Blog do Professor Márcio

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domingo, 30 de maio de 2010

Visita Técnica ao Inferno

Imagine, caro leitor, que você fosse professor de Engenharia Ambiental e que, para enriquecer a formação curricular de seus alunos, dirigisse uma visita técnica ao INFERNO. É isto mesmo, ao inferno, para conhecer as condições ambientais daquele lugar tão mal falado. Como pessoa da ciência, você é neutro, não é? Não importa para quê serve o inferno, para quem serve o inferno, mas como funciona o inferno, concorda? É assim que procedem muitas pessoas que se dizem cientistas, elas se fixam nos processos e não nos sistemas que geram os processos. Cientistas alienados ou pseudo-cientistas são sempre indispensáveis para manter o inferno funcionando.

Então, vamos lá! Chegando ao inferno você e a turma ficam extasiados com o seu perfeito sistema operacional, nada daquela zorra total que o pessoal daqui anda falando: departamento de recursos humanos, planejamento das operações, segurança do trabalho (afinal, quem trabalha lá tem que se cuidar!), sistema de controle de qualidade, treinamento de pessoal, enfim, um empreendimento eficiente e competitivo.

De tão entusiasmado com sua “descoberta”, você quer contar a todo mundo sobre as virtudes do inferno, uma organização que nem parece coisa de brasileiro. Lá vai um artigo de jornal: mil elogios, quem dera transformar nosso País num inferno daqueles!

Stop! Nossas digressões vão parar por aqui. O artigo, caro leitor, já foi publicado no jornal “O Lábaro”, edição 31, maio de 2010, página 21, sob o título: “Engenharia Ambiental visita mineradora de amianto crisotila”. Leia-o, é impagável!

Para quem não sabe, crisotila é amianto, também chamado de “fibra assassina”. A Agência Internacional de Pesquisa sobre Câncer, da Organização Mundial de Saúde, classifica o amianto ou asbesto no grupo 1 dos 75 agentes reconhecidamente cancerígenos para os seres humanos. A ação cancerígena do amianto está muito bem documentada cientificamente na literatura médica internacional há pelo menos um século. Por isto, ele já foi banido em 52 países ao redor do mundo. No Brasil por força de “lobby”, ele ainda é produzido, mas vários municípios e estados brasileiros já possuem legislação restritiva ao uso do amianto e em quatro deles já há uma proibição formal de sua exploração, utilização e comercialização, como é o caso de São Paulo, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul e Pernambuco. Há um processo de banimento a ser votado no Congresso Nacional, talvez ainda neste ano.

Entretanto, a matéria assinada por uma professora descreve a visita com foco apenas nas condições operacionais da mina de amianto da SAMA, em Goiás, sem levantar uma única questão ambiental. Os visitantes não tiveram contato, é óbvio, com as inúmeras vítimas que ainda sobrevivem (a maioria já se foi!) da malfadada mina. O que me deixou pasmo, ao ler a citada matéria, foi a seguinte pérola: “A SAMA (...) é um exemplo que serve como padrão de desenvolvimento sustentável para mineradoras do Brasil e do exterior.” Padrão dos infernos! As câmaras de gás de Auschwitz-Birkenau ainda são referência mundial de extermínio, sua eficiência talvez jamais seja suplantada. Mas elas jamais poderão servir de padrão de Engenharia Ambiental, você não acha, caro leitor?

A verdade é que estamos “no mato sem cachorro”. Nossos cursos de engenharia ambiental não discutem o que é desenvolvimento e muito menos o significado de sustentável. Seu objetivo é formar para o "mercado", esta coisa vil e podre que não se importa com a saúde do trabalhador, com a saúde da população, e vai continuar lançando os seus amiantos, arsênios, chumbos, cianetos e toda sorte de pestilência, de modo eficiente, com a mais moderna tecnologia de produção. O importante é o lucro a qualquer custo, e para isto o sistema de exploração necessita de pessoas alienadas e eficientes para promover o inferno sustentável. Pessoas que não questionem: pra que o inferno, se ele só interessa ao diabo?


Este texto foi publicado no jornal "O Lábaro", ed. 32, junho de 2010.
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quinta-feira, 6 de maio de 2010

Mineração em Paracatu: anos dourados ou triste sina?

O surgimento de Paracatu deve-se, inegavelmente, à exploração do ouro e talvez isto seja, mais que um proveito, uma triste sina. Naqueles tempos, o povoado teve um rápido crescimento e, depois, uma longa estagnação, da qual foi arrancada pela agricultura nos anos 1980.

Crescimento econômico não se confunde com desenvolvimento. Para que este ocorra é necessário um projeto social que prepare um futuro melhor para a massa da população. Entretanto, os governos e suas agências, as empresas assim como a maioria das pessoas, supõem que o desenvolvimento econômico resulta da posse de coisas como usinas, barragens, prédios, tratores e outras, criando falsas e fúteis expectativas.

É evidente que os resultados econômicos não se traduzem automaticamente em benefícios para a maioria. Por isto, é preciso refletir sobre a natureza do desenvolvimento e estabelecer políticas estruturadas por valores que não sejam apenas os dos donos do capital.

Os Relatórios do desenvolvimento humano do PNUD (Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento) identificam quatro capacidades para se avaliar o progresso do bem-estar humano: vida longa e saudável, conhecimento, acesso aos recursos necessários para um padrão de vida digno e participação na vida da comunidade. Eles enfatizam que o desenvolvimento depende da maneira como os recursos gerados são utilizados – se para produzir veneno ou para produzir alimentos, se para ostentar vaidades ou para fornecer água potável, por exemplo.

Para aferir o desenvolvimento humano, cerca de 200 indicadores foram consubstanciados num índice – Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) – obtido da média de renda, escolaridade e longevidade.

A tabela seguinte apresenta o PIB per capita, o Índice de Analfabetismo e o IDH de Paracatu, comparados aos de Unaí e do Brasil.

(*) Produto Interno Bruto dos Municípios 2002-2005. Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) (19 de dezembro de 2007).
(**) Ranking decrescente do IDH-M dos municípios do Brasil. Atlas do Desenvolvimento Humano. Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) (2000).

Se acreditássemos nos arautos das mineradoras, os resultados apresentados seriam chocantes: então, a vizinha Unaí, que não tem indústria mineral, tem PIB per capita 30% superior e IDH 6,8% superior? Comparados ao Brasil, o PIB per capita de Paracatu é a metade, a taxa de analfabetismo é 20% superior e o IDH 7% inferior?!

Onde fica o argumento dos benefícios econômicos e sociais trazidos pelas mineradoras?

A presença de duas grandes indústrias minerais, sem dúvida, faz crescer a economia, mas até onde? Se os frutos do crescimento são utilizados para reforçar uma matriz institucional exploradora, ao invés de servir para transformá-la, seus benefícios não chegam sequer a melhorar o acesso das populações mais vulneráveis aos direitos fundamentais do homem.

E nos aspectos ambientais? A indústria mineral utiliza o jargão do “desenvolvimento sustentável”. Já provamos que ela não trouxe desenvolvimento, mas o que seria então “desenvolvimento sustentável”? Sustentabilidade não é um conceito científico, mas um conceito ético: fazer ou não opções que favoreçam as gerações futuras, abrindo mão de benefícios imediatos.

Gell-Mann, prêmio Nobel de Física de 1969, ao discutir o significado do adjetivo sustentável, conclui que há uma “desejabilidade” junto com a sustentabilidade.
De maneira geral, as pessoas sabem o que é e o que não é desejável. A ausência de vida na Terra pode ser sustentável; o ar envenenado por cianeto, arsênio e outras substâncias tóxicas pode ser sustentável no planeta durante milhões de anos; o solo contaminado por agrotóxicos, arsênio, chumbo e outros metais pesados pode ser sustentável até que haja desaparecido a vida na Terra. Mas ninguém deseja ar envenenado, solo contaminado, vida destruída, água inutilizável e tantos outros produtos do crescimento econômico a qualquer custo. A sustentabilidade ambiental é baseada no imperativo ético de solidariedade com a geração atual e com as gerações futuras.

Assim, quando falamos em desenvolvimento sustentável estamos nos referindo a um desenvolvimento socialmente includente, ambientalmente sustentável e economicamente sustentado através do tempo. Isto jamais seria compatível com as ações de mineradoras que destroem as reservas de água potável, contaminam ar, água e solo com substâncias letais, utilizam o seu enorme poder para se imporem às populações atingidas, sonegam informações sobre poluição ambiental e mascaram suas políticas predatórias com engodos e falsidades.

Como seria bom se pudesse tecer louvores sobre a mineração em Paracatu! O povoamento da cidade iniciou-se com o garimpo, que deixou seu rastro de pobreza contaminada pelo mercúrio, e, hoje, pouco está se importando com o invisível arsênio e o seu terrível e eterno legado. A febre do ouro nos lembra que muitos preferem ter uma vida curta, mas que (quem sabe?) por um breve momento possa ser excitante.

Artigo publicado no jornal "O Lábaro", Ano 03, Edição 30, abril/2010.
Marcadores: meio ambiente; paracatu; ouro; arsênio; cianureto; rejeito; drenagem acida; conflito ambiental; licenciamento; desenvolvimento.

quarta-feira, 21 de abril de 2010

21 de Abril

Data cívica, hoje em dia, é apenas um feriado, descanso da labuta ou oportunidade de lazer. Mas, quis JK que a inauguração de sua grande obra – Brasília – coincidisse com a memória cívica de Tiradentes, mineiro como ele. Então, no meio de uma quarta-feira sem grandes opções, passo os olhos no noticiário da Internet, onde as discussões sobre a nossa capital se destacam sobre minguados artigos a respeito do herói da pátria.

Entre um e outro, acho que cabe fazer paralelo: de um lado, Brasília, uma cidade moderna, atolada na corrupção política e cercada de pobreza e sofrimento; de outro, Tiradentes, um mestiço, pobre, idealista, cercado de figuras da casta privilegiada, mas endividada, que tramou uma insurreição, mas não hesitou em entregá-lo como bode expiatório.

A gente não consegue separar Brasília de suas cidades satélites, de maneira que ao falar dela estou me referindo à metrópole que a gente chama de Plano Piloto, Taguatinga, Ceilândia, Gama etc. e todas as outras cidades que compõem o entorno.

Inclui, portanto, todo o espectro que vai do luxo à miséria, de bairros holliwoodianos à favelas mal disfarçadas. (Imagem ao lado: Samambaia e, ao fundo, Taguatinga)

Brasília provoca sentimentos antagônicos – amor ou ódio -, ninguém fica neutro. O primeiro contato é, quase sempre, de aversão; mas, na medida em que a gente se entrosa com as pessoas de lá, acaba se apaixonando. Morei em Brasília durante 13 anos, e foi assim. Detestava-a, a princípio, mas quando saí de lá foi como se tivesse perdido minhas raízes. Não é o lugar, nada tem a ver com seu projeto urbanístico, não é o belo e nem o feio: são as pessoas. Em nenhuma cidade as pessoas estão abertas à amizade como os brasilienses!

A imagem ruim que hoje temos de Brasília está muito distante da vida, do trabalho e do comportamento da imensa maioria dos seus habitantes. A cidade nasceu como fruto da vontade brasileira de uma nova sociedade, sob a égide do desenvolvimentismo e do liberalismo político de JK; atraiu uma elite intelectual que deixou marca na história da educação; seus estudantes tiveram coragem de enfrentar a ditadura na casa dela, e suas organizações civis atuaram decididamente para o restabelecimento da democracia.

Porém, sem que o País e a própria população brasiliense se apercebessem, após o retorno democrático o poder não mudou de mãos, e a elite que governou junto com os militares teceu suas teias, sufocando a sociedade na malha de corrupção. Hoje, Brasília é o retrato do Brasil, de um Brasil que não queremos.

E Tiradentes? O homem foi mesmo um herói! Durante seu julgamento, o advogado de defesa, nomeado pelo governo colonial, qualificou Tiradentes de insano e libertino, acusando-o de ter influenciado os demais conspiradores, para os quais pediu clemência.
Entretanto, mesmo diante da covardia de seus companheiros, Tiradentes reafirmou, em todas as situações, sua crença nos ideais da Inconfidência. Por isto, foi o único a receber a pena de morte, tendo o seu corpo esquartejado exposto nos caminhos de Minas. (A imagem ao lado é do quadro "Despojos de Tiradentes, de Cândido Portinari)

Acho que não foi por acaso que JK, cujo amor pelo Brasil sempre foi manifestado em sua vida política, fez que coincidissem os aniversários da inauguração de Brasília e da morte de Tiradentes. Talvez ele pressentisse que a cidade um dia precisasse da figura de nosso herói – humilde, corajoso, idealista -. para resgatar a imagem poderosa de um novo Brasil, o Brasil que queremos.

Artigo publicado no jornal O Movimento, Ano XXI, n. 373, 11-31 de maio de 2010.

domingo, 4 de abril de 2010

A cultura do consumo

“As pessoas usam dinheiro que não têm,
para comprar coisas de que não necessitam,
para impressionar
pessoas que não conhecem.”
(Oystein Dahle)

“A Terra tem o suficiente para as necessidades de todos,
mas não para a gula de todos.”
(Mahatma Gandhi)

quinta-feira, 1 de abril de 2010

Caminho

"Qualquer caminho é apenas um caminho e não constitui insulto algum - para si mesmo ou para os outros - abandoná-lo quando assim ordena o seu coração. (...) Olhe cada caminho com cuidado e atenção. Tente-o tantas vezes quantas julgar necessárias... Então, faça a si mesmo e apenas a si mesmo uma pergunta: possui esse caminho um coração? Em caso afirmativo, o caminho é bom. Caso contrário, esse caminho não possui importância alguma."

Carlos Castañeda: Os Ensinamentos de Dom Juan, citado por Fritjof Capra em "O Tao da Física".

terça-feira, 23 de março de 2010

Ter ou fazer: o que você quer?

Quero convidá-lo a uma reflexão sobre o "ter" e o "fazer". De início, convido-o a pensar em nomes de pessoas que deixaram um legado importante para a humanidade, mas que nasceram ou viveram na pobreza. Sei que muitos nomes lhe ocorrerão, mas citarei apenas alguns para que possamos dar continuidade à nossa reflexão. O maior vulto literário brasileiro ainda é Machado de Assis, descendente de escravos, funcionário público humilde. O maior músico de todos os tempos, para mim, foi Mozart, que viveu apenas 35 anos, morreu na miséria e foi enterrado anonimamente em uma vala comum. Na filosofia e nas ciências sociais, posso citar Marx, que nasceu numa família de classe média, mas suportou uma vida de muitas dificuldades, sendo socorrido por amigos, tendo falecido no exílio e na pobreza.

Para não ficar cansativo, deixarei de enfileirar nomes, exceto o exemplo maior, que certamente também lhe ocorreu: Jesus Cristo. Todos conhecemos o legado de Jesus e os traços marcantes de sua vida: nasceu num estábulo, sua família teve que buscar o exílio, viveu pobre, foi perseguido, torturado e morto aos 33 anos, sendo sepultado num túmulo emprestado.

Tendo você relacionado outros nomes, pois há uma infinidade deles (Gandhi, Chico Xavier, Lincoln...), meu convite é que agora você pense em nomes de pessoas que nasceram em famílias abastadas ou conquistaram grandes fortunas e que tenham deixado um grande legado à humanidade. Difícil, não? Mas certamente os há!

Ocorreu-me o nome de Gautama Sidarta, o Buda, que nasceu príncipe e deixou um legado imperecível nos campos da religião, da filosofia e da psicologia. Mas ele jamais seria “o Buda” se tivesse permanecido na abastança, agarrado às posses e ao poder. Um dia, ao se deparar com a miséria, o sofrimento e a morte, deixou tudo o que tinha para buscar o autoconhecimento e pregar os segredos do equilíbrio e da paz. Isto é, deixou de ter para fazer.

Por outro lado, nos deparamos com muitos nomes de pessoas que não nasceram pobres, mas amealharam fortuna por conta daquilo que fizeram e deixaram legados importantes para a humanidade. Um deles, Thomas Edison, o maior inventor de todos os tempos.

Já descobriu aonde quero ir com esta reflexão?

Há pessoas que se preocupam com o "ter", vivem amealhando bens, dinheiro e coisas. Apegam-se a elas, adoram falar delas, ostentam-nas como se elas fossem partes de si próprios, mas não sabem o que fazer com elas. Não representam um bem verdadeiro. Preste atenção nos discursos: se estão falando de si, elas dizem tenho tal emprego, tenho tal negócio, tenho isto, tenho aquilo; se estão falando do negócio, elas dizem tenho tantos empregados, tenho tantos clientes, minha empresa tem tantos computadores, tanto disto, tanto daquilo. Jamais lhes dá na cabeça que pessoas morrem, clientes somem, coisas passam; e que tudo isto não tem significado em si. Somos nós que damos significado às coisas e fatos do mundo.

Se você tem - dinheiro, coisas, negócio, talento, amor... -, o que está fazendo com aquilo que tem? Qual o benefício que elas trazem para você e para os outros? Estão sendo adequadamente utilizadas com uma finalidade justa? As respostas a estas questões são fundamentais.

Há pessoas que se preocupam com o "fazer", porque acreditam que são as idéias e o agir consonante a essas idéias que moldam o mundo, são as idéias e o agir que catalisam pessoas e coisas. Se a sua idéia é forte (fé), se o seu trabalho é persistente (esforço) e se o seu objetivo é contribuir (amor), eles catalisarão positivamente pessoas e coisas para a sua concretização. Pessoas e coisas que não lhe pertencem, que morrem e passam. Preste atenção nos discursos: as pessoas focadas no "fazer", se estão falando de si, dizem quero fazer isto, fiz aquilo, estou aprendendo a fazer tal coisa; se estão falando do negócio, elas dizem fizemos isto, vamos fazer aquilo, que seus colaboradores fizeram ou são capazes de fazer tal coisa, que seus clientes esperam que tal coisa seja feita. Elas sabem que tudo passa, mas o que foi feito, foi feito, não tem volta. Não significa que elas terão as mãos vazias, bem ao contrário, mas que o foco está no fazer e no agir, que, como disse antes, atraem pessoas e coisas.

Então, se você quer “fazer” e não tem nada na mão, não se queixe por isto. Pelo menos aqui, sua situação é igual à dos maiores vultos da humanidade. Você não precisa ter a mão cheia para fazer o que quer. Reflita sobre o que você tem na cabeça e no coração, e não sobre o que tem na mão. O resto virá por acréscimo.

Suas idéias e seus sentimentos não precisam se igualar às dos condutores da humanidade, mas precisam estar à altura daquilo que você deseja fazer, para que, pequenina ou grande, a coisa seja bem feita e tenha valor para você e para os outros. Esta provavelmente será a sua verdadeira recompensa.

Mas se a sua escolha é “ter”, o caminho é simples e fácil, a porta é larga, basta seguir amealhando coisas. Talvez um dia você descubra o significado delas, quem sabe?

terça-feira, 2 de março de 2010

Câncer de Próstata

Gostei muito de um artigo que li recentemente, publicado no jornal "The New York Times". Ele toca num assunto que, para a grande maioria dos homens brasileiros, é um tabu: câncer de próstata e suas consequências. Fico penalizado quando tomo conhecimento de tantas mortes de pessoas das minhas relações, causadas pelo câncer de próstata, e quase indignado quando penso que grande parte deste sofrimento é causado por questões culturais. O aspecto cultural envolve machismo, má informação e desleixo, que são características fortes da cultura brasileira. Acrescento também, conforme constatação pessoal, a má formação dos médicos (quase todos eles homens e machistas), que desconsideram o aspecto psicológico profundo da expressão da sexualidade masculina. Sexo, para o homem moderno e que superou o machismo, é muito mais que o movimento mecânico de um pênis ereto!!!



Portanto, no intuito de contribuir para uma consideração atenta de homens e mulheres que acessam este blog despretencioso, apresento aqui um artigo do jornalista Dana Jennings, fruto de uma profunda reflexão, dolorida mas cheia de esperança.

Câncer de Próstata e seus efeitos

Venci o estágio 3 do câncer na próstata – e seu tratamento – em boa forma. Quase dois anos após descobrir que tinha câncer, sou um homem ativo de 52 anos; faço exercícios regulares, meus exames de sangue têm os resultados que deveriam ter e meu oncologista só quer me ver duas vezes por ano.

Mesmo assim, um efeito colateral de meu tratamento se mostrou particularmente teimoso: a disfunção erétil. Após uma prostatectomia aberta radical, radiação e tratamento com hormônios, é difícil colocar o velho motor do desejo para funcionar. E agora que estou cuidando de minha depressão pós-tratamento com Zoloft – que também atrapalha a função sexual –, algumas vezes não consigo nem encontrar minhas chaves. Ah, e meu nível de testosterona também está baixo.

Apesar disso, não reclamo. Não há vantagem em estar ereto e morto.

O câncer de próstata e seu tratamento atacam os homens onde eles vivem, frequentemente causando impotência e incontinência (meu controle da bexiga voltou gradualmente, mas ainda posso ser apanhado de surpresa por um espirro inesperado).

Não que eu esteja pronto para pendurar minhas botinas. Afinal de contas, somos criaturas sexuais e estou trabalhando com meu cirurgião para recuperar aquela parte de mim mesmo. Nos últimos dois anos, entretanto, insisti em tentar aprender o que o câncer poderia me ensinar. E aqui estou, apenas tentando entender, tentando articular como é ser uma mercadoria com defeito em nossa cultura sexualizada.

Nós nos afundamos numa cultura superficial de sorrisos forçados, falsidades e insinuações. A interminável objetificação do corpo – em homens e mulheres – acelera, atingindo velocidades tão altas que as objeções nem mesmo são ouvidas sob o rugido da mídia de massas.

Somos obrigados a cultuar “abdominais de tanquinho” e bíceps altos como o Everest, seios impossivelmente pontudos e nádegas de titânio. Às vezes, parece que cada imagem cuspida pela mídia eletrônica ressoa com apenas um assunto nas entrelinhas, e nada sutil: o sexo.

Com isso, onde fica um homem com disfunção erétil?

Não estou muito interessado na mecânica biofísica masculina, no Levitra, Viagra e Cialis (uma ereção que dura mais de quatro horas? Que tal quatro segundos?), em injeções e bombas penianas. Para mim, os comerciais de pílulas mágicas nunca pareceram tocar a nota certa. Os homens sempre parecem furtivos, como adolescentes comprando preservativos. E os narradores são calmos e sinistros.

No imaginário popular, as condições de homem e de mulher se tornaram ainda mais confusas com o ato sexual. Mas a hombridade não diz respeito a feitos prodigiosos ao se fazer amor, ou a quantos parceiros você consegue satisfazer. Não existem padrões oficiais.

A verdadeira hombridade trata-se de amor e ternura. Trata-se de responsabilidade e honra, de trabalhar duro e criar seus filhos da maneira que você acha melhor, com amor, respeito e disciplina.

Sim, minha função erétil ainda é um trabalho em desenvolvimento, mas não me sinto diminuído; não me sinto menos homem. Minha voz ainda é profunda como sempre, meus olhos são de um azul metálico. Ainda aprecio uma boa cerveja escura, e posso segurar as pontas numa blitz policial (embora às vezes me sinta tentado a dizer: “Está tudo bem, meninas, sou inofensivo!”).

A libido chega e vai embora nas horas mais estranhas, como uma casa com crianças durante férias escolares. Porém, curiosamente, sinto que a vida que minha mulher, Deb, e eu levamos está mais íntima do que nunca. Eu era aquele que estava doente, mas nós espreitamos o gélido abismo do câncer juntos. Enquanto eu era esmurrado por diagnóstico, tratamento e consequências, ela era minha apoiadora, minha confidente, minha incansável enfermeira. E tudo o que ela fez era recoberto por seu amor por mim. Era uma intimidade além das palavras. E, acredite, eu tenho muito a retribuir se algum dia tiver de cuidar de Deb.

A verdadeira intimidade não diz respeito à hidráulica da carne. É o cheiro de certo xampu no cabelo, um toque casual na cozinha, o gosto de uma sopa fria de amora num dia quente de verão, a gentil nostalgia de “Aja”, por Steely Dan, e seu coração se derretendo à visão de sua mulher há 28 anos dormindo profundamente após a meia-noite.

Apesar de tudo que aconteceu nos últimos dois anos, sou um homem de sorte. Amo meu trabalho, sou abençoado com dois filhos adoráveis, e tenho minha mulher gentil e indispensável para abraçar nestas frias noites de inverno.

O resto vai se recuperar a seu tempo.


Autor do artigo: Dana Jennings. Publicado no jornal The New York Times.