Blog do Professor Márcio

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quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

PARA NÃO ESQUECER QUEM SOMOS

Um depoimento vibrante de Lavoisier Albernaz

Lavoisier é dessas pessoas que só se revelam no diálogo. Tem um jeito afável, cordial, aberto com os amigos, mas retraído à primeira vista. É como o portão de sua casa, cerrado, mas que se abre com um leve toque. Bastou tocar à sua porta para me sentir como é bom ser bem-vindo: Lavoisier recebeu-me de braços abertos, contou-me suas histórias, seus sonhos, mostrou-me a incrível diversidade de seus trabalhos. Ouvindo suas músicas, apreciando suas poesias declamadas na voz doce de Enila, examinando as pinturas que ele fez em parceria com Flávio Costa, passei horas muito agradáveis, enquanto ele discorria com paixão sobre a história e a cultura de Paracatu.
É um pouco disto que pretendo oferecer nesta entrevista, caro leitor. Revelar facetas de uma pessoa que não é apenas um dos maiores detentores de conhecimento sobre o patrimônio histórico-cultural de Paracatu, mas o intelectual cidadão que se colocou a serviço de nossa cidade.


Márcio José dos Santos – Em 8 de dezembro de 2011.

Márcio: Você foi uma das primeiras pessoas de Paracatu que se posicionaram a respeito da exploração do minério do Morro do Ouro por parte da transnacional RTZ. Na época, quais eram as suas preocupações em relação ao empreendimento?

Lavoisier: Medo, sentia várias sensações que realmente me preocupavam bastante, dentre elas, que os moradores não teriam mais a qualidade de vida de antes, uma vez que a mina, naquela época, já atingia o perímetro urbano. Depois, medo pela destruição do Morro: perda da sua influência climática no controle dos ventos; perda total de um documento concreto que influenciou nossa história e cultura, deixando marcas indeléveis do braço escravo, como os montes de cascalhos lavados pelos negros faisqueiros, a destruição dos mundéus que eram os tanques de aluvião, onde se armazenavam as águas pluviais para a mineração e que contribuíam para fortalecer o Córrego Rico; assim também os longos regos, conhecidos por trincheiras que os interligavam, todos foram abertos em rocha bruta, lajeados, muitos atingindo até a parte aluvionar e eluvionar dos filitos “boudinados”. A destruição das nascentes d’água, cavernas e refúgios de lobos e raposas. A destruição dos túneis históricos, certidões da mineração das primeiras bandeiras invasoras. Enfim, o pior de tudo, o mais criminoso de tudo isso foi a destruição da nascente-mestra e das nascentes adjacentes formadoras do Córrego Rico. Enfim, o medo maior era viver em um meio ambiente contaminado, sem esquecer o prejuízo histórico-cultural que certificou a conquista do Noroeste Mineiro.

Márcio: Quais os significados concreto e simbólico do filme documentário “Morro do Ouro Ambição e Agonia”?

Lavoisier: O concreto foram as certidões contidas no Morro, deixadas pelo braço escravo, verdadeiras documentações da época das bandeiras e que, graças a Deus, registramos no filme. Acresce-se o registro ambiental das nascentes, da fauna silvestre e da flora local do Morro, utilizada no tratamento fitoterápico, principalmente das pessoas humildes.

O simbólico foi o delineamento de uma identidade cultural: o Morro do Ouro influenciou a nossa literatura, poesia, contos, teatro, lendas, costumes etc. A perda do Morro do Ouro reflete-se em perda do turismo, qualidade de vida e em auto-estima, quando assistimos de pé toda nossa riqueza indo embora para o estrangeiro, para o nada, e a nossa cultura ficando órfã, pobre como a nossa história e o nosso povo.

Márcio: Qual a repercussão do filme no contexto daquela época?

Lavoisier: Foi de alerta, foi de emoção pura. Em todos os jornais de Paracatu, Belo Horizonte e Brasília o documentário Morro do Ouro Ambição e Agonia se tornou manchete por muito tempo. Repercutiu na identidade negra; elementos da raça negra, como o Seu Leno Meireles e Seu José Bambal, tiveram grande orgulho e prazer em participar do documentário para contar a origem e a história dos negros paracatuenses. Não houve nenhum preconceito, nem indisposição durante as filmagens por parte deles, todos nós sofremos e passamos pelas mesmas dificuldades, como cansaço, fome, sede e calor intenso para realizar as filmagens. Outra coisa importante é que foi um filme inteiramente idealizado e produzido por mim e meus amigos atores e cinegrafistas de Paracatu. Exceto pela narração do filme, que ficou a cargo de Sérgio Chapelin, por minha escolha, e a montagem realizada nos estúdios da UnB, Morro do Ouro Ambição e Agonia foi um marco cultural genuinamente paracatuense.

Márcio: No seu entender, quais foram as leituras que aquele filme proporcionou aos vários segmentos da população de Paracatu?

Lavoisier: De revolta, de medo da perda cultural, ambiental e histórica. Foi comentário nas rodas por um ano ou mais. O filme também despertou muita saudade nas pessoas, principalmente aquelas que na infância ou na juventude participaram de excursões escolares, passeios e aventuras de caça (o que era permitido naquela época); sobretudo, a forte saudade dos banhos na Gruta de Vênus e no Poço do Azulão.
Muitos jovens negros que participaram do filme aprenderam a história de seus ancestrais, sua chegada aqui e a sua importância na formação da nossa gente, da edificação da nossa cidade, da nossa economia e do patrimônio histórico-cultural.

Márcio: Quais foram os apoios e/ou boicotes que aquele filme recebeu, para produção e para divulgação?

Lavoisier: Muitas vezes tive que enfrentar a polícia da empresa para a realização de algumas sequências do roteiro do filme, proibindo nossa entrada dentro do Morro do Ouro, ao que respondi com coragem, atitude, porque sou neto de quem, na época, era o proprietário da área.

Quanto a apoio financeiro, recebi do Prefeito de Paracatu, Arquimedes Borges, o patrocínio de um mil e quinhentos cruzados novos, quem também nos forneceu ônibus e motorista, exceto o combustível, para conduzir a equipe fora da cidade. O Sr. Elizeu Araújo Ferreira e sua esposa Zilda, proprietários da Fazenda Machadinho, forneceram alimentação e transporte aos locais difíceis (trator e carreta) para toda a equipe. A Copasa nos deu ajuda para produzir efeito de chuva artificial. A FUNAI, através da Rosângela Carvalho, nos enviou um índio (Araribu Mirim) da tribo Urubu-Kaapor, duas cobras e um lagarto. Todos os demais custos foram assumidos por mim e pessoas amigas. Quero ressaltar que quase todos os atores, felizes em participar, custearam suas próprias indumentárias. Enfim, e principalmente, tive a ajuda de muitas pessoas de Paracatu, e seria quase impossível nomear a todos. Na divulgação tive ajuda do Jóquei Clube Paracatuense, da TVP, das rádios e dos jornais de Paracatu e, em especial, da Graça Caetano Jalles, que contribuiu com a decoração externa do Mercado de Paracatu e comandou a noite da “avant-première”.

Márcio: Estamos no final do ano 2011, já passados quase 20 anos do lançamento do seu filme. Neste momento, como você avalia a exploração mineral no extinto Morro do Ouro e seu impacto na cidade?

Lavoisier: Foi pior do que alertei no filme. Penso que a empresa precisa repor ao povo o que lhe foi e ainda continua sendo tirado. É preciso resgatar bem a nossa cultura, apoiar a revitalização dos bens imateriais do município como Caretada, Tapuiada e Congada, através de coordenadores que conheçam bastante o assunto; apoiar a restauração de monumentos históricos, como a Igreja de Santo Antonio, seu adro e o largo; de ruas e becos, de igrejas do meio rural, museus, bandas de música etc. É preciso apoiar o teatro, base da nossa cultura, construindo uma casa de espetáculo; apoiar a produção cinematográfica de extensão nacional e a literatura locais. Isto tudo pertence ao povo, é um fazer globalizado, tal qual eram o Morro do Ouro e o Córrego Rico. Para mim, não tem sentido falar em revitalização do Córrego Rico desrespeitando suas margens: o córrego não existe mais, foi destruído pela mineradora; o que existe agora é a continuidade do seu afluente Córrego do Espalha e os esgotos que são nele lançados, causando mal cheiro.
Jovens paracatuenses se banhavam no poço da Gruta de Vênus, no  Morro do Ouro.
Márcio: Se fosse produzir o filme agora, o que você mudaria ou acrescentaria?

Lavoisier: Se fosse produzi-lo agora ficaria de fora o mais precioso de tudo: as marcas indeléveis do braço escravo no solo paracatuense, toda uma vida ambiental destruída, o poético, o cultural e o turístico não teriam vez atualmente; acrescentaria o pânico, a revolta de grande parte de um povo que tem medo de um futuro sem qualidade de vida.

Márcio: Você é um pensador, um artista com produção diversificada, cujo valor é reconhecido nos meios intelectuais por sua qualidade e fina sensibilidade; seu conhecimento da história e das lendas locais é um patrimônio vivo da cidade; afora isto, como cidadão, são relevantes os serviços que você prestou na defesa do patrimônio histórico e cultural de Paracatu. Qual o reconhecimento que lhe é dado pelos agentes públicos, especificamente de Paracatu, através de apoio para a divulgação, preservação e continuidade de sua obra intelectual?

Lavoisier: Faz-me rir, porque até o presente momento é quase nenhum. Às vezes chego a acreditar que “santo de casa não faz milagre”. Amo minha terra, mas tenho sido muito injustiçado por aqui. A questão política é terrível, onde o partidarismo absoluto não olha a qualidade das pessoas, mas sim o compromisso com as coligações, o que muitas vezes faz com que “quebrem a cara” ao indicarem pessoas sem competência específica para determinados cargos.

Fui mais agraciado com reconhecimento fora de Paracatu. A maior honraria a mim prestada pode ser vista no Memorial JK, em Brasília, onde se encontra uma placa com meu poema “MINISTORINHA”, do meu livro de poesias “Viagem Absoluta”, localizada na entrada oficial de autoridades. Devo isto aos amigos Dr. Afonso Arinos de Mello Franco e Dr. Álvaro Álvares da Silva Campos, ambos falecidos, e ao Cel. Afonso Heliodoro dos Santos.

Foi graças à minha luta que teve início o processo de tombamento do Núcleo Histórico de Paracatu, com a instalação de um posto regional do IPHAN na cidade. Idealizei, fui um dos fundadores e o primeiro diretor-presidente da Fundação Municipal Casa de Cultura de Paracatu, que hoje é a sala de visitas e a maior divulgadora da cultura local. Idealizei todos os museus de Paracatu, alguns ainda não realizados, como a Casa do Tropeiro de Minas Gerais e o Museu da Cultura Popular, e a construção de um Parque Ecológico nos fundos da Chácara dos Padres, em cujo terreno foi criada uma Área de Preservação Permanente. Com alguns amigos, revitalizei a Tapuiada, em 1985, e fiz o primeiro grande Teatro-Sacro de Paracatu, com a encenação do primeiro Presépio Vivo do Brasil, no Largo do Rosário.

Em 1987, ao lado de Walderez Porto Gonçalves, que na época era bibliotecária da EE. Antonio Carlos, fui mentor da criação da Academia de Letras do Noroeste de Minas, a qual foi concretizada na administração do Prefeito Manuel Borges. Fui vencedor de quatro prêmios no XIII Festival Regional da MPB em Paracatu, no ano de 1988. Fiz, com o Grupo Teatral Pedro Salazar, a encenação da peça A MORATÓRIA, considerada a melhor peça da dramaturgia brasileira, trabalhando com atores paracatuenses de destaque, como Adelina Botelho, Ruth Brochado e Antonio Eustáquio Vieira. Assumi a direção daquele espetáculo de época, que retratou o Brasil durante a Revolução de 30 e as crises do Café e do Zebu. Com minhas alunas do Magistério, em trabalho extra-classe, revitalizamos a Mesa de Paracatu, que ocorreu no antigo prédio do Jóquei Clube, onde hoje se situa a Câmara Municipal; isto se deu na época do Prefeito Diogo Soares Rodrigues, contando com a presença do Ministro da Cultura Dr. Aluizio Pimenta.

Por falar na Câmara Municipal, pouca gente sabe que aquele prédio iria ser vendido para um investidor de Brasília, para demolição; sabendo disso, interferi junto ao Município para que este o adquirisse, evitando a destruição de mais um monumento histórico da cidade. Convidei meu ex-aluno, então vereador, Aroldo Dayrell, a elaborar um projeto de aquisição e restauração do prédio e transformá-lo na sede da Câmara, que ficou livre dos aluguéis. Hoje o prédio é um cartão postal da cidade e muito bem a representa.

É importante lembrar que fui um dos membros fundadores do Conselho Municipal do Patrimônio Histórico, Artístico e Paisagístico de Paracatu – CONFAP. Afora isto, tenho uma militância de cerca de 40 anos em prol da preservação da Cultura e da História de Paracatu.
Tenho vários trabalhos elaborados, os quais aguardam apoio financeiro para serem levados ao público. Concluí uma enciclopédia de 12 volumes, denominada “PARA NÃO ESQUECER QUEM SOMOS”, a qual trata do resgate e do registro de toda a cultura popular do município paracatuense. Tenho um livro sobre a história de Paracatu, denominado “PARACATU ATENAS MINEIRA”, um livro sobre o filme e a história do Morro do Ouro e do Córrego Rico e o projeto de uma segunda edição do livro “VIAGEM ABSOLUTA”, o qual inclui uma edição sonora com participação de Paulo Autran, Bete Mendes e Frei Pedro Caxito. E minha maior ousadia cultural está na realização do filme “MAIS FORTE QUE A LENDA”, baseado no conto premiado “A Esteireira”, do livro “Pelo Sertão”, de Afonso Arinos. Trata-se de um longa-metragem em parceria com um dos grandes roteiristas brasileiros – Carlos Alberto Ratton –, mas sofro barreiras para sua realização, pois necessitaria revitalizar o adro da Igreja de Santo Antonio, com o retorno de suas escadarias, cruzeiro e largo, incluindo a retirada de elementos de interferência criminosa no aspecto estético Barroco-Colonial, dentro e fora da igreja.

Todos esses projetos estão prontos, mas, para se tornarem realidade, precisam de patrocinadores, não tenho recursos financeiros para produzi-los. Pena que a cultura não seja prioridade e sofra com os descasos, apesar de minha contribuição ter marcado com relevância o teatro, a literatura, o cinema, o folclore e o patrimônio histórico de Paracatu.

Palavras-chave: Paracatu; Kinross; arsênio; ouro; meio ambiente; garimpo; mineração

sábado, 30 de julho de 2011

Por que a população não sai às ruas contra a corrupção?

O jornal O Globo publicou uma reportagem no domingo (16/7) para questionar por que os brasileiros não saem às ruas para protestar contra a corrupção. Para fazer a matéria, os repórteres Jaqueline Falcão e Marcus Vinicius Gomes entrevistaram os organizadores das manifestações de defesa dos direitos dos homossexuais e da legalização da maconha. E a Coordenação Nacional do MST.

A repórter Jaqueline Falcão enviou as perguntas por correio eletrônico, que foram respondidas pela integrante da coordenação do MST, Marina dos Santos, e enviadas na quinta-feira em torno das 18h, dentro do prazo. A repórter até então interessada não entrou mais em contato. A reportagem saiu só no domingo. E, é claro, O Globo não aproveitou as respostas que não lhe convinham.

Por que será que a chamada "grande imprensa" só publica o que convém à elite podre do País?

Abaixo, leia as respostas da integrante da Coordenação Nacional do MST, Marina dos Santos, que não saíram em O Globo.

- Por que o Brasil não sai às ruas contra a corrupção?
Arrisco uma tentativa de responder essa pergunta ampliando e diversificando o questionamento: por que o Brasil não sai às ruas para as questões políticas que definem os rumos do nosso país? O povo não saiu às ruas para protestar contra as privatizações – privataria – e a corrupção existente no governo FHC. Os casos foram numerosos – tanto é que substituiu-se o Procurador Geral da Republica pela figura do “Engavetador Geral da República”.

Não saiu às ruas quando o governo Lula liberou o plantio de sementes transgênicas, criou facilidades para o comércio de agrotóxicos e deu continuidade a uma política econômica que assegura lucros milionários ao sistema financeiro.
Os que querem que o povo vá as ruas para protestar contra o atual governo federal – ignorando a corrupção que viceja nos ninhos do tucanato – também querem ver o povo nas ruas, praças e campo fazendo política? Estão dispostos a chamar o povo para ir às ruas para exigir Reforma Agrária e Urbana, democratização dos meios de comunicação e a estatização do sistema financeiro?

O povo não é bobo. Não irá às ruas para atender ao chamado de alguns setores das elites porque sabe que a corrupção está entranhada na burguesia brasileira. Basta pedir a apuração e punição dos corruptores do setor privado junto ao estatal para que as vozes que se dizem combater a corrupção diminua, sensivelmente, em quantidade e intensidade.

- Por que não vemos indignação contra a corrupção?
Há indignação sim. Mas essa indignação está, praticamente restrita à esfera individual, pessoal, de cada brasileiro. O poderio dos aparatos ideológicos do sistema e as políticas governamentais de cooptação, perseguição e repressão aos movimentos sociais, intensificadas nos governos neoliberais, fragilizaram os setores organizados da sociedade que tinham a capacidade de aglutinar a canalizar para as mobilizações populares as insatisfações que residem na esfera individual.
Esse cenário mudará. E povo voltará a fazer política nas ruas e, inclusive, para combater todas as práticas de corrupção, seja de que governo for. Quando isso ocorrer, alguns que querem ver o povo nas ruas agora assustados usarão seus azedos blogs para exigir que o povo seja tirado das ruas.

- As multidões vão às ruas pela marcha da maconha, MST, Parada Gay…e por que não contra a corrupção?
Porque é preciso ter credibilidade junto ao povo para se fazer um chamamento popular. Ter o monopólio da mídia não é suficiente para determinar a vontade e ação do povo. Se fosse assim, os tucanos não perderiam uma eleição, o presidente Hugo Chávez não conseguiria mobilizar a multidão dos pobres em seu país e o governo Lula não terminaria seus dois mandatos com índices superiores a 80% de aprovação popular.

Os conluios de grupos partidários-políticos com a mídia, marcantes na legislação passada de estados importantes – como o de Minas Gerais, São Paulo e Rio Grande do Sul – mostraram-se eficazes para sufocar as denúncias de corrupção naqueles governos. Mas foram ineficazes na tentativa de que o povo não tomasse conhecimento da existência da corrupção. Logo, a credibilidade de ambos, mídia e políticos, ficou abalada.

- A sensação é de impunidade?
Sim, há uma sensação de impunidade. Alguns bancos já foram condenados devolver milhões de reais porque cobraram ilegalmente taxas dos seus usuários. Isso não é uma espécie de roubo? Além da devolução do dinheiro, os responsáveis não deveriam responder criminalmente? Já pensou se a moda pegar: o assaltante é preso já na saída do banco, e tudo resolve coma devolução do dinheiro roubado…

O presidente da CBF, Ricardo Teixeira, em recente entrevista à Revista Piauí, disse abertamente: “em 2014, posso fazer a maldade que for. A maldade mais elástica, mais impensável, mais maquiavélica. Não dar credencial, proibir acesso, mudar horário de jogo. E sabe o que vai acontecer? Nada. Sabe por quê? Por que eu saio em 2015. E aí, acabou.(…) Só vou ficar preocupado, meu amor, quando sair no Jornal Nacional.”
Nada sintetiza melhor o sentimento de impunidade que sentem as elites brasileiras. Não temem e sentem um profundo desrespeito pelas instituições públicas. Temem apenas o poder de outro grupo privado com o qual mantêm estreitos vínculos, necessários para manter o controle sobre o futebol brasileiro.

São fatos como estes, dos bancos e do presidente da CBF – por coincidência, um dos bancos condenados a devolver o dinheiro dos usuários também financia a CBF – que acabam naturalizando a impunidade junto a população.

Texto da página do MST: http://www.mst.org.br/

domingo, 17 de julho de 2011

A cruel honestidade do Presidente do IBAMA

Roberto Malvezzi, Gogó
Agente Pastoral da Comissão Pastoral da Terra

Finalmente alguém no poder é honesto em suas declarações. Quando Curt Trennepohl, presidente do IBAMA, disse a jornalista australiana que seu trabalho "não é cuidar do meio ambiente, mas minimizar os impactos” e que o Brasil vai fazer "com os índios o que os australianos fizeram com os aborígenes” (F.S.P, 15/07/11), foi de uma honestidade rara e cruel. A declaração é um horror, uma proclamação de genocídio.

Porém, é o que está diante de nossos olhos todos os dias. A tarefa do IBAMA é tentar por remendo novo em pano velho; isto é, amenizar os estragos feitos pelas grandes obras, seja de iniciativa particular ou oficial. A prevenção e a precaução não fazem parte do roteiro governamental.

A CPT, juntamente com o CIMI, sabe que anda muito só ultimamente nas suas lutas pelo campo. As populações mais vitimadas pelo modelo atual, e pelo governo atual, são exatamente os indígenas, quilombolas e comunidades tradicionais. Os Movimentos da Via Campesina se defendem melhor, até por sua proximidade com o governo. Porém, na hora da luta concreta, as comunidades tradicionais estão enfrentando uma solidão cósmica.

Porém, a honestidade do presidente do Ibama não anula a dimensão cruel, anti-humana, que permeia a política desenvolvimentista atual. Antes, a prerrogativa do sacrifício humano pertencia às religiões. Os que têm descendência bíblica acabaram com essa crueldade quando o Deus bíblico não permitiu que Abraão sacrificasse Isaac. Ele não precisava do sacrifício humano, embora judeus e cristãos depois tenham sacrificado multidões ao longo dos séculos. Mas, Astecas, Incas e outras tradições religiosas sacrificaram pessoas enquanto seus impérios duraram.

Hoje, a prerrogativa do sacrifício humano pertence ao capital. Ele decide quem deve morrer. E quem morre são indígenas, quilombolas, comunidades tradicionais e o meio ambiente.

Se quisermos manter um pingo de dignidade humana, devemos nos afastar não só da direita, mas também das esquerdas que aceitam o sacrifício humano em nome do desenvolvimento, da revolução, ou de qualquer outra causa onde a vida humana seja o combustível.

Na luta contra as mudanças no Código Florestal, Belo Monte, Transposição; enfim, contra o modelo predador imposto, podemos identificar perfeitamente quem é quem no Brasil de hoje.

Fonte: Adital
http://www.adital.com.br/site/noticia.asp?lang=PT&cod=58393

quinta-feira, 14 de julho de 2011

É preciso defender a vida!

É preciso que aprendamos a nos proteger. Não de um mal difuso, forças ocultas, poderes dispersos. Precisamos nos proteger das ações humanas; das consequências públicas de ações que simplesmente deconsideram seus efeitos sobre aqueles que estão à sua volta.

É o caso da mineração predatória. Uma atividade que faz de nós invisíveis sociais e que se nega a reconhecer nossa dignidade. A exploração dos recursos naturais e do trabalho humano assumiu em nosso tempo uma dimensão trágica e ameaçadora: ameaça a vida das atuais e futuras gerações. Esses recursos não podem mais ser pensados apenas associados ao funcionamento da indústria de mineração. É preciso que se leve a sério a questão política e social que envolve a atividade de exploração sem limites em que estamos sendo enredados. Para isso, é preciso que promovamos uma mudança do modelo de desenvolvimento, uma mudança profunda dos paradigmas que orientam nossas ações cotidianas, uma revisão de valores como justiça, liberdade e equilíbrio. Todos os valores devem ser voltados para a valorização da dignidade humana.

A hegemonia de valores como a competitividade, desenvolvimento econômico e crescimento a todo custo nos levou à silenciosa tragédia que ameaça tomar conta de toda Minas Gerais.

É preciso que as pessoas se defendam dos "decretos expropriatórios" que permitem ao governo-minerador declarar a disponibilidade de toda uma paisagem cultural e de comunidades inteiras para fins de "investimento" e "geração de empregos", inclusive dentro dos perímetros urbanos. O critério do governo-minerador, na verdade, é apenas um: deixar explorar jazidas economicamente viáveis economicamente, onde quer que elas estejam. Não contam as pessoas, não contam as cidades, não contam o patrimônio paisagístico e cultural, não conta a memória. O governo-minerador decide se nosso quintal pode ser transformado em depósito de rejeito de mineração. A nós cabe o lixo ("rejeito"), que é economicamente inviável, os desumanos custos da exploração de matéria-prima para engordar ainda mais o insaciável dragão da mineração.

"Protocolos" com as mineradoras são assinados diretamente nos palácios de governo. Do mapa de Minas são varridas as pessoas, seus lares e sua história. Confiram os mapas do DNPM. Você não está lá, sua casa não está lá, sua cidade não está lá. Aquela trilha, aquela caverna, aquela cachoeira ou córrego onde você passou sua infância, onde você descansa com sua família, pra onde você foge quando precisa reencontrar sua humanidade e seu passado, nada disso está no mapa. Nada disso existe. Somente jazidas.

O legalismo garante a exploração: "tudo está sendo feito rigorosamente nos termos da lei", afirmam mineradoras e governo. A apropriação de tudo que é bem comum - da água, da terra, das montanhas, da vida e saúde humanas - simplemente acontece, e se "legitima" como que por encanto. Se desejam realizar uma pesquisa mineral no Pico do Itacolomi, o fazem. Se querem o ouro de Paracatu, o tiram. Se querem uma Casa de Pedra maior em Congonhas, que venha abaixo o Santuário de Bom Jesus de Matosinhos. E assim o Caraça, as águas do Gandarela. Serra Azul, Serra da Moeda, Serra da Piedade, todas as serras.

Em todo lugar uma mina: afinal, "minas, são muitas". Tantas que já não há mais lugar para gente. A famosa frase de Guimarães Rosa assume, hoje, ares de trágica premonição.

O poder minerador se tornou maior que as instâncias políticas responsáveis pela defesa dos direitos das pessoas. Um Estado dentro do Estado. É em nome de lucro e crescimento que falam e agem. Em nome dessa crença, desta religião, se autorizam a intervir até na geografia de Minas Gerais. Favelização, sobrecarga das estruturas urbanas, degradação ambiental, desertificação, esgotamento de nossos recursos hídricos.

A questão é também de ordem ética: a mineração age hoje desvinculada de quaisquer valores sociais e humanísticos de uma nova era de responsabilidade, de consciência quanto às consequências coletivas de nossas ações. Claro que não é o que os discursos das mineradoras dizem. Vejam a publicidade. Só os ingênuos acreditam.

É preciso agir. Boa parte daqueles que elegemos para defender nossos direitos estão nos traindo. Não nos enxergam do alto dos ombros dos gigantes nos quais estão montados (ou será o contrário?). Por isso, informe-se! Comprometa-se! Venha defender a qualidade de vida para você, para os seus e para as futuras gerações. Diga não à mineração em área urbana. Posicione-se a favor de uma definição participativa e democrática de marcos regulatórios para a mineração. Juntos, não temos como ser ignorados.

Texto reproduzido a partir do blog Mariana Viva.
http://marianaviva.blogspot.com/

sexta-feira, 29 de abril de 2011

Minha alma é cerrado

Aconselham-me a tomar produtivos aqueles campos inúteis. Disseram-me que o cerrado deveria ser queimado, para no seu lugar fazer crescer uma mata de pinus eliotis. Explicaram-me que este pinus cresce muito rápido e que, em poucos anos, as árvores poderiam ser cortadas e transformadas em bom lucro. Andei por uma mata de pinus eliotis. Senti medo. Escura. O silêncio é total. nenhum pio de pássaro. Eles não vão lá. Acho que também têm medo. O chão é coberto por uma compacta camada de folhas secas, tão compacta que ali não cresce nem tiririca. E fiquei pensando nas tortas e rugosas árvores do cerrado, e na vida que nelas mora. Pensei no destino das guabirobeiras, das flores silvestres, das abelhas... E conclui que minha alma é cerrado, mas não é uma mata de pinus eliotis.

Aconselharam-me, também a queimar os campos para neles plantar feijão. "Feijão dá bom dinheiro", argumentaram. Mas, antes de fazer isso, tive de ter uma conversa com as florzinhas quase invisíveis, os pequenos insetos, os passarinhos, as aranhas e suas teias. E não tive coragem. Minha alma é um campo, tal como saiu do ventre da mãe natureza, mas não é uma plantação rendosa. Fazer o que me aconselhavam era transformar uma grande e divina sinfonia na monotonia de um samba de uma nota só ... "não só de pão viverá o homem", dizem os textos sagrados. Precisamos de beleza, precisamos de mistério, precisamos do místico sentimento de harmonia com a natureza de onde nascemos e para qual voltaremos.

Enquanto depender de mim, os campos ficarão lá. Enquanto depender de mim, os cerrados ficarão lá. Porque tenho medo de que, se eles forem destruídos, a minha alma também o será. Ficarei como as florestas de pinus, úteis e mortas. Ficarei como as plantações rendosas, úteis e vazias de mistérios. E me perguntei se não é isto que o progresso e a educação estão fazendo com as nossas almas: transformando a beleza selvagem que mora em nós na monótona utilidade das monoculturas. Não é de admirar que, de mãos dadas com a riqueza, vá caminhando também a incurável tristeza.

RUBEM ALVES

sexta-feira, 22 de abril de 2011

Viva no espaço do seu Deus

É nos momentos difíceis que você se esquece de Deus, ou até mesmo se volta contra Ele. Então, entrega-se à fadiga, ao desânimo e à desesperança. É quando a vida fica mais difícil que você frequentemente se esquece de Quem É, e dos meios que Deus lhe deu para criar a vida que desejaria. Justamente na hora do teste difícil, quando tem a chance de provar Quem É, afasta-se da fonte de todo poder.

Porém, quando tudo parece sem solução seria, mais do que nunca, hora de ir para o espaço do seu Deus. Isso lhe proporcionaria grande paz de espírito – de onde poderiam surgir grandes idéias, que poderiam ser soluções para os seus maiores problemas. Mais ainda, é somente no espaço do seu Deus que você se realiza, e esse é o único objetivo da sua alma.

Ao abrigar-se no espaço do seu Deus, você verá com extrema lucidez que tudo o que experimenta agora é transitório, mas que você não o é, você é eterno. Ao definir as condições e circunstâncias como temporais e transitórias, você poderá usá-las como meios temporais e transitórios na criação da sua experiência atual.

Então, diante da sua experiência atual – perda, conflito, doença... – é hora de se perguntar: Quem você pensa que é? E Deus, Quem Ele é? Seu problema é difícil demais para Deus resolver? É grande demais para Ele?

Mas você fica em dúvida, sem saber qual é o desejo de Deus em relação a você. Você pensa que a solução do seu problema depende do desejo de Deus; a verdade, porém, é que depende do seu. Ora, Deus lhe deseja nada mais nada menos aquilo que você deseja. Ele não julga os seus pedidos, para decidir se devem ou não ser atendidos. A lei divina é de Causa e Efeito, não de Veremos. Você pode ter tudo que escolher, e Deus lhe dará mesmo antes de pedir.

No entanto, para o bem ou para o mal, você sempre tem aquilo que cria, e a todo momento está criando. Deus não impede e nem julga aquilo que você cria, simplesmente lhe dá o poder de criar mais. Está aí o seu livre arbítrio. Se você não gostar do que acabou de criar, escolha novamente; o compromisso de Deus é lhe dar essa oportunidade.

Não se lamente se nem sempre teve o que quis, porque você constantemente teve o que escolheu. Sua vida é o resultado de seus pensamentos em relação a ela, e das escolhas que faz a cada instante. Por isso, nunca se julgue vítima da situação ou dos outros. Em relação à sua experiência atual, se está infeliz com ela, reflita sobre os seus pensamentos criativos, suas fantasias, suas palavras e atitudes; então, compreenderá o seu poder, o poder que Deus lhe deu de criar continuamente. Entenderá que a sua vida resulta das suas intenções em relação a ela.

Tudo que Deus concebeu é perfeito, criado à Sua imagem e semelhança. Você é perfeito, porque Quem o criou não criaria algo imperfeito.

Portanto, se até agora escolheu o pensamento menos importante, a idéia mais insignificante, o pior conceito sobre si mesmo, observe o que tem escolhido e escolha novamente. Escolha o pensamento mais elevado, a idéia mais magnífica e o melhor conceito sobre Quem Você É e Quem Você Quer Ser. Escolha e permaneça no espaço do seu Deus e todos os eventos se tornarão bênçãos.

Texto extraído e modificado do livro Conversando com Deus, de Neale Donald Walsch, vol. I, Agir, 2008.

domingo, 3 de abril de 2011

A vida é uma criação, não uma descoberta

Você não vive cada dia para descobrir o que ela lhe trará, mas sim para criá-lo. Cria a sua realidade a cada minuto, provavelmente sem saber.
Eis porque é assim, e como funciona.

1. Deus o criou à Sua imagem e semelhança.

2. Deus é o criador.

3. Você é três-em-um. Pode dar a esses três aspectos do ser o nome que quiser: Pai, Filho e Espírito Santo; mente corpo e espírito; superconsciente, consciente e subconsciente.

4. A criação é um processo que se origina dessas três partes suas. Em outras palavras, você cria em três níveis. Os instrumentos de criação são: pensamento, palavra e ato.

5. Toda criação começa com um pensamento (“Origina-se do Pai”). Toda criação então passa para a palavra (“Peças e serás atendido”). Toda criação é realizada com um ato (“E o verbo se fez carne e habitou entre nós”).

6. Aquilo que você pensa, mas nunca expressa em palavras, cria em um nível. Aquilo que você pensa e expressa em palavras cria em outro nível. Aquilo que você pensa, fala e faz torna-se evidente em sua realidade.

7. Pensar, falar e fazer algo em que você realmente não acredita é impossível. Por isso, o processo de criação deve incluir crença ou conhecimento. Isso é fé absoluta. È saber com certeza (“Pela tua fé serás curado”). Portanto, a parte ativa da criação sempre inclui o conhecimento. È uma clareza total, uma certeza absoluta, uma aceitação da realidade de algo.

8. Esse ponto de conhecimento é de intensa e incrível gratidão. É uma gratidão antecipada. E talvez seja a mais importante para a criação: ser grato antecipadamente por ela. Tê-la como certeza não só é justificado, como também incentivado. É o sinal claro da mestria. Todos os mestres sabem antecipadamente que o ato foi realizado.

9. Aprecie e louve tudo que você cria e já criou. Rejeitar qualquer parte da criação é rejeitar uma parte de si mesmo. Seja o que for que estiver agora se apresentando como parte de sua criação, deve ser reconhecido e louvado. Sinta gratidão pelo que criou. Não o condene (“Maldito seja!”), porque isso seria condenar a si próprio.

10. Se houver algum aspecto da criação de que você não gosta, louve-o e simplesmente mude-o. Escolha novamente. Faça surgir uma nova realidade. Tenha um novo pensamento. Diga uma nova palavra. Faça uma escolha nova. Faça-a magnificamente e o restante do mundo o seguirá. Peça isso. Diga: “Eu sou a Vida e o Caminho, sigam-me.”

É dessa forma que se manifesta a vontade do Deus “na Terra como no Céu”.

Extraído de: WALSCH, Neale Donald. Conversando com Deus, livro 1. Rio de Janeiro: Agir, 2008, p. 111-112.