Blog do Professor Márcio

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terça-feira, 15 de janeiro de 2013

O Garimpo em Paracatu Uma história que precisa ser contada – Capítulo III


Como vimos nos capítulos anteriores, quando se fala do garimpo em Paracatu é preciso distinguir o garimpo tradicional ou artesanal, cujo objetivo era a subsistência ou a complementação de renda da família do garimpeiro, e o garimpo mecanizado, empreendimento capitalista cujo objetivo era o lucro.
No garimpo mecanizado, o cascalho extraído nas praias era inicialmente passado em calhas carpetadas, onde se fazia uma primeira concentração. Os carpetes eram depois lavados num tambor de 200 litros, processo repetido durante alguns dias, ás vezes uma semana. Depois, o material do tambor era peneirado em um caixote, para diminuir a quantidade de estéril. Em seguida, o material do caixote era concentrado na bateia. Nessa fase final, pingava-se sobre o concentrado de bateia uma quantidade de mercúrio que, sendo agitada, formava um amálgama com o ouro. O resultado é uma espécie de bola ou bolacha de mercúrio-ouro e algumas impurezas. Levada para um cadinho, esse amálgama era queimado com maçarico, evaporando-se o mercúrio e restando o ouro com as impurezas, a maior parte constituída de minerais pesados.
Quando se iniciou a prática de amalgamação em Paracatu, todo o amálgama era queimado na própria área do garimpo, ao ar livre. Mais tarde alguns compradores de ouro montaram oficinas de queima do amálgama, no centro da cidade, ou simplesmente queimavam o amálgama em suas próprias casas. Há referências de oficinas que usavam retortas para conter o gás de mercúrio e exaustores de ar. Havia donos de garimpo que também eram donos de oficina de compra e queima de amálgama. Também existiam compradores de ouro de outras localidades, que adquiriam o amálgama diretamente de donos de garimpo, num esquema competitivo. Ainda assim, alguns donos de garimpo persistiam em realizar a queima ao ar livre, pelo menos de uma parte da produção, uma vez que, no ambiente inflacionário em que se vivia, a posse do ouro era mais importante do que a do dinheiro. Com o ouro, que se valorizava diariamente frente ao papel-moeda, podia-se adquirir máquinas e mercúrio pagando-se à vista e obtendo-se descontos, refletindo em maior lucro para o garimpo.
Não se sabe até que ponto a queima do amálgama em oficinas no centro da cidade afetou o ambiente, uma vez que não foram realizados estudos para dimensionar o impacto. Notícia publicada em jornal local, em janeiro de 1987, dava conta de contaminação por mercúrio de um ex-garimpeiro, que tinha virado comprador de ouro. Nas duas atividades, ele jamais se preocupara com o problema e, por isso, de modo irracional, fazia amalgamação e queimava o amálgama sem os devidos cuidados de proteção. Enfim, depois de três anos, descobriu que seus sintomas neurológicos eram ocasionados pela contaminação por mercúrio, com teor de 2,3 microgramas no sangue. Essa notícia preocupou os donos de dragas, de maneira que um deles argumentou que estava sendo feito um alvoroço, concentrando o problema da contaminação química apenas nos garimpeiros, esquecendo-se da grande mineradora que estava sendo instalada na cidade .

Fonte: Folha do Noroeste, Ed. 32, set.1987, p. 10.

A campanha para a proibição do garimpo em Paracatu coincidiu com o início das atividades da mineradora Rio Paracatu Mineração S.A., em 1987, naquela época controlada pela Rio Tinto Zinc. Embora este pareça ser o fator determinante para a proibição, contribuiu também a imagem da devastação e degradação social dos garimpos da região Norte, bastante veiculadas na mídia nacional.
Não existem dados sobre a disseminação da prática da queima ao ar livre, nem da quantidade de mercúrio que foi empregada nos garimpos de Paracatu. Os pretensos estudos, que nunca foram divulgados à população local, apenas serviram para dar base a uma campanha contra toda forma de garimpo, de maneira irracional e beirando a histeria. Essa campanha foi orquestrada pela Rio Paracatu Mineração e órgãos públicos, como a FEAM e o DNPM, e apoiada por grupos locais sensíveis à questão ambiental.
Em agosto de 1990, o jornal O Movimento transcreveu uma notícia publicada pelo jornal Estado de Minas, de Belo Horizonte, informando que a Fundação Estadual do Meio Ambiente (FEAM) apresentou um relatório de estudos realizados em Paracatu, “concluindo ser evidente o elevado grau de contaminação ambiental e das próprias pessoas pelo mercúrio”. Por isso, a solução seria a retirada do local das pessoas contaminadas, encaminhando-as para tratamento intensivo, e os moradores das áreas afetadas que apresentassem taxas normais de mercúrio no sangue deveriam realizar exames médicos e psicológicos periódicos.
Quando se analisa a notícia acima citada à luz dos fatos, algumas questões precisam ser levantadas. Primeiro, se realmente houve um estudo de tal envergadura, por que a sociedade paracatuense, garimpeiros principalmente, o desconheciam? Tal estudo só poderia ser realizado a campo, entrevistando pessoas nas áreas de risco e colhendo delas material para análise, de maneira que é impossível realizá-lo sem que as pessoas se dessem conta disso. Em segundo lugar, se o estudo foi realmente realizado em base científica, por que não foram apresentados os resultados à quem mais eles poderiam interessar – a sociedade paracatuense, garimpeiros principalmente? Finalmente, se uma instituição do Estado, como é a FEAM, viu a necessidade de remover e tratar urgentemente as pessoas afetadas, quais eram essas pessoas e por que isso não foi realizado? Neste caso, estaríamos diante de uma omissão grave do poder público, passível de responsabilização.
Entretanto, estudos recentes mostram que a contaminação do solo e das águas superficiais por mercúrio na região de Paracatu não chegou a nível de contaminação generalizada. Os pesquisadores Senderowitz e Cesar, da UnB, analisaram 23 amostras de água fluviais, 17 amostras de solo e 17 amostras de sedimentos fluviais da região de Paracatu e concluíram que as concentrações de mercúrio estavam em conformidade com o valor estipulado pela OMS e da Portaria 518 do Ministério da Saúde (10 μg/L). Outro pesquisador da UnB, Gurgel, realizou um estudo geoquímico de água e sedimentos de fundo para avaliar os impactos ambientais na bacia do Córrego Rico, concluindo que os fatores de contaminação por metais são baixos, que a distribuição geoquímica do mercúrio em sedimentos é uniforme, que os sedimentos de fundo apresentaram variações dentro da normalidade, segundo a legislação, e que a deposição de esgoto doméstico sem tratamento no córrego é o principal agente contaminante.
Assim, fica evidente a mentira do “elevado grau de contaminação ambiental pelo mercúrio” na cidade de Paracatu. Entretanto, a campanha difamatória contra o garimpo foi fundamental para a condenação da prática garimpeira, origem desta cidade centenária.
Tanto as autoridades, quanto as instituições ligadas à administração pública, assim também a parte mais esclarecida da sociedade e a imprensa local, não se preocuparam em divulgar verdades científicas e, principalmente, realizar um trabalho de educação socioambiental junto à comunidade paracatuense, sobremaneira junto ao garimpo e oficinas de queima de amálgama. Um evento, até certo ponto hilário, do irracionalismo da campanha contra o garimpo, foi divulgado por um jornal local, em 1987, com o título “Porco nasce com face humana: Fetos retirados de porca assombraram Paracatu com faces de outros animais, suspeita-se de contaminação por mercúrio, usado no garimpo”, conforme imagem abaixo.
Fonte: Folha do Noroeste, Ed. 29, ago. 1987, p. 11.

 A correlação entre os fetos deformados e o garimpo correu por conta da campanha maldosa, uma vez que no final do artigo aparece um depoimento de uma pessoa, cujo nome não foi citado, que se dizia dono da porca e afirmava ser tudo mentira, que a porca tinha sido morta em uma fazenda muito distante e os fetos levados para a cidade.
Porém, a sorte estava lançada e a proibição de toda forma de garimpo em Paracatu seria a primeira vitória da mineradora que se instalara no Morro do Ouro. No próximo capítulo veremos alguns desfechos desta batalha.

O Garimpo em Paracatu: Uma história que precisa ser contada – Capítulo II


Quando a RioTinto Zinc do Brasil, uma transnacional inglesa, bloqueou a jazida de ouro no Morro do Ouro e iniciou o desenvolvimento e lavra do depósito, houve uma verdadeira “corrida do ouro” para os cascalhos auríferos de Paracatu. Falava-se que em Paracatu havia 90 toneladas de ouro e que ele brotava nas ruas. Não se pode precisar o número de pessoas atraídas ao garimpo, é estimativa que varia a gosto de cada um, sempre tendendo ao exagero, indo de dois mil a cinco mil.
Esse novo surto garimpeiro viria utilizar novidades tecnológicas de extração, como escavadeiras, tratores, dragas, bombas de sucção e de desmonte hidráulico; para a apuração final do ouro foi introduzida a amalgamação com mercúrio. Esse garimpo mecânico moderno exige capital e, sendo assim, o trabalho livre deu lugar às relações típicas do capitalismo entre patrão (dono do garimpo) e empregado (trabalhadores com vínculo empregatício informal).

Garimpo mecanizado no Córrego Rico. Foto de 1987.


 Os garimpos mecanizados em Paracatu funcionavam através de acordo entre o dono do garimpo e o dono do barranco, que era o proprietário do lote ou gleba onde iria ocorrer a extração. Pagava-se ao dono do barranco um valor fixo ou uma taxa sobre a produção ou ainda, como era mais comum, um valor fixo mais uma taxa sobre a produção. Nesse sistema, o garimpeiro, que antes exercia uma atividade livre, foi incorporado como empregado informal, isto é, sem registro em carteira.
No começo, existia muita mão de obra e pouca qualificação. Ninguém sabia trabalhar com as máquinas. Em média, pagava-se um salário mínimo e meio por mês, com prêmios sobre a produção que podiam chegar a 10%, distribuído para o grupo.
Uma pesquisa antropológica realizada pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) por Parry Scott e outros mostrou que o assalariamento no garimpo mecanizado de Paracatu se distinguia dos outros serviços, aos olhos do garimpeiro ali empregado, por três aspectos: a figura do patrão-amigo, marcado pela proximidade e um certo companheirismo entre patrão e empregado; o crédito indireto, que se referencia ao fato de os garimpeiros poderem efetuar compra semanal no comércio local, contando com o crédito do dono do garimpo, e o regime de meia, que era a cessão das máquinas pelo proprietário a seus empregados, para que os mesmos pudessem trabalhar em horários alternativos (à noite ou final de semana), dividindo pela metade o resultado entre o empregador e o empregado.
Vários problemas sociais e ambientais ocorreram em Paracatu por conta do garimpo mecanizado, cujas consequências ainda se fazem sentir. Houve atração de aventureiros vindos de outras paragens, mas contestamos a afirmação de que uma leva de garimpeiros tenha “invadido” a cidade: é uma ideia fantasiosa, reprovada por estudos realizados. Os garimpeiros forasteiros (principalmente donos de garimpo) permaneceram pouco tempo na cidade e seu número não justifica o “inchaço” populacional de Paracatu naquela época. Esta afirmação é demonstrada pelo estudo da UFPE, que aponta a migração campo-cidade, dinâmica presente em todas as regiões brasileiras, como o fator fundamental do crescimento do número de garimpeiros dentro da cidade de Paracatu.
Na década de 1980, expandiu-se na região de Paracatu a agricultura intensiva e de alta tecnologia, com grandes investimentos direcionados pelo Programa de Desenvolvimento dos Cerrados (POLOCENTRO), o Programa de Cooperação Nipo-Brasileira para o Desenvolvimento dos Cerrados (PRODECER) e o Projeto de Colonização Paracatu Entre Ribeiros (PCPER), todos eles intensivos em capital e redutores de mão-de-obra. Os trabalhadores rurais, analfabetos ou de baixa instrução, eram inadequados para a nova agricultura que se instalou e acabaram “expulsos” do campo, indo habitar a periferia da cidade, onde também não havia emprego para eles. Assim, o garimpo surgiu para essas pessoas como uma forma de vida, mas esse afluxo humano a uma cidade de infraestrutura precária não poderia acontecer sem fortes impactos sociais.
O problema ambiental mais perceptível foi a alteração da paisagem ribeirinha. Enquanto o garimpo manual trabalhou em ritmo lento durante longos anos nas aluviões superficiais, o garimpo mecanizado não apenas teve um ritmo avassalador, pelo trabalho das máquinas e pelo emprego de grande número de garimpeiros, mas também porque removeu e processou os depósitos sedimentares da superfície até chegar à camada de rocha subjacente, denominada “laje”, escavações que, não raro, chegavam a 12 metros de profundidade.
De ambos os lados da calha do Córrego Rico existem os chamados “barrancos”, que são formados por uma camada depósitos argilosos, sob os quais ocorrem os cascalhos auríferos. A prática de extração era, inicialmente, dragar o leito do córrego, até chegar à laje; nesta situação, podia-se ver em que nível se encontrava o material rico; daí, ia-se avançando lateralmente, acompanhando o material rico, que às vezes chegava até ao barranco e o penetrava. Neste momento, para atacar o barranco, o garimpeiro fazia acordo com o proprietário do terreno, que normalmente envolvia o pagamento de um valor fixo mais uma percentagem da produção.
O material a ser lavrado variava muito, com camadas de seixos estéreis. Os donos de garimpo com maiores recursos contratavam tratores, retiravam as camadas de seixos e iam apenas no material com concentração de ouro. Principalmente no Guerra, fazenda que àquela época pertencia a Rubens Lisboa, onde a praia é mais extensa e era a mais produtiva, foram instalados moinhos a martelo. O material era retirado do leito do rio, triturado no moinho e passado numa bica forrada com carpete. Ao final do dia, o carpete era lavado dentro de um tambor, para depois ser passado na bateia. Esse processo foi utilizado depois que os garimpeiros descobriram que havia ouro incrustado em quartzo.




22 anos após o fechamento do garimpo mecanizado, suas marcas ainda estão presentes ao longo do Córrego Rico. Nesta imagem, obtida em agosto/2012 junto ao bairro Santa Lúcia, observam-se restos de escavação preenchida por água pútrida, ao lado de monturo de cascalho.

Diz-se que no Guerra houve muitos bamburros, nome dado pelos garimpeiros a depósitos excepcionalmente produtivos, algo acima de 200 gramas de ouro por semana por draga, quando o comum seria uma produção de 40 a 60 gramas de ouro por draga.
Na ocasião da operação de fechamento do garimpo mecanizado de Paracatu, em outubro de 1989, estavam em ação “156 dragas, 148 moinhos, 167 bombas de sucção e cerca de 1.400 pessoas diretamente ligadas ao garimpo”, segundo Oliveira Melo, em As Minas Reveladas. As atividades intensivas de extração ocorreram nas planícies fluviais existentes nas calhas dos córregos Rico, São Domingos, São Gonçalo, Água Limpa, Angelical e Santo Antonio, assim como nos ribeirões Santa Rita e São Pedro, todas da sub-bacia do Rio Paracatu, as quais sofreram descaracterização. Entretanto, ressalte-se que todas essas áreas foram mineradas desde o século XVIII, não existindo ali, portanto, uma natureza intacta, mas seguidamente modificada pela atividade humana e regenerada por si própria.
 Afora isto, outro problema ambiental trazido pelo garimpo mecanizado foi a introdução de um elemento extremamente nocivo às pessoas e ao meio ambiente, quando conduzido sem procedimentos técnicos adequados: a utilização da amalgamação por mercúrio. É este assunto que iremos analisar em nosso próximo capítulo.

Palavras-chave: Paracatu; Kinross; mercúrio; ouro; meio ambiente; garimpo; mineração

segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

O Garimpo em Paracatu Uma história que precisa ser contada – Capítulo I


Quando Paracatu completa, a cada 20 de outubro, mais um aniversário de sua criação, quase invariavelmente se faz uma comemoração cívica com desfiles alegóricos de exaltação das raízes da cidade: o garimpo e a colonização portuguesa, sustentados pelo trabalho dos negros trazidos da África. A memória coletiva produz a revisão das lembranças para dar certo ar de “glamour” ao passado, depurando-as dos fatos inconvenientes para transformar o passado naquilo que deveria ter sido, eliminando as cenas indesejáveis e adequando as prediletas. Parece que na memória coletiva de Paracatu ficaram eliminados o sofrimento e a injustiça contra a raça negra escravizada – os primeiros garimpeiros –, para se criar o mito de uma sociedade harmônica, com os negros transformados em uma turma comportada, bem nutrida e feliz, sob o comando de brancos fraternos, tolerantes e cultos – a Paracatu do Príncipe.
Portanto, memória não é sinônimo de história ou de realidade histórica passada. Mas de qualquer forma, a memória é a matéria-prima da história, que dela se alimenta. Na medida em que a memória é uma construção coletiva, ela também faz uso do esquecimento (há esquecimentos que são usados para certos fins), pois ela expressa relações de poder e de interesses, sendo assim uma matéria-prima “adulterada”.
Nossa intenção é reescrever aqui a história do garimpo em Paracatu com base em registros encontrados principalmente no jornal O Movimento e em outros documentos aos quais tivemos acesso, complementando-os com depoimentos de pessoas relacionadas ao garimpo, a partir de um trabalho de pesquisa em nível de mestrado. Existe um período que nos interessa de modo especial: o garimpo mecanizado que se instalou em Paracatu no final da década de 1980 e a subsequente “invasão” da área da barragem de rejeitos da RPM. Apesar da proximidade na escala do tempo, existem poucos registros documentados deste importante período da história paracatuense, de maneira que se torna importante resgatar a memória viva de pessoas que estiveram envolvidas nos acontecimentos.


O garimpo artesanal em Paracatu


No início do século XVIII, quando a exploração do ouro fundou o povoado de São Luis das Minas de Paracatu, o garimpo era a forma avançada de produção, baseada no trabalho escravo e utilizando métodos rudimentares de separação, como o caixote e a bateia para a concentração do minério, e o imã e assopramento para retirar os minerais magnéticos presentes na ganga. Esse sistema foi responsável pelo esplendor da antiga Vila do Paracatu do Príncipe, que, entretanto, teve curta duração. Ainda no mesmo século, o ouro se esgotou nos cascalhos e a vila entrou em decadência. As grandes fazendas de criação extensiva de gado de corte tornaram-se a maior força da economia local, concentrada em poucas mãos. As práticas garimpeiras, no entanto, persistiram nas mãos de negros e mulatos, como forma de subsistência ou de complementação de renda.
Estatísticas referentes à população de Paracatu dão conta do esvaziamento demográfico que acompanhou o escasseamento do ouro.  Em 1746, quando ainda era Arraial de São Luiz e Santana das Minas do Paracatu, tomando-se apenas a população escrava, havia 7.392 pessoas. Porém, no início do século XIX, a população total de Paracatu – 2933 pessoas, dos quais apenas 266 eram brancos – não chegava à metade da população negra de 1746, no auge da mineração de ouro. Parte dos escravos do garimpo foi levada para outras regiões e atividades. Negros livres e mulatos livres se dirigiram a outras regiões ou permaneceram na vila, nas margens dos córregos ou em povoamentos rurais em torno do Morro do Ouro, onde também havia depósitos de ouro. Nasceram, assim, os bairros negros Santana e Arraial D’Angola e o povoado São Domingos, hoje reconhecido como quilombo.
Livre dos chamados “donos de garimpo”, a população pobre de Paracatu, na grande maioria afrodescendente, teve na técnica de produção do garimpo tradicional, sem utilização de amalgamação com mercúrio, importante instrumento de sobrevivência, que persistiu desde o século XVIII até a proibição do garimpo, na década de 1980. Tanto o fim do primeiro ciclo do ouro quanto o fim da escravidão foram marcantes para criar uma população negra livre, mas marginalizada social e economicamente, condenada ao desemprego ou ao subemprego. Especialmente no período de seca, quando escasseavam ainda mais as oportunidades de trabalho na agropecuária e em outras alternativas econômicas, como a agricultura de subsistência, eram os cascalhos auríferos que ofereciam oportunidade líquida de obter recursos financeiros.
As aluviões do Córrego Rico formavam “praias” de cascalho, com largura variável de alguns metros a dezenas de metros, onde lavadeiras de roupa, crianças e garimpeiros se misturavam. Cada estação chuvosa sempre recompunha a paisagem e depositava ouro nos sedimentos superficiais, oferecendo oportunidades de trabalho aos homens que não tinham renda suficiente para a manutenção da família, ou também para mulheres e crianças que buscavam uma complementação da renda familiar.
A foto a seguir ilustra as condições em que o garimpo tradicional se processava.
Garimpo artesanal na água límpida do Córrego Rico. Mulher trabalha com instrumentos rudimentares para retirar o ouro do cascalho, enquanto a roupa lavada seca no varal, ao fundo. Foto de Otto Dornfield (1938), gentilmente cedida pelo Arquivo Público Municipal de Paracatu.

O historiador Marcos Spagnuolo de Souza, no livro “Vidas Vividas em Paracatu” nos oferece depoimentos que ilustram a prática do garimpo artesanal em Paracatu na primeira metade do século XX: o uso de instrumentos rudimentares, como pá, enxada, caixote e pano; o ouro apurado na bateia, sem uso de mercúrio; o envolvimento da população pobre na prática do garimpo, inclusive mulheres e jovens.
Como não havia abastecimento público de água, que só foi implantado em 1958, exceto por alguns chafarizes no centro da cidade, a população se abastecia em cisternas de fundo de quintal ou nas cacimbas abertas nas praias do Córrego Rico. Portanto, o garimpo artesanal não poluía as águas, que se ofereciam límpidas. Uma alternativa de renda para as mulheres mais pobres, além do garimpo tradicional, era o trabalho como lavadeiras de roupa, e para isto as cacimbas eram fundamentais, especialmente no período de seca. Uma escavação aberta no cascalho pelos garimpeiros, para atingir camadas mais profundas que pudessem ser mais produtivas, acabava se transformando em cacimba, útil para as lavadeiras.
Essa descrição demonstra que o garimpo artesanal, longe de ser elemento de degradação ambiental, se harmonizava com a vida de grande parcela da população pobre de Paracatu, num quadro de sustentabilidade social e ecológica ao longo de várias gerações.
A estagnação econômica e o isolamento geográfico de Paracatu viriam a ser rompidos a partir do final da década de 1950, com a construção da nova capital brasileira. O “boom” econômico do município ocorreria na década de 1980, quando houve um grande surto garimpeiro, com uso de máquinas e de mercúrio, e se estabeleceram grandes projetos agrícolas com uso de tecnologia avançada de produção e dois grandes projetos de mineração – Morro do Ouro (ouro e prata) e Morro Agudo (chumbo e zinco). Este assunto será o tema de nosso próximo capítulo.

Palavras-chave: Paracatu; Kinross; arsênio; ouro; meio ambiente; garimpo; mineração

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

PARA NÃO ESQUECER QUEM SOMOS

Um depoimento vibrante de Lavoisier Albernaz

Lavoisier é dessas pessoas que só se revelam no diálogo. Tem um jeito afável, cordial, aberto com os amigos, mas retraído à primeira vista. É como o portão de sua casa, cerrado, mas que se abre com um leve toque. Bastou tocar à sua porta para me sentir como é bom ser bem-vindo: Lavoisier recebeu-me de braços abertos, contou-me suas histórias, seus sonhos, mostrou-me a incrível diversidade de seus trabalhos. Ouvindo suas músicas, apreciando suas poesias declamadas na voz doce de Enila, examinando as pinturas que ele fez em parceria com Flávio Costa, passei horas muito agradáveis, enquanto ele discorria com paixão sobre a história e a cultura de Paracatu.
É um pouco disto que pretendo oferecer nesta entrevista, caro leitor. Revelar facetas de uma pessoa que não é apenas um dos maiores detentores de conhecimento sobre o patrimônio histórico-cultural de Paracatu, mas o intelectual cidadão que se colocou a serviço de nossa cidade.


Márcio José dos Santos – Em 8 de dezembro de 2011.

Márcio: Você foi uma das primeiras pessoas de Paracatu que se posicionaram a respeito da exploração do minério do Morro do Ouro por parte da transnacional RTZ. Na época, quais eram as suas preocupações em relação ao empreendimento?

Lavoisier: Medo, sentia várias sensações que realmente me preocupavam bastante, dentre elas, que os moradores não teriam mais a qualidade de vida de antes, uma vez que a mina, naquela época, já atingia o perímetro urbano. Depois, medo pela destruição do Morro: perda da sua influência climática no controle dos ventos; perda total de um documento concreto que influenciou nossa história e cultura, deixando marcas indeléveis do braço escravo, como os montes de cascalhos lavados pelos negros faisqueiros, a destruição dos mundéus que eram os tanques de aluvião, onde se armazenavam as águas pluviais para a mineração e que contribuíam para fortalecer o Córrego Rico; assim também os longos regos, conhecidos por trincheiras que os interligavam, todos foram abertos em rocha bruta, lajeados, muitos atingindo até a parte aluvionar e eluvionar dos filitos “boudinados”. A destruição das nascentes d’água, cavernas e refúgios de lobos e raposas. A destruição dos túneis históricos, certidões da mineração das primeiras bandeiras invasoras. Enfim, o pior de tudo, o mais criminoso de tudo isso foi a destruição da nascente-mestra e das nascentes adjacentes formadoras do Córrego Rico. Enfim, o medo maior era viver em um meio ambiente contaminado, sem esquecer o prejuízo histórico-cultural que certificou a conquista do Noroeste Mineiro.

Márcio: Quais os significados concreto e simbólico do filme documentário “Morro do Ouro Ambição e Agonia”?

Lavoisier: O concreto foram as certidões contidas no Morro, deixadas pelo braço escravo, verdadeiras documentações da época das bandeiras e que, graças a Deus, registramos no filme. Acresce-se o registro ambiental das nascentes, da fauna silvestre e da flora local do Morro, utilizada no tratamento fitoterápico, principalmente das pessoas humildes.

O simbólico foi o delineamento de uma identidade cultural: o Morro do Ouro influenciou a nossa literatura, poesia, contos, teatro, lendas, costumes etc. A perda do Morro do Ouro reflete-se em perda do turismo, qualidade de vida e em auto-estima, quando assistimos de pé toda nossa riqueza indo embora para o estrangeiro, para o nada, e a nossa cultura ficando órfã, pobre como a nossa história e o nosso povo.

Márcio: Qual a repercussão do filme no contexto daquela época?

Lavoisier: Foi de alerta, foi de emoção pura. Em todos os jornais de Paracatu, Belo Horizonte e Brasília o documentário Morro do Ouro Ambição e Agonia se tornou manchete por muito tempo. Repercutiu na identidade negra; elementos da raça negra, como o Seu Leno Meireles e Seu José Bambal, tiveram grande orgulho e prazer em participar do documentário para contar a origem e a história dos negros paracatuenses. Não houve nenhum preconceito, nem indisposição durante as filmagens por parte deles, todos nós sofremos e passamos pelas mesmas dificuldades, como cansaço, fome, sede e calor intenso para realizar as filmagens. Outra coisa importante é que foi um filme inteiramente idealizado e produzido por mim e meus amigos atores e cinegrafistas de Paracatu. Exceto pela narração do filme, que ficou a cargo de Sérgio Chapelin, por minha escolha, e a montagem realizada nos estúdios da UnB, Morro do Ouro Ambição e Agonia foi um marco cultural genuinamente paracatuense.

Márcio: No seu entender, quais foram as leituras que aquele filme proporcionou aos vários segmentos da população de Paracatu?

Lavoisier: De revolta, de medo da perda cultural, ambiental e histórica. Foi comentário nas rodas por um ano ou mais. O filme também despertou muita saudade nas pessoas, principalmente aquelas que na infância ou na juventude participaram de excursões escolares, passeios e aventuras de caça (o que era permitido naquela época); sobretudo, a forte saudade dos banhos na Gruta de Vênus e no Poço do Azulão.
Muitos jovens negros que participaram do filme aprenderam a história de seus ancestrais, sua chegada aqui e a sua importância na formação da nossa gente, da edificação da nossa cidade, da nossa economia e do patrimônio histórico-cultural.

Márcio: Quais foram os apoios e/ou boicotes que aquele filme recebeu, para produção e para divulgação?

Lavoisier: Muitas vezes tive que enfrentar a polícia da empresa para a realização de algumas sequências do roteiro do filme, proibindo nossa entrada dentro do Morro do Ouro, ao que respondi com coragem, atitude, porque sou neto de quem, na época, era o proprietário da área.

Quanto a apoio financeiro, recebi do Prefeito de Paracatu, Arquimedes Borges, o patrocínio de um mil e quinhentos cruzados novos, quem também nos forneceu ônibus e motorista, exceto o combustível, para conduzir a equipe fora da cidade. O Sr. Elizeu Araújo Ferreira e sua esposa Zilda, proprietários da Fazenda Machadinho, forneceram alimentação e transporte aos locais difíceis (trator e carreta) para toda a equipe. A Copasa nos deu ajuda para produzir efeito de chuva artificial. A FUNAI, através da Rosângela Carvalho, nos enviou um índio (Araribu Mirim) da tribo Urubu-Kaapor, duas cobras e um lagarto. Todos os demais custos foram assumidos por mim e pessoas amigas. Quero ressaltar que quase todos os atores, felizes em participar, custearam suas próprias indumentárias. Enfim, e principalmente, tive a ajuda de muitas pessoas de Paracatu, e seria quase impossível nomear a todos. Na divulgação tive ajuda do Jóquei Clube Paracatuense, da TVP, das rádios e dos jornais de Paracatu e, em especial, da Graça Caetano Jalles, que contribuiu com a decoração externa do Mercado de Paracatu e comandou a noite da “avant-première”.

Márcio: Estamos no final do ano 2011, já passados quase 20 anos do lançamento do seu filme. Neste momento, como você avalia a exploração mineral no extinto Morro do Ouro e seu impacto na cidade?

Lavoisier: Foi pior do que alertei no filme. Penso que a empresa precisa repor ao povo o que lhe foi e ainda continua sendo tirado. É preciso resgatar bem a nossa cultura, apoiar a revitalização dos bens imateriais do município como Caretada, Tapuiada e Congada, através de coordenadores que conheçam bastante o assunto; apoiar a restauração de monumentos históricos, como a Igreja de Santo Antonio, seu adro e o largo; de ruas e becos, de igrejas do meio rural, museus, bandas de música etc. É preciso apoiar o teatro, base da nossa cultura, construindo uma casa de espetáculo; apoiar a produção cinematográfica de extensão nacional e a literatura locais. Isto tudo pertence ao povo, é um fazer globalizado, tal qual eram o Morro do Ouro e o Córrego Rico. Para mim, não tem sentido falar em revitalização do Córrego Rico desrespeitando suas margens: o córrego não existe mais, foi destruído pela mineradora; o que existe agora é a continuidade do seu afluente Córrego do Espalha e os esgotos que são nele lançados, causando mal cheiro.
Jovens paracatuenses se banhavam no poço da Gruta de Vênus, no  Morro do Ouro.
Márcio: Se fosse produzir o filme agora, o que você mudaria ou acrescentaria?

Lavoisier: Se fosse produzi-lo agora ficaria de fora o mais precioso de tudo: as marcas indeléveis do braço escravo no solo paracatuense, toda uma vida ambiental destruída, o poético, o cultural e o turístico não teriam vez atualmente; acrescentaria o pânico, a revolta de grande parte de um povo que tem medo de um futuro sem qualidade de vida.

Márcio: Você é um pensador, um artista com produção diversificada, cujo valor é reconhecido nos meios intelectuais por sua qualidade e fina sensibilidade; seu conhecimento da história e das lendas locais é um patrimônio vivo da cidade; afora isto, como cidadão, são relevantes os serviços que você prestou na defesa do patrimônio histórico e cultural de Paracatu. Qual o reconhecimento que lhe é dado pelos agentes públicos, especificamente de Paracatu, através de apoio para a divulgação, preservação e continuidade de sua obra intelectual?

Lavoisier: Faz-me rir, porque até o presente momento é quase nenhum. Às vezes chego a acreditar que “santo de casa não faz milagre”. Amo minha terra, mas tenho sido muito injustiçado por aqui. A questão política é terrível, onde o partidarismo absoluto não olha a qualidade das pessoas, mas sim o compromisso com as coligações, o que muitas vezes faz com que “quebrem a cara” ao indicarem pessoas sem competência específica para determinados cargos.

Fui mais agraciado com reconhecimento fora de Paracatu. A maior honraria a mim prestada pode ser vista no Memorial JK, em Brasília, onde se encontra uma placa com meu poema “MINISTORINHA”, do meu livro de poesias “Viagem Absoluta”, localizada na entrada oficial de autoridades. Devo isto aos amigos Dr. Afonso Arinos de Mello Franco e Dr. Álvaro Álvares da Silva Campos, ambos falecidos, e ao Cel. Afonso Heliodoro dos Santos.

Foi graças à minha luta que teve início o processo de tombamento do Núcleo Histórico de Paracatu, com a instalação de um posto regional do IPHAN na cidade. Idealizei, fui um dos fundadores e o primeiro diretor-presidente da Fundação Municipal Casa de Cultura de Paracatu, que hoje é a sala de visitas e a maior divulgadora da cultura local. Idealizei todos os museus de Paracatu, alguns ainda não realizados, como a Casa do Tropeiro de Minas Gerais e o Museu da Cultura Popular, e a construção de um Parque Ecológico nos fundos da Chácara dos Padres, em cujo terreno foi criada uma Área de Preservação Permanente. Com alguns amigos, revitalizei a Tapuiada, em 1985, e fiz o primeiro grande Teatro-Sacro de Paracatu, com a encenação do primeiro Presépio Vivo do Brasil, no Largo do Rosário.

Em 1987, ao lado de Walderez Porto Gonçalves, que na época era bibliotecária da EE. Antonio Carlos, fui mentor da criação da Academia de Letras do Noroeste de Minas, a qual foi concretizada na administração do Prefeito Manuel Borges. Fui vencedor de quatro prêmios no XIII Festival Regional da MPB em Paracatu, no ano de 1988. Fiz, com o Grupo Teatral Pedro Salazar, a encenação da peça A MORATÓRIA, considerada a melhor peça da dramaturgia brasileira, trabalhando com atores paracatuenses de destaque, como Adelina Botelho, Ruth Brochado e Antonio Eustáquio Vieira. Assumi a direção daquele espetáculo de época, que retratou o Brasil durante a Revolução de 30 e as crises do Café e do Zebu. Com minhas alunas do Magistério, em trabalho extra-classe, revitalizamos a Mesa de Paracatu, que ocorreu no antigo prédio do Jóquei Clube, onde hoje se situa a Câmara Municipal; isto se deu na época do Prefeito Diogo Soares Rodrigues, contando com a presença do Ministro da Cultura Dr. Aluizio Pimenta.

Por falar na Câmara Municipal, pouca gente sabe que aquele prédio iria ser vendido para um investidor de Brasília, para demolição; sabendo disso, interferi junto ao Município para que este o adquirisse, evitando a destruição de mais um monumento histórico da cidade. Convidei meu ex-aluno, então vereador, Aroldo Dayrell, a elaborar um projeto de aquisição e restauração do prédio e transformá-lo na sede da Câmara, que ficou livre dos aluguéis. Hoje o prédio é um cartão postal da cidade e muito bem a representa.

É importante lembrar que fui um dos membros fundadores do Conselho Municipal do Patrimônio Histórico, Artístico e Paisagístico de Paracatu – CONFAP. Afora isto, tenho uma militância de cerca de 40 anos em prol da preservação da Cultura e da História de Paracatu.
Tenho vários trabalhos elaborados, os quais aguardam apoio financeiro para serem levados ao público. Concluí uma enciclopédia de 12 volumes, denominada “PARA NÃO ESQUECER QUEM SOMOS”, a qual trata do resgate e do registro de toda a cultura popular do município paracatuense. Tenho um livro sobre a história de Paracatu, denominado “PARACATU ATENAS MINEIRA”, um livro sobre o filme e a história do Morro do Ouro e do Córrego Rico e o projeto de uma segunda edição do livro “VIAGEM ABSOLUTA”, o qual inclui uma edição sonora com participação de Paulo Autran, Bete Mendes e Frei Pedro Caxito. E minha maior ousadia cultural está na realização do filme “MAIS FORTE QUE A LENDA”, baseado no conto premiado “A Esteireira”, do livro “Pelo Sertão”, de Afonso Arinos. Trata-se de um longa-metragem em parceria com um dos grandes roteiristas brasileiros – Carlos Alberto Ratton –, mas sofro barreiras para sua realização, pois necessitaria revitalizar o adro da Igreja de Santo Antonio, com o retorno de suas escadarias, cruzeiro e largo, incluindo a retirada de elementos de interferência criminosa no aspecto estético Barroco-Colonial, dentro e fora da igreja.

Todos esses projetos estão prontos, mas, para se tornarem realidade, precisam de patrocinadores, não tenho recursos financeiros para produzi-los. Pena que a cultura não seja prioridade e sofra com os descasos, apesar de minha contribuição ter marcado com relevância o teatro, a literatura, o cinema, o folclore e o patrimônio histórico de Paracatu.

Palavras-chave: Paracatu; Kinross; arsênio; ouro; meio ambiente; garimpo; mineração

sábado, 30 de julho de 2011

Por que a população não sai às ruas contra a corrupção?

O jornal O Globo publicou uma reportagem no domingo (16/7) para questionar por que os brasileiros não saem às ruas para protestar contra a corrupção. Para fazer a matéria, os repórteres Jaqueline Falcão e Marcus Vinicius Gomes entrevistaram os organizadores das manifestações de defesa dos direitos dos homossexuais e da legalização da maconha. E a Coordenação Nacional do MST.

A repórter Jaqueline Falcão enviou as perguntas por correio eletrônico, que foram respondidas pela integrante da coordenação do MST, Marina dos Santos, e enviadas na quinta-feira em torno das 18h, dentro do prazo. A repórter até então interessada não entrou mais em contato. A reportagem saiu só no domingo. E, é claro, O Globo não aproveitou as respostas que não lhe convinham.

Por que será que a chamada "grande imprensa" só publica o que convém à elite podre do País?

Abaixo, leia as respostas da integrante da Coordenação Nacional do MST, Marina dos Santos, que não saíram em O Globo.

- Por que o Brasil não sai às ruas contra a corrupção?
Arrisco uma tentativa de responder essa pergunta ampliando e diversificando o questionamento: por que o Brasil não sai às ruas para as questões políticas que definem os rumos do nosso país? O povo não saiu às ruas para protestar contra as privatizações – privataria – e a corrupção existente no governo FHC. Os casos foram numerosos – tanto é que substituiu-se o Procurador Geral da Republica pela figura do “Engavetador Geral da República”.

Não saiu às ruas quando o governo Lula liberou o plantio de sementes transgênicas, criou facilidades para o comércio de agrotóxicos e deu continuidade a uma política econômica que assegura lucros milionários ao sistema financeiro.
Os que querem que o povo vá as ruas para protestar contra o atual governo federal – ignorando a corrupção que viceja nos ninhos do tucanato – também querem ver o povo nas ruas, praças e campo fazendo política? Estão dispostos a chamar o povo para ir às ruas para exigir Reforma Agrária e Urbana, democratização dos meios de comunicação e a estatização do sistema financeiro?

O povo não é bobo. Não irá às ruas para atender ao chamado de alguns setores das elites porque sabe que a corrupção está entranhada na burguesia brasileira. Basta pedir a apuração e punição dos corruptores do setor privado junto ao estatal para que as vozes que se dizem combater a corrupção diminua, sensivelmente, em quantidade e intensidade.

- Por que não vemos indignação contra a corrupção?
Há indignação sim. Mas essa indignação está, praticamente restrita à esfera individual, pessoal, de cada brasileiro. O poderio dos aparatos ideológicos do sistema e as políticas governamentais de cooptação, perseguição e repressão aos movimentos sociais, intensificadas nos governos neoliberais, fragilizaram os setores organizados da sociedade que tinham a capacidade de aglutinar a canalizar para as mobilizações populares as insatisfações que residem na esfera individual.
Esse cenário mudará. E povo voltará a fazer política nas ruas e, inclusive, para combater todas as práticas de corrupção, seja de que governo for. Quando isso ocorrer, alguns que querem ver o povo nas ruas agora assustados usarão seus azedos blogs para exigir que o povo seja tirado das ruas.

- As multidões vão às ruas pela marcha da maconha, MST, Parada Gay…e por que não contra a corrupção?
Porque é preciso ter credibilidade junto ao povo para se fazer um chamamento popular. Ter o monopólio da mídia não é suficiente para determinar a vontade e ação do povo. Se fosse assim, os tucanos não perderiam uma eleição, o presidente Hugo Chávez não conseguiria mobilizar a multidão dos pobres em seu país e o governo Lula não terminaria seus dois mandatos com índices superiores a 80% de aprovação popular.

Os conluios de grupos partidários-políticos com a mídia, marcantes na legislação passada de estados importantes – como o de Minas Gerais, São Paulo e Rio Grande do Sul – mostraram-se eficazes para sufocar as denúncias de corrupção naqueles governos. Mas foram ineficazes na tentativa de que o povo não tomasse conhecimento da existência da corrupção. Logo, a credibilidade de ambos, mídia e políticos, ficou abalada.

- A sensação é de impunidade?
Sim, há uma sensação de impunidade. Alguns bancos já foram condenados devolver milhões de reais porque cobraram ilegalmente taxas dos seus usuários. Isso não é uma espécie de roubo? Além da devolução do dinheiro, os responsáveis não deveriam responder criminalmente? Já pensou se a moda pegar: o assaltante é preso já na saída do banco, e tudo resolve coma devolução do dinheiro roubado…

O presidente da CBF, Ricardo Teixeira, em recente entrevista à Revista Piauí, disse abertamente: “em 2014, posso fazer a maldade que for. A maldade mais elástica, mais impensável, mais maquiavélica. Não dar credencial, proibir acesso, mudar horário de jogo. E sabe o que vai acontecer? Nada. Sabe por quê? Por que eu saio em 2015. E aí, acabou.(…) Só vou ficar preocupado, meu amor, quando sair no Jornal Nacional.”
Nada sintetiza melhor o sentimento de impunidade que sentem as elites brasileiras. Não temem e sentem um profundo desrespeito pelas instituições públicas. Temem apenas o poder de outro grupo privado com o qual mantêm estreitos vínculos, necessários para manter o controle sobre o futebol brasileiro.

São fatos como estes, dos bancos e do presidente da CBF – por coincidência, um dos bancos condenados a devolver o dinheiro dos usuários também financia a CBF – que acabam naturalizando a impunidade junto a população.

Texto da página do MST: http://www.mst.org.br/

domingo, 17 de julho de 2011

A cruel honestidade do Presidente do IBAMA

Roberto Malvezzi, Gogó
Agente Pastoral da Comissão Pastoral da Terra

Finalmente alguém no poder é honesto em suas declarações. Quando Curt Trennepohl, presidente do IBAMA, disse a jornalista australiana que seu trabalho "não é cuidar do meio ambiente, mas minimizar os impactos” e que o Brasil vai fazer "com os índios o que os australianos fizeram com os aborígenes” (F.S.P, 15/07/11), foi de uma honestidade rara e cruel. A declaração é um horror, uma proclamação de genocídio.

Porém, é o que está diante de nossos olhos todos os dias. A tarefa do IBAMA é tentar por remendo novo em pano velho; isto é, amenizar os estragos feitos pelas grandes obras, seja de iniciativa particular ou oficial. A prevenção e a precaução não fazem parte do roteiro governamental.

A CPT, juntamente com o CIMI, sabe que anda muito só ultimamente nas suas lutas pelo campo. As populações mais vitimadas pelo modelo atual, e pelo governo atual, são exatamente os indígenas, quilombolas e comunidades tradicionais. Os Movimentos da Via Campesina se defendem melhor, até por sua proximidade com o governo. Porém, na hora da luta concreta, as comunidades tradicionais estão enfrentando uma solidão cósmica.

Porém, a honestidade do presidente do Ibama não anula a dimensão cruel, anti-humana, que permeia a política desenvolvimentista atual. Antes, a prerrogativa do sacrifício humano pertencia às religiões. Os que têm descendência bíblica acabaram com essa crueldade quando o Deus bíblico não permitiu que Abraão sacrificasse Isaac. Ele não precisava do sacrifício humano, embora judeus e cristãos depois tenham sacrificado multidões ao longo dos séculos. Mas, Astecas, Incas e outras tradições religiosas sacrificaram pessoas enquanto seus impérios duraram.

Hoje, a prerrogativa do sacrifício humano pertence ao capital. Ele decide quem deve morrer. E quem morre são indígenas, quilombolas, comunidades tradicionais e o meio ambiente.

Se quisermos manter um pingo de dignidade humana, devemos nos afastar não só da direita, mas também das esquerdas que aceitam o sacrifício humano em nome do desenvolvimento, da revolução, ou de qualquer outra causa onde a vida humana seja o combustível.

Na luta contra as mudanças no Código Florestal, Belo Monte, Transposição; enfim, contra o modelo predador imposto, podemos identificar perfeitamente quem é quem no Brasil de hoje.

Fonte: Adital
http://www.adital.com.br/site/noticia.asp?lang=PT&cod=58393

quinta-feira, 14 de julho de 2011

É preciso defender a vida!

É preciso que aprendamos a nos proteger. Não de um mal difuso, forças ocultas, poderes dispersos. Precisamos nos proteger das ações humanas; das consequências públicas de ações que simplesmente deconsideram seus efeitos sobre aqueles que estão à sua volta.

É o caso da mineração predatória. Uma atividade que faz de nós invisíveis sociais e que se nega a reconhecer nossa dignidade. A exploração dos recursos naturais e do trabalho humano assumiu em nosso tempo uma dimensão trágica e ameaçadora: ameaça a vida das atuais e futuras gerações. Esses recursos não podem mais ser pensados apenas associados ao funcionamento da indústria de mineração. É preciso que se leve a sério a questão política e social que envolve a atividade de exploração sem limites em que estamos sendo enredados. Para isso, é preciso que promovamos uma mudança do modelo de desenvolvimento, uma mudança profunda dos paradigmas que orientam nossas ações cotidianas, uma revisão de valores como justiça, liberdade e equilíbrio. Todos os valores devem ser voltados para a valorização da dignidade humana.

A hegemonia de valores como a competitividade, desenvolvimento econômico e crescimento a todo custo nos levou à silenciosa tragédia que ameaça tomar conta de toda Minas Gerais.

É preciso que as pessoas se defendam dos "decretos expropriatórios" que permitem ao governo-minerador declarar a disponibilidade de toda uma paisagem cultural e de comunidades inteiras para fins de "investimento" e "geração de empregos", inclusive dentro dos perímetros urbanos. O critério do governo-minerador, na verdade, é apenas um: deixar explorar jazidas economicamente viáveis economicamente, onde quer que elas estejam. Não contam as pessoas, não contam as cidades, não contam o patrimônio paisagístico e cultural, não conta a memória. O governo-minerador decide se nosso quintal pode ser transformado em depósito de rejeito de mineração. A nós cabe o lixo ("rejeito"), que é economicamente inviável, os desumanos custos da exploração de matéria-prima para engordar ainda mais o insaciável dragão da mineração.

"Protocolos" com as mineradoras são assinados diretamente nos palácios de governo. Do mapa de Minas são varridas as pessoas, seus lares e sua história. Confiram os mapas do DNPM. Você não está lá, sua casa não está lá, sua cidade não está lá. Aquela trilha, aquela caverna, aquela cachoeira ou córrego onde você passou sua infância, onde você descansa com sua família, pra onde você foge quando precisa reencontrar sua humanidade e seu passado, nada disso está no mapa. Nada disso existe. Somente jazidas.

O legalismo garante a exploração: "tudo está sendo feito rigorosamente nos termos da lei", afirmam mineradoras e governo. A apropriação de tudo que é bem comum - da água, da terra, das montanhas, da vida e saúde humanas - simplemente acontece, e se "legitima" como que por encanto. Se desejam realizar uma pesquisa mineral no Pico do Itacolomi, o fazem. Se querem o ouro de Paracatu, o tiram. Se querem uma Casa de Pedra maior em Congonhas, que venha abaixo o Santuário de Bom Jesus de Matosinhos. E assim o Caraça, as águas do Gandarela. Serra Azul, Serra da Moeda, Serra da Piedade, todas as serras.

Em todo lugar uma mina: afinal, "minas, são muitas". Tantas que já não há mais lugar para gente. A famosa frase de Guimarães Rosa assume, hoje, ares de trágica premonição.

O poder minerador se tornou maior que as instâncias políticas responsáveis pela defesa dos direitos das pessoas. Um Estado dentro do Estado. É em nome de lucro e crescimento que falam e agem. Em nome dessa crença, desta religião, se autorizam a intervir até na geografia de Minas Gerais. Favelização, sobrecarga das estruturas urbanas, degradação ambiental, desertificação, esgotamento de nossos recursos hídricos.

A questão é também de ordem ética: a mineração age hoje desvinculada de quaisquer valores sociais e humanísticos de uma nova era de responsabilidade, de consciência quanto às consequências coletivas de nossas ações. Claro que não é o que os discursos das mineradoras dizem. Vejam a publicidade. Só os ingênuos acreditam.

É preciso agir. Boa parte daqueles que elegemos para defender nossos direitos estão nos traindo. Não nos enxergam do alto dos ombros dos gigantes nos quais estão montados (ou será o contrário?). Por isso, informe-se! Comprometa-se! Venha defender a qualidade de vida para você, para os seus e para as futuras gerações. Diga não à mineração em área urbana. Posicione-se a favor de uma definição participativa e democrática de marcos regulatórios para a mineração. Juntos, não temos como ser ignorados.

Texto reproduzido a partir do blog Mariana Viva.
http://marianaviva.blogspot.com/