua própria fé.
Já o vice-presidente da CNBB, Dom Murilo Krieger, destacou o realismo, a proatividade e a coragem da encíclica. “Esta encíclica aborda a atual situação mundial em termos de meio ambiente, mas não fica apenas nisso, na crítica. Ela aponta caminhos, dá esperança de que é possível mudar a situação. E é corajosa ao propor que é necessário uma mudança de mentalidade”, afirmou.
Na encíclica, entre outras coisas, o Papa Francisco afirma que, além de a sociedade ainda não dispor da “cultura” necessária para enfrentar a crise ambiental, faltam lideranças capazes de apontar novos caminhos para satisfazer as necessidades das gerações atuais, sem prejudicar as gerações futuras.
O Papa é taxativo ao manifestar sua preocupação com a “fraqueza da reação política internacional” ao problema. Segundo ele, a submissão da política à tecnologia e à economia pode ser constatada na “falência” das cúpulas mundiais sobre o meio ambiente, cujos resultados são sempre inferiores às expectativas.
“Há demasiados interesses particulares e, com muita facilidade, o interesse econômico chega a prevalecer sobre o bem comum e manipular as informações para não ver afetados seus projetos”, destaca a encíclica.
“Cresceu a sensibilidade ecológica das populações, mas é ainda insuficiente para mudar os hábitos nocivos de consumo, que não parecem diminuir”, diz a nota. “Entretanto, os poderes econômicos continuam a justificar o sistema mundial atual, onde predomina a especulação e a busca de receitas financeiras que tendem a ignorar todo o contexto e os efeitos sobre a dignidade humana e sobre o meio ambiente”, destaca.
O subsecretário-geral da ONU e diretor-executivo do Programa das Nações Unidas Para o Meio Ambiente (PNUMA), Achim Steiner, divulgou nota em que compara o apelo do papa Francisco por mudanças que detenham a degradação ambiental a um “toque de clarim que ressoa, não só para os católicos, mas para todos os povos da Terra”.
“Não devemos esquecer que os mais pobres e vulneráveis são os que mais sofrem com as mudanças que estamos vivenciando. A gestão ambiental dos seres humanos para o planeta deve reconhecer os interesses, tanto das gerações atuais, como das futuras”, afirma Steiner, reforçando que a busca por respostas aos atuais problemas é um imperativo moral.
“Diante do que sabemos hoje, tanto sobre o estado do nosso planeta quanto sobre as escolhas que podemos fazer, não pode haver dúvidas ante o risco de sofrermos graves consequências. Todos devemos reconhecer a necessidade de reduzir o nosso impacto ambiental, além de consumir e produzir de forma sustentável”, disse o subsecretário-geral da ONU. Ele se mostrou esperançoso de que um acordo sobre o clima, durante a COP-21, traga oportunidades de “alterarmos positivamente o curso da história, criando um mundo melhor e mais justo para todos”.
Por Alex Rodrigues, da Agência Brasil
Publicado no Portal EcoDebate, 19/06/2015
Publicado em junho 19, 2015 por 
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quarta-feira, 3 de junho de 2015

Contaminação em Paracatu na imprensa de Brasília

A imprensa de Brasília tem dado destaque aos impactos socioambientais da mineração aurífera em Paracatu. A participação da imprensa brasiliense na divulgação desta tragédia ambiental é de grande importância para a resistência, não apenas porque é grande o número de paracatuenses e seus descendentes no Distrito Federal, mas porque lá está o núcleo do poder dirigente da Nação.

Abaixo, apresento aos leitores os links para direcioná-los às matérias de jornal e tv.

Os links abaixo são de matérias publicadas pelo Correio Braziliense, em 27/05/2015, 28/05/2015, 29/05/2015 e 31/05/2015, respectivamente.

http://www.correiobraziliense.com.br/app/noticia/cidades/2015/05/27/interna_cidadesdf,484622/ong-internacional-prepara-relatorio-sobre-envenenamento-em-paracatu.shtml



http://www.correiobraziliense.com.br/app/noticia/cidades/2015/05/29/interna_cidadesdf,484916/com-arsenio-presente-no-corpo-moradores-de-paracatu-recorrem-a-justica.shtml



Os links abaixo são de matérias publicadas pela TV Brasília, em 2/6.

http://www.correioweb.com.br/page/tvbrasilia/#video_316656

www.correioweb.com.br/page/tvbrasilia/#video_316661



quinta-feira, 28 de maio de 2015

El País, um jornal global, denuncia os impactos socioambientais da mineração em Paracatu

Com três matérias publicadas em 26 de maio/2015, o jornal global El País denunciou a contaminação ambiental por arsênio, o impacto territorial da mina sobre a cidade de Paracatu e  a destruição dos povoados e da cultura quilombola pela mineração aurífera.

Os links de acesso às três matérias estão abaixo. Boa leitura!

http://brasil.elpais.com/brasil/2015/05/25/politica/1432561404_705347.html

http://brasil.elpais.com/brasil/2015/05/25/politica/1432566478_465367.html

http://brasil.elpais.com/brasil/2015/05/25/politica/1432566478_465367.html#quilombola


Reportagem do Correio Braziliense denuncia a contaminação


Exames de parte da população de Paracatu comprovam contaminação por arsênio

Fonte: CorreioBraziliense - Ver notícia original


Minervino Junior/CB/D.A Press - 11/3/15


Paracatu (MG) — A cerca de 200km de Brasília, uma comunidade vive lado a lado com toneladas de uma substância tóxica. O arsênio liberado pela maior mineradora de ouro a céu aberto do país — distante 250 metros do centro urbano — afeta a vida de mais de 90 mil pessoas que moram no município mineiro de Paracatu. O medo dos efeitos nocivos do composto tem resultado em audiências públicas, além de visitas de representantes de organizações não governamentais e de acadêmicos à cidade. Sobretudo, tirou a população da inércia. Alguns moradores buscaram diagnósticos laboratoriais para comprovar indícios de uma suposta contaminação em massa. O caso, denunciado há pouco mais de dois meses pelo Correio, teria relação com taxas crescentes de câncer na região.
Com exames nas mãos que atestam alto índice de arsênio no corpo, moradores — entre eles, pequenos agricultores e ex-funcionários da empresa — pretendem mostrar que são vítimas de uma história iniciada na década de 1980, com a chegada da primeira mineradora no município. Se antes eles conviviam com a dúvida da contaminação aos recursos naturais e ao ser humano, agora, começam a documentar o que de fato existe. Um dos laudos, de uma pessoa que preferiu o anonimato, mostra índice de arsênio de 15,7µg/g de creatinina, quando o valor de referência é de 10µg/g.
A multinacional canadense Knorss rebate as alegações, amparada em estudos que mostram o baixo teor de arsênio em amostras de águas e sedimentos da cidade, como um relatório realizado entre 2011 e 2013 pelo Centro Tecnológico Mineral (Cetem) — unidade de pesquisa do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação, encomendados pela Prefeitura de Paracatu.
A agitação do centro urbano está a 15km da propriedade de Irineu Pereira da Silva, 63 anos, próxima ao Ribeirão Santa Rita. O lugar é vizinho de um curso d’água, onde pescar e se refrescar eram hábitos antigos. Tudo mudou com a chegada de duas barragens de rejeito — local onde são depositados resíduos líquidos e sólidos decorrentes do processo de extração do ouro.
O mesmo estudo que atesta o baixo índice de arsênio nos recursos naturais da cidade aponta altos teores da substância nas águas do Santa Rita, com valores de 13,5µg/l a 19,1µg/l de arsênio — o estabelecido pelo Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama) é de até 10µg/l. “Moramos na zona de maior impacto, pois estamos do lado de uma lagoa com arsênio, cianeto e outros metais pesados. Quando a empresa chegou, a nossa água morreu. Tinha peixe, e não tem mais”, contou Irineu. “A minha mulher morreu com câncer de fígado. O que eu quero é ser indenizado e sair daqui.”
O exame de Irineu aferiu índice de arsênio de 5,6µg/g de creatinina urinária — valor abaixo do limite estabelecido em portarias que tratam sobre o tema. Cientistas, contudo, alertam para mudança de padrões nessas análises. Segundo o geólogo e mestre em planejamento e gestão ambiental Márcio José dos Santos, em Paracatu, as pessoas estão expostas naturalmente a um teor maior de arsênio, mas isso não significa dizer que amostras de 7µg/g ou 8µg/g estão livres de contaminação. O discurso é reforçado pelo médico do Departamento de Oncologia do Hospital da Universidade de Berna, na Suíça, Sergio Ulhoa Dani, que enfatiza o fato de não existirem doses seguras do arsênio no corpo, substância denominada por ele como “altamente cancerígena”.
Ações
A Justiça Global, uma ONG com foco nos direitos humanos, prepara relatório sobre o caso de Paracatu, que abordará, entre outras questões, a violação de direitos das comunidades quilombolas (que tiveram terras compradas pela empresa), impactos na saúde da população e o processo de licenciamento para construção das barragens de rejeito. Segundo a pesquisadora da entidade Daniela Fichino, diferentes especialistas estiveram na região. A suposta contaminação por arsênio também estará no texto do documento, previsto para ser publicado até julho. Deputados estaduais de Minas Gerais também programam uma audiência pública na cidade.
Há mais de 40 anos vivendo próximo ao Santa Rita, a agricultora Maria Helena Nunes, 66, não se surpreendeu ao receber o resultado do exame de arsênio, que constatou patamar de 14,2µg/g de creatinina, acima do indicado na Portaria nº 24, de 29 de dezembro de 1994, cujo valor de referência de normalidade é até 10µg/g para população não exposta em serviços. Em nota, porém, o Ministério da Saúde ressalta que esse valor pode variar consideravelmente a depender de fatores ambientais, hábitos alimentares e sociais, entre outros, não podendo ser utilizado como único parâmetro para avaliação do nível de intoxicação humana ao arsênio. “Parentes meus também estão contaminados”, diz a agricultora. Elane Nunes Alves, 36, filha dela, faz relação direta entre os problemas de saúde dos animais da fazenda e a água ingerida por eles próximo das barragens.

Fonte: CorreioBraziliense- Ver notícia original

quarta-feira, 13 de maio de 2015

Impactos socioambientais de Paracatu no The Guardian

O principal jornal londrino - The Guardian - apresentou matéria produzida pelos jornalistas Heriberto Araújo e Anna Veciana, sobre os impactos socioambientais em Paracatu pela exploração da mina de ouro.
Como uma grande parte de nossos leitores não tem conhecimento suficiente para a leitura do texto em inglês, resolvemos apresentar aqui uma tradução livre, que, se não é excelente, pelo menos é inteligível e confiável. Veja a nossa tradução.



Companhia canadense de mineração espionou opositores e ativistas no Brasil

Ambição da Kinross Mining Company de criar mina de maior produção de ouro no Brasil maculada por riscos à saúde e ameaças a ativistas e opositores.





Jalviana Morais da Costa, 86, is a former garimpeira, or gold hunter in the river banks in Paracatu, Brazil
Juliana Morais da Costa, 86, é uma ex-garimpeira, ou caçadora de ouro nos barranco de rio em Paracatu. Brazil Photograph: Luis de las Alas





The mining activities are carried out as close as 200 meters from the urban area.

As atividades de mineração ocorrem a cerca de 200 metros da área urbana. Photograph: Luis de las Alas

A exploração de ouro em Paracatu começou ainda em 1722. Mas os dias dos garimpeiros, ou caçadores de ouro, estão muito longe. Desde os anos 1990 a exploração passou das margens do rio para depósitos subterrâneos. Dinamite, escavadeiras e produtos químicos substituíram os garimpeiros, que foram empurrados para fora de um negócio que tinha sustentado centenas de famílias.

Preços crescentes do ouro

Em 2005, a empresa canadense Kinross - que é listada na New York Stock Exchange e possui minas de ouro no Chile, Estados Unidos, Rússia e Gana, entre outros países - assumiu a concessão mineira em Paracatu. Durante um período em que os preços do ouro subiram para novos patamares históricos em mercados globais, a Kinross investiu US $ 1,86 bilhão no negócio, triplicando a produção anual para as atuais 15 toneladas e tornando a mina de ouro de Paracatu a mais produtiva no Brasil. Como o ouro em Paracatu não assume a forma de grão ou pepita, mas de pó, a empresa teve que intensificar enormemente as atividades de mineração para manter a produção. Hoje, cerca de 160 buracos de dinamite são detonados diariamente para escavar o Morro do Ouro, o Golden Hill, como os moradores referem-se à área onde os principais depósitos são encontrados.

Em consequência, a geografia local foi profundamente transformada. Quando nos aproximamos da área de lavra constatamos uma imensa cratera que abrange 615 hectares, a metade do tamanho do Aeroporto de Heathrow, e se assemelha a uma paisagem lunar. Os únicos sinais de vida são os bulldozers imponentes e os veículos “fora de estrada” que transportam as pedras para a planta de beneficiamento. Lá, produtos químicos tóxicos, incluindo cianeto, são empregados para separar o pó de ouro, que é mais tarde fundido em lingotes e transportado de helicóptero para São Paulo para exportação para o mundo inteiro.

Riscos do Arsênio para a Saúde

Embora seja difícil negar o impacto visual  -, além da área de mineração, duas grandes barragens do tamanho de mais um Aeroporto Heathrow são utilizados para eliminação de resíduos tóxicos - muitos argumentam que a mina representa uma ameaça para o ambiente local e para a saúde dos 90 mil moradores de Paracatu. Não bastasse o fato de se usar dinamite para retirar as reservas de ouro de lugares próximos de 200 metros da área urbana, o metal precioso é misturado na rocha com arsênio, um cancerígeno.

O arsênio é comumente encontrado em minas de ouro, mas em Paracatu é uma preocupação especial. De acordo com Márcio José dos Santos, um geólogo e ativista local, para cada tonelada de rocha removida apenas 0,4 grama de ouro é recuperada e 1kg de arsênio é liberado para o ar e as águas subterrâneas. "Ninguém sabe quanto arsênio está indo para a cidade. Aqui, o vento sopra de nordeste, significa que o arsênio viaja no ar desde a mina até a área urbana. As pessoas estão inalando a poeira tóxica e, consequentemente, estão inalando arsênio ", explica José. Sergio Ulhoa Dani, um médico local e, também, oponente da mina, argumentou em um artigo científico recente que "o dano potencial de arsênio em uma mina de ouro como a de Paracatu poderia impactar sete trilhões de pessoas".




Intensive mining has created a crater reminiscent of lunar landscape

A mineração intesiva criou uma cratera que lembra uma paisagem lunar. Photograph: Luis de las Alas
Muitos na cidade questionam se sua vida está em risco, enquanto a palavra "câncer" tornou-se um tabu. Os dados da Prefeitura Municipal de Paracatu mostram que a taxa de mortalidade por câncer na cidade é semelhante ao resto do país. Os críticos argumentam que as estatísticas do governo local não são confiáveis. Como Paracatu carece de instituições médicas, os pacientes se deslocam para hospitais localizados a centenas de quilômetros de distância para receber tratamento e, portanto, não são contados em dados oficiais da cidade.

Os opositores enfrentam assédio e ameaças

A posição da empresa também está sendo questionada. De acordo com documentos vistos pelo The Guardian e entrevistas com ex-funcionários, vários funcionários da Kinross trabalharam em uma unidade de inteligência para rastrear qualquer atividade potencial contra a mina ou a reputação da empresa.

Em entrevista ao The Guardian, Gilberto Azevedo, gerente geral da mina, negou qualquer risco para a saúde ou o ambiente. "Nós monitoramos tudo. As pessoas nada têm a temer, porque nós temos tudo sob controle. Nós fazemos testes ambientais e biológicos regularmente, e contratamos fontes externas para realizar estudos. Todos eles mostram que não há risco." Ele também enfatizou a importância econômica da atividade da empresa para a região. Em 2014, a Kinross pagou cerca de US $ 10 milhões em impostos e atualmente emprega 3.300 pessoas na mina, cerca de 8% da população ativa na cidade.
Gilberto Azevedo, general manager of the Kinross mine, argues there is no health risk for the 90,000 local residents

Gilberto Azevedo, gerente geral da mina da Kinross, afirma que não há risco para a saúde dos 90.000 habitantes. Photograph: Luis de las Alas

No entanto, a tensão é perceptível. Enquanto dirigíamos através das vias públicas que fazem divisa com a mina, um guarda armado, que vinha seguindo o carro por uma hora, nos fez parar e nos fez perguntas.

Dezenas de documentos e e-mails internos vistos pelo The Guardian mostram que em 2012 e 2013 a Kinross tinha uma política de monitorar regularmente os potenciais adversários em Paracatu, incluindo o ex-prefeito Almir Paraca - conhecido por contestar abertamente a mina - e vários líderes sindicais.

"Eles monitoram os movimentos sociais, políticos, associações de moradores e seus representantes, ativistas ambientais, líderes sindicais ... Eles até mesmo monitoram o que alguns dos funcionários da Kinross fazem no seu tempo livre. O principal objetivo é abafar ou reprimir qualquer ação, manifestação ou referência contra a empresa de mineração ou seus interesses", disse uma das fontes, conhecedora das políticas da Kinross,  por causa de sua/seu antigo posto na empresa.

Pelo menos duas ativistas locais - Rafaela Luiz Xavier e Evane Lopes - tiveram que abandonar a cidade nos últimos meses, depois que elas receberam ameaças de morte, as quais elas afirmam estarem relacionadas a sua oposição à mina.

"Não temos nada a ver com isso. A Kinross é uma empresa que dialoga com a comunidade", diz Azevedo, quando perguntado se a empresa de alguma forma está envolvida nas ameaças a ativistas. A Kinross também negou estar monitorando ativistas ou oponentes.

Caro Leitor: Se você quiser acessar diretamente o site do The Guardian e ler o texto original, clique aqui. Se você quiser divulgar o texto original do The Guardian, use as ferramentas abaixo: