Blog do Professor Márcio

Seja bem vindo. Gosto de compartilhar ideias e sua visita é uma contribuição para isto. Volte sempre!

terça-feira, 28 de janeiro de 2014

Hospital Colônia de Barbacena

Vida, genocídio e 60 mil mortes no maior hospício do Brasil. 

Entrevista com Daniela Arbex

Publicado em janeiro 28, 2014 por 
 19
 25

 5


“Os funcionários alegavam não ter tido a dimensão da tragédia, que apenas seguiam a cartilha dos mais antigos. Eles também acabaram se desumanizando com o tempo”, reflete a jornalista.
Foto: Luiz Alfredo/Museu da Loucura (1961)
Durante o regime militar da Alemanha nazista, estima-se que cerca de 6 milhões de judeus perderam suas vidas nos campos de concentração. Ainda que um holocausto de tamanhas proporções jamais tenha se repetido na história desde então, a barbárie, a crueldade e a desumanização encontraram eco em vários lugares do mundo. No Brasil, uma das experiências mais emblemáticas é a do Hospital Colônia de Barbacena (MG), caso que se tornou conhecido pela alcunha de “holocausto brasileiro”.
Fundado em 1903, no interior de Minas Gerais, a história do Colônia ganhou espaço na mídia nos últimos anos a partir de uma série de reportagens publicadas no jornal Tribuna de Minas em 2012 e que deu origem ao livro Holocausto Brasileiro – Vida, Genocídio e 60 Mil Mortes no Maior Hospício do Brasil (São Paulo: Geração Editorial, 2013). Obrigados a andarem nus, a defecarem no chão em que dormiam e a enterrar seus próprios mortos, os internos eram enviados ao hospital literalmente para morrer. De acordo com a jornalista Daniela Arbex, autora da publicação, a vida dos internos do Colônia envolvia “um cotidiano de muita limitação, de frio, de fome, de maus tratos físicos e tortura psicológica”.
Os pacientes, que muitas vezes eram internados sem qualquer critério, eram os excluídos da sociedade. Pessoas indesejáveis, oponentes políticos, mendigos, prostitutas, homossexuais e, é claro, aqueles verdadeiramente doentes mentais, segregados da convivência diária para longe dos olhos da sociedade. “Pessoas que foram esquecidas pela sociedade, pela família, que eram ignoradas pelos próprios funcionários e pelos médicos, que testemunharam tudo e nada fizeram.”
Holocausto Brasileiro é o título escolhido por Daniela para registrar este período que, tal qual o Shoah, representou um crime não apenas contra aquelas pessoas, mas contra toda humanidade e que nunca deve ser esquecido. Em entrevista por telefone à IHU On-Line, ela relata detalhes da crueldade cometida contra os pacientes, que eram tratados por nomes de animais; destaca a venda de corpos e ossadas dos mortos sem consentimento das famílias e a visão dos funcionários do Colônia, que não conseguiam ter a dimensão de seus atos e alegavam apenas seguir a cartilha das práticas anteriormente aplicadas.
         
Foto: Luiz Alfredo/Museu da Loucura (1961)

“Estas pessoas foram se desumanizando, foram deixando de ver, e aquilo foi incorporado na rotina delas. Isso nos leva a parar, olhar para trás e refletir sobre o quanto a indiferença provoca barbárie”, alerta a jornalista. “A indiferença é você ignorar o que se passa, é fingir que não vê. É essa indiferença que contribui para a existência de barbáries como a do Colônia”, finaliza.
Daniela Arbex é jornalista graduada pela Universidade Federal de Juiz de Fora. Atualmente é repórter especial do jornal Tribuna de Minas, veículo pelo qual foi vencedora por três vezes do Prêmio Esso de Jornalismo, além de diversos reconhecimentos nacionais e internacionais.
Confira a entrevista.
Daniela Arbex. Foto: Tribuna de Minas
IHU On-Line – Desde que foi lançado, o Holocausto Brasileiro tem sido muito bem recebido, e conquistou vários prêmios e reconhecimentos. A reportagem que deu origem ao livro teve tanta repercussão assim? O que você acha que fez o livro ganhar tanto público quanto ganhou?
Daniela Arbex - A reportagem foi publicada em novembro de 2011 em uma série de sete matérias no jornal Tribuna de Minas (MG). Na época já houve uma repercussão muito grande, a receptividade das pessoas foi enorme, o que inclusive me surpreendeu bastante. O livro teve uma repercussão muito ampliada em relação à série do jornal, primeiro porque a Tribuna é um jornal pequeno, do interior, e que não tem tanta visibilidade, mas o livro alcançou o país inteiro. Essa é uma resposta para o livro ter tido um impacto ainda maior.
Mas eu acho especialmente que tanto o livro quanto a reportagem tocam o leitor porque é a primeira vez que as vítimas do Holocausto tiveram voz. Essa é uma história que sempre foi contada pelo olhar dos jornalistas, nunca pelo olhar dos sobreviventes.
Nunca houve a preocupação de ver como aquelas pessoas estavam, se havia alguém vivo, sabe? Então eu penso que o diferencial do livro é dar voz as vítimas. Fora que essa é uma história que toca em qualquer época, porque é uma história que fala não só das pessoas do Colônia, mas fala de todos nós. Fala do humano que existe em nós, do nível de maldade e horror a que nós podemos chegar, mas também da possibilidade de solidariedade. Ele mostra todas as contradições humanas, por isso eu acho que ele é tão forte. Por isso o livro teve tanta repercussão.
IHU On-Line – De onde veio a motivação para escrever a obra?
Daniela Arbex - O que me moveu a contar essa história foi exatamente não conhecê-la. Foi o fato de descobrir que a minha geração não sabia nada a respeito dela. Quando eu tive acesso, 50 anos depois, ao conjunto de imagens feitas no interior do hospital em 1961, fiquei completamente impactada. A minha geração tinha o direito de conhecer essa história, e quando eu comecei a contá-la percebi que o país desconhecia uma de suas piores tragédias. Isso é o que me mobilizou: a vontade de tornar conhecida essa história, para que todos pudessem conhecê-la, não só agora, mas também no futuro.
IHU On-Line – O que foi o Colônia? Como o livro Holocausto Brasileiro traz luz a esse escuro período da história do Brasil?
Daniela Arbex - O Colônia foi um hospital criado pelo Estado em 1903 para atender pessoas que tivessem doenças mentais. Eu acredito que ele tenha sido criado com boas intenções, com o propósito de tratamento mesmo, mas o Hospital teve sua finalidade desviada desde os seus primeiros anos. Nós conseguimos documentos de 1911-1914 que já revelam a existência de superlotação, e outros documentos que mostram a falta de critérios médicos para a internação de pessoas. Houve uma paciente de 23 anos, uma brasileira chamada Maria de Jesus, que foi internada porque tinha tristeza como sintoma. Então percebemos que a finalidade de tratamento não foi alcançada. Na verdade, o Colônia acabou se tornando um depósito de rejeitados, de excluídos, de pessoas que incomodavam outras com mais poder. Toda a sorte de indesejáveis teve o Colônia como destino.

Essa é uma história que sempre foi contada pelo olhar dos jornalistas, nunca pelo dos sobreviventes

IHU On-Line – É possível pensar em um perfil para os internos do Colônia?
Daniela Arbex - Com certeza. Mães solteiras, meninas que haviam perdido a virgindade antes do casamento, homossexuais, prostitutas, andarilhos, pessoas que tinham perdido documentos, todo o tipo de gente que teve a infelicidade de encontrar o Colônia no seu caminho.
IHU On-Line – Como era a vida desses internos?
Daniela Arbex - Na verdade era uma vida com muita ociosidade, com um cotidiano de muita limitação, de frio, de fome, de maus tratos físicos, de tortura psicológica. Pessoas que foram mandadas para lá exatamente para morrer. Que foram esquecidas pela sociedade, pela família, que eram ignoradas pelos próprios funcionários, pelos médicos que testemunharam tudo e nada fizeram… Era uma realidade que foi construída a partir da omissão de muita gente, e uma omissão que perdurou por muitos anos. Entre 1930 e 1980 o Colônia viveu o seu pior período, isto é, são 50 anos do período mais controverso dessa instituição e com o maior número de mortes.
IHU On-Line – O que era feito com os corpos dessas pessoas?
Daniela Arbex - Na verdade os corpos foram vendidos. Entre 1969 e 1980 foram vendidos 1.853 corpos para 17 faculdades de medicina do Brasil, e sem que as famílias tivessem autorizado. Então foi um comércio clandestino, um comércio fúnebre de corpos. E, quando essas faculdades ficaram abarrotadas de cadáveres, a ossada dessas pessoas, desses cadáveres, também começou a ser comercializada.
IHU On-Line – Qual a relação do regime político vigente à época com o tratamento dado aos pacientes? Os momentos finais do Colônia, em que ele esteve isolado da população, se deu durante o governo militar.
Daniela Arbex - Há uma relação forte, porque foi a época em que o hospital ficou o maior período blindado. Durante 18 anos nenhum repórter entrou no Colônia, então penso que há essa relação. Mas acredito também que não é só o momento político. A história do Colônia foi construída em cima da teoria eugenista de limpeza social, de se livrar de tudo que incomodava a sociedade. O Colônia foi uma forma de fazer isso acontecer, para que a sociedade pudesse ficar livre desse tipo de gente que incomodava tanto.
O que sustentou esse modelo foi exatamente essa cultura, que existe até hoje. Mesmo hoje em dia as pessoas continuam fingindo não ver, ignorando o sofrimento do outro. É só ver o caso dos grandes hospitais psiquiátricos, onde ainda há relatos de violação da dignidade humana. Esta é uma realidade que persiste mais de 100 anos depois.

Entre 1969 e 1980 foram vendidos 1.853 corpos para 17 faculdades de medicina sem que as famílias tivessem autorizado

IHU On-Line – Que importância a luta antimanicomial teve para dar fim ao holocausto brasileiro?
Daniela Arbex - A luta antimanicomial teve e tem seu lugar. Ela foi fundamental para se começar a pensar na extinção de um modelo que segregava mesmo, modelos que violavam a dignidade, que confiscavam a humanidade do indivíduo. Ela tem um valor incrível para a história e para a humanização dos modelos de atendimento.

Foi muito importante, no momento em que não se falava disso, que essas pessoas começassem a gritar e fizessem a sociedade discutir sobre uma realidade tão ignorada. Ignorada e cômoda também. Porque enquanto o hospício permanece cercado por muros, nós não precisamos saber o que está acontecendo ali.
Acredito que teve um valor incrível, agora há um longo caminho a ser percorrido, o desafio é imenso. Ainda não se venceu essa guerra e precisamos fazer com que os serviços essenciais, terapêuticos, ou o serviço substitutivo sejam capazes de substituir esse modelo hospitalar ultrapassado. Então acho que a sociedade brasileira precisa cobrar a implantação da rede substitutiva e, mais do que isso, que ela funcione com qualidade.
IHU On-Line – Por onde andam os “filhos do Colônia”? As crianças que nasceram lá?
Daniela Arbex - Então, eu encontrei duas. A filha da paciente Sueli Rezende, que nasceu lá. Hoje ela é graduada e formou uma família. Encontrei também o João Bosco, que é bombeiro e membro da banda do corpo de bombeiros da polícia militar de Minas Gerais. É uma pessoa muito batalhadora, muito digna. Ele conseguiu reconstruir, refazer essa história, mas passou a maior parte da vida sem saber que era órfão de uma mãe viva. Ele não sabia que a mãe estava viva, e a mãe também não sabia que o filho vivia; os dois se encontraram mais de 40 anos depois. Então essa lacuna que foi deixada na vida dessas pessoas, que deixaram de conviver com seus pais, com suas mães, é uma coisa que não se resgata. Apesar de essas pessoas terem, de alguma forma, dado a volta por cima, e elas são muito valorosas por isso, vai sempre haver uma lacuna na vida delas.
IHU On-Line – Quem eram os responsáveis/gestores do Colônia (Estado, Município, União)? Alguém foi responsabilizado pelos maus-tratos?
Daniela Arbex - Não, ainda não teve um responsabilização. Eu vejo muitas pessoas hoje cobrando uma responsabilização, algumas críticas que, inclusive, afirmam que o livro não dá nomes, mas eu não podia ser injusta. Eu não podia citar um nome, sendo que essa foi uma barbárie cometida durante cinco décadas. Durante 50 anos passaram pelo hospital milhares de pessoas, funcionários, médicos e profissionais de toda sorte, isso sem falar da própria população de Barbacena (MG) e dos familiares dos pacientes espalhados pelo país inteiro. Eu acho muito difícil que haja uma individualização dessa responsabilidade. Para mim, o mais correto e talvez o caminho possível fosse a responsabilização do Estado de Minas Gerais que foi responsável pela manutenção do Hospital, porque essas pessoas estavam sob a custódia do Estado.
Foto: Luiz Alfredo/Museu da Loucura (1961)
IHU On-Line – Você chegou a conversar com funcionários? Como eles enxergavam o tratamento que era aplicado aos pacientes?
Daniela Arbex - Na verdade eles não enxergavam. Eu conversei com muitos funcionários e a resposta era sempre a mesma. Eles alegavam não ter tido a dimensão da tragédia, que apenas seguiam a cartilha dos mais antigos e aprenderam que era daquela forma que devia ser feito. Eles também acabaram se desumanizando com o tempo. Alguns tentaram fazer alguma coisa (poucos na verdade), mas eu acho que essa rotina acabou desumanizando essas pessoas de alguma forma. Elas não tinham a dimensão exata da gravidade dos atos e do que estava acontecendo ali. Agora, olhando para trás, muitos confidenciaram que se arrependem e que podiam ter feito mais, que podiam ter evitado mortes, e isso para mim foi surpreendente.
IHU On-Line – Foi uma escolha muito feliz o termo Holocausto Brasileiro, porque esse comportamento dos funcionários lembra muito o que Hannah Arendt fala da banalidade do mal no próprio Holocausto.
Daniela Arbex - Exatamente. Eu tive pouquíssimas críticas em relação ao nome, mas uma pessoa colocou publicamente que achava que nada podia ser comparado ao nazismo. E o livro mostra exatamente o contrário, pode ser comparado sim, pois o Colônia foi também um campo de extermínio em massa. As condições nas quais as pessoas foram mantidas, a forma com que elas foram tratadas, as vítimas tendo que enterrar seus próprios mortos, enfim, penso que se assemelha muito ao que aconteceu na Alemanha nazista.
IHU On-Line – A banalidade do mal se caracteriza por um comportamento que segue a cartilha, segue a técnica, sem que haja nenhuma reflexão humana sobre o acontecimento. Como você vê isso no caso do Colônia?
Daniela Arbex - Volto à questão da construção da cultura da época. Aquelas pessoas não eram vistas como gente, porque elas nunca foram tratadas como gente. Ao contrário, muitas não tinham nem nome de gente. Quando entravam no hospital eram rebatizadas e recebiam nomes de animais. Uma delas, por exemplo, foi apelidada de gansa, outra de boi… Começava ali, ao não considerar essas pessoas como gente. Passa também pelo pensamento de achar que essas pessoas, por serem tidas como loucas, não mereçam um tratamento digno, humanizado. Os psicofármacos também foram introduzidos no país na década de 1950; então tem tudo isso.
Todo o estigma da loucura, toda a falta de recursos da época, todas essas limitações levaram aos abusos sistemáticos. Agora, eu entendo que a segregação fazia parte da cultura da época e faz parte da cultura de hoje, mas o que eu nunca vou conseguir entender e jamais irei aceitar são os abusos que foram cometidos. Porque uma coisa é você segregar, é tirar essa pessoa do seu convívio social. Outra é maltratar, deixar passar fome, passar frio, é você violar a dignidade dessa pessoa de todas as formas. Para mim, isso é grave, é crime de lesão à humanidade em qualquer tempo.
Quanto a essa banalização do mal, eu entendo que as pessoas foram se desumanizando, foram deixando de ver, aquilo foi incorporado na rotina delas. “É assim mesmo, eu não consigo mudar e o que eu vou fazer?”. Elas passaram a cometer os mesmos equívocos de outras pessoas e, quando se viu, isso durou quase um século. Então se você pensar que a abertura dos porões da loucura começou na década de 1980, você vai ver que durante oito décadas isso foi admissível. Como? Isso nos leva a parar, olhar para trás e refletir sobre o quanto a indiferença provoca barbárie. A indiferença é você ignorar o que se passa, é fingir que não vê. É essa indiferença que contribui para a existência de barbáries como a do Colônia.
IHU On-Line – Você tem planos para outras publicações?
Daniela Arbex - Tenho. Estou iniciando as entrevistas para um próximo livro que já está sendo preparado. Não vai ser sobre esse tema, mas também trata de uma história encoberta no país. É um livro que fala sobre o funcionamento de instituições, de acolhimento de forma irregular, mas não é sobre a loucura. Não especificamente, porque é sobre outras loucuras que o ser humano faz e comete.
(Por Andriolli Costa e Ricardo Machado)
(EcoDebate, 28/01/2014) publicado pela IHU On-line, parceira estratégica do EcoDebate na socialização da informação.
[IHU On-line é publicada pelo Instituto Humanitas Unisinos - IHU, da Universidade do Vale do Rio dos Sinos – Unisinos, em São Leopoldo, RS.]

segunda-feira, 25 de novembro de 2013

Perfeito e Imperfeito

Neste dia de sua vida acredito que Deus quer que você saiba que existe algo “errado” em tudo.

Não importa o que você olhe, você encontrará algo errado nisso, algo imperfeito, algo que não está de acordo com você. Não se preocupe, se olhar bem de perto você irá encontrá-lo.

Há algo “certo” em tudo. Não importa o que você olhe, poderá encontrar algo certo nisso, algo perfeito.

Então, permanece uma questão: O que está procurando ver? O que você escolheu perceber? Qual a sua perspectiva? (Aposto que você já sabe que a perspectiva de Deus é...).


terça-feira, 29 de outubro de 2013

MPF/MG questiona Kinross sobre impactos resultantes da produção de ouro em Paracatu

 

Foto: Mina da Kinross Brasil Mineração SA, em Paracatu, MG. Foto Flickr / SkyTruth
Foto: Mina da Kinross Brasil Mineração SA, em Paracatu, MG. Foto Flickr / SkyTruth

Um dos objetivos é saber se a incidência de câncer no município estaria de fato relacionada com a liberação de substâncias tóxicas durante o processo de mineração

O Ministério Público Federal em Minas Gerais (MPF/MG) encaminhou à Kinross Brasil Mineração SA diversos questionamentos acerca do processo de extração de ouro e prata em seu complexo minerário instalado no município de Paracatu e das consequências para o meio ambiente e para a saúde da população da cidade. No total, mais de 37 quesitos – todos eles desdobrados em vários questionamentos – foram encaminhados à mineradora.
Em vistoria realizada nos dias 02 e 03 de outubro na mina e nas demais instalações da Kinross, o procurador da República José Ricardo Teixeira Alves e técnicos do MPF/MG detectaram que um dos problemas ambientais resultantes do processo de produção de ouro da mineradora é o uso de cianeto, substância que, segundo informações da própria empresa, é altamente perigosa. O cianeto, em contato com determinados ácidos, libera um gás tóxico que, se ingerido ou inalado, pode ser fatal.
De acordo com os peritos do MPF/MG, um dos critérios do Código Internacional de Gestão de Cianetos, do qual a empresa é participante, é não permitir que os níveis de cianetos dissociáveis por ácidos que saem da unidade de processamento para a área de armazenamento de rejeitos seja superior a 50 partes por milhão. “É preciso saber então de que maneira a empresa está destruindo o cianeto utilizado no processo de produção”, afirma o procurador José Ricardo Teixeira Alves.
Ele conta que, durante a vistoria, técnicos da empresa informaram que a solução contendo cianeto, que não é totalmente destruída após o processo de produção, vem sendo armazenada nas barragens de rejeitos, que são revestidas com lona PEAD e argila férrica, um material que encurta o tempo de vida da barragem e ocasiona pressão elevada sobre o solo ou maciço.
“A nossa preocupação é que, ao longo dos anos, essas barragens possam romper, e o vazamento do material tóxico contido nos tanques possa atingir o lençol freático através da percolação nas trincas e nas fraturas das rochas que se encontram abaixo da camada impermeável”, explica o procurador da República.
Por isso, a empresa deverá informar ao MPF/MG a quantidade de rejeitos e de material estéril produzida anualmente, o processo de descarte da água gerada no rejeito do beneficiamento e da hidrometalurgia, além de esclarecer quantas análises mensais, das águas superficiais e subterrâneas situadas na área de influência do empreendimento, são efetuadas, por quais parâmetros e quais os resultados obtidos até o momento.
Contaminação por metais pesados – Outro problema ambiental gerado pela produção de ouro da mineradora é a liberação de enorme quantidade de arsênio e de outros materiais tóxicos.
Para o MPF/MG, o risco de essas substâncias contaminarem águas superficiais, como as águas de chuvas, por exemplo, e essas atingirem os córregos, brejos, cisternas e poços tubulares no entorno da mina, não pode ser ignorado.
Em 2012, pesquisadores do Laboratório Labiotec, de Uberlândia/MG, constataram a contaminação de um brejo abaixo da barragem e de uma cisterna na região do ribeirão Santa Rita por materiais pesados provenientes das águas da barragem de rejeitos da Kinross. A situação foi considerada extremamente grave, pois a contaminação por metais pesados provoca, entre outros, cegueira, destruição do sistema imunológico e do sistema nervoso central.
Na mesma linha, a investigação pretende detectar se realmente houve aumento da incidência de câncer na região e, em caso positivo, se haveria influência da mineração.
Estudos apontam para um alto número de pacientes com câncer em Paracatu, fora do padrão para cidades de mesmo porte [cerca de 90 mil habitantes]. Em novembro do ano passado, noticiou-se que mais de 400 paracatuenses encontravam-se em tratamento no Hospital do Câncer, em Barretos/SP, e, segundo os médicos, esse número vem aumentando.
O procurador da República diz que “é preciso investigar se essa incidência está condizente com a realidade ou se ela realmente discrepa do padrão, além das reais causas para o número de pacientes portadores de câncer, ou de outras doenças, resultantes ou não da contaminação por substâncias utilizadas ou geradas durante ou no final do processo de produção do ouro”.
Rios secando – “Há notícias ainda sobre a ocorrência de outros danos ambientais, como fontes de água – lagoas, açudes e poços artesianos – que estão secando”, lembra o procurador. “Esses relatos são preocupantes, porque é preciso saber se as frentes de lavra podem vir, no futuro, a afetar o abastecimento de água da cidade de Paracatu, que está situada a montante da mineração”.
Por sinal, uma das principais frentes de lavra da Kinross, instalada a cerca de 60 metros abaixo do nível do córrego Rico, provocou a diminuição na vazão desse córrego devido ao rebaixamento do lençol freático. “Nesse caso, a dúvida é se as nascentes serão totalmente bloqueadas pela lavra, com toda a água do córrego Rico sendo usada pelo empreendimento, ou se a empresa está tomando providências para normalizar a vazão de um curso d’água importante para a região”, afirma José Ricardo.
O complexo minerário da Kinross, localizado próximo à zona urbana, tem avançado em direção a alguns bairros de Paracatu, com notícias de demolição de casas, ruas com rede de água e luz e até de equipamentos públicos, para ampliação da lavra.
Por isso, segundo o MPF/MG, é preciso ter acesso a informações que comprovem o alcance efetivo do projeto, bem como analisar detidamente o próprio processo de licenciamento ambiental para saber se todos esses efeitos foram previstos, quais foram as medidas compensatórias planejadas e se elas vêm sendo cumpridas pela mineradora.
A Kinross Gold Corporation, que incorporou a antiga Rio Paracatu Mineração, é uma empresa global com sede no Canadá. A expansão da mina, situada a dois quilômetros ao norte da cidade de Paracatu, é um megaempreendimento que triplicou a produção anual de ouro da empresa.
Fonte: Ministério Público Federal em Minas Gerais

Tags: mineração, MP, saúde
 10
 0
 
 8
EcoDebate, 29/10/2013

sexta-feira, 11 de outubro de 2013

Mudanças climáticas radicais estão prestes a ocorrer, diz o estudo ‘The projected timing of climate departure from recent variability’

É o que diz o estudo ‘The projected timing of climate departure from recent variability’

A evolução da temperatura futura no cenário de maiores emissões (vermelho) e num cenário em que se consegue implantar com sucesso medidas de mitigação (azul) – o “mundo 4 graus mais quente” e o “mundo 2 graus mais quente”

A evolução da temperatura futura no cenário de maiores emissões (vermelho) e num cenário em que se consegue implantar com sucesso medidas de mitigação (azul) – o “mundo 4 graus mais quente” e o “mundo 2 graus mais quente”.
A Terra pode experimentar um clima radicalmente diferente no prazo de 34 anos, mudando para sempre a vida como conhecemos e os trópicos devem ser afetados primeiro e de forma mais intensa, alerta um estudo [The projected timing of climate departure from recent variability] publicado esta quarta-feira, que visa reforçar os riscos do aquecimento global. Matéria daAFP, no Yahoo Notícias, com informações adicionais do EcoDebate.
Com as tendências atuais de emissões de gases de efeito estufa, 2047 será o ano em que o clima na maior parte das regiões da Terra mudará para além dos extremos documentados, destacou o estudo.
Este prazo se estenderá a 2069 em um cenário em que as emissões derivadas da queima de combustíveis fósseis se estabilizarão, destacou uma análise de projeções climáticas publicada na revista Nature.
“Os resultados nos chocaram”, afirmou a respeito das descobertas o principal autor do estudo, Camilo Mora, do departamento de geografia da Universidade do Havaí.
“Ao longo da minha geração, qualquer clima com o qual estejamos acostumados será coisa do passado”, acrescentou.
A maioria dos estudos climáticos prevê mudanças médias globais a partir de uma data aleatória, como 2100.
O novo estudo seguiu um curso diferente, ao distinguir entre diferentes regiões do planeta e tentar identificar o ano em que o clima cruzará o limite em que os eventos climáticos considerados extremos serão a norma.
Entre os efeitos analisados estão a temperatura superficial de ar e mar, padrão de chuva e acidez dos oceanos.
“Independentemente do cenário, as mudanças vão acontecer logo”, advertiu Mora, destacando que isto forçará as espécies a se adaptar ou mudar para não morrer.
“O trabalho demonstra que estamos empurrando os ecossistemas do planeta para fora do ambiente em que evoluíram e para dentro de condições totalmente novas que eles podem não conseguir suportar. As extinções são o resultado provável”, comentou Ken Caldeira, do departamento de ecologia global do Instituto Carnegie de Ciência.
Segundo o estudo, os trópicos serão afetados mais rápido e de forma mais intensa. Plantas e animais tropicais não estão habituados a variações no clima e por isso são mais vulneráveis mesmo às menores alterações.
“Os trópicos sustentam a maior diversidade do mundo em espécies marinhas e terrestres e experimentarão climas sem precedentes dez anos antes do que qualquer outra (região) da Terra”, destacou um comunicado.
Essas regiões também abrigam a maior parte da população mundial e contribuem significativamente para o abastecimento alimentar global.
“Em países predominantemente desenvolvidos, cerca de um bilhão de pessoas em um cenário otimista e cinco bilhões em um cenário ‘business-as-usual’ (n.r: mantidas as mesmas condições) vivem em regiões que irão experimentar climas extremos antes de 2050″, disse o co-autor do estudo, Ryan Longman.
“Isso faz aumentar a preocupação com mudanças no abastecimento de água e comida, saúde humana, a disseminação mais extensa de doenças infecciosas, estresse causado pelo calor, conflitos e desafios para as economias”, alertou.
“Nossos resultados sugerem que os países que serão impactados primeiro por climas sem precedentes serão aqueles com menos capacidade de responder”, prosseguiu.
Segundo um cenário de emissões ‘business-as-usual’, os cientistas previram que as datas da “partida climática” seriam por volta de 2020 em Manokwari (Indonésia), 2029 em Lagos (Nigéria), 2031 na Cidade do México, 2066 em Reykjavik (Islândia) e 2071 em Anchorage (Alasca).
Os estudiosos denominaram de “partida climática” o ponto em que eventos extremos mensurados durante os últimos 150 anos – período durante o qual dados climáticos são considerados confiáveis – se tornam a norma.
“Se a avaliação estiver correta, atenção conservacionistas: a corrida das mudanças climáticas não só começou, mas está definida, com a linha de chegada da extinção se aproximando mais dos trópicos”, escreveu Eric Post, do departamento de biologia da Universidade do Estado da Pensilvânia, em um comentário sobre as descobertas.
O ano 2047 foi estabelecido em um cenário ‘business-as-usual’, segundo o qual os níveis de dióxido de carbono (CO2) atmosférico continuarão constantes.
Atualmente, estes níveis estão abaixo das 400 partes por milhão (ppm), mas podem alcançar 936 ppm em 2100, o que significaria uma elevação média na temperatura ao longo deste século de 3,7 graus Celsius.
O ano 2067 se baseia em um cenário de redução de emissões, que alcançaria as 538 ppm em 2100, provocando um aquecimento neste século de cerca de 1,8º C.
Mais 0,7º C precisa ser adicionado às temperaturas para incluir um aquecimento que aconteceu do início da Revolução Industrial até o ano 2000.
As Nações Unidas estabeleceram como meta limitar o aquecimento global a 2º C em comparação com níveis pré-industriais para evitar efeitos catastróficos decorrentes das mudanças climáticas.
Artigo:
The projected timing of climate departure from recent variability
Nature 502, 183–187 (10 October 2013) doi:10.1038/nature12540
http://www.nature.com/nature/journal/v502/n7470/full/nature12540.html
Referências:
  1. Reilly, J. & Schimmelpfennig, D. Irreversibility, Uncertainty, and Learning: Portraits of Adaptation to Long-term Climate Change (Springer, 2000)
  2. Alley, R. B. et al. Abrupt climate change. Science 299, 2005–2010 (2003)
  3. Williams, J. W. & Jackson, S. T. Novel climates, no-analog communities and ecological surprises. Front. Ecol. Environ 5, 475–482 (2007)
  4. Peterson, A. T., Soberon, J., Pearson, R. G. & Martinez-Meyer, E. Ecological Niches and Geographic Distributions (Monographs in Population Biology Vol. 49) (Princeton Univ. Press, 2011)
  5. Doney, S. C. et al. Climate change impacts on marine ecosystems. Annu. Rev. Mar. Sci. 4, 11–37 (2012)
  6. Parmesan, C. & Yohe, G. A globally coherent fingerprint of climate change impacts across natural systems. Nature 421, 37–42 (2003)
  7. Chen, I.-C., Hill, J. K., Ohlemüller, R., Roy, D. B. & Thomas, C. D. Rapid range shifts of species associated with high levels of climate warming. Science 333, 1024–1026 (2011)
  8. Parmesan, C. Ecological and evolutionary responses to recent climate change. Annu. Rev. Ecol. Evol. Syst. 37, 637–669 (2006)
  9. Thomas, C. D., Franco, A. M. A. & Hill, J. K. Range retractions and extinction in the face of climate warming. Trends Ecol. Evol. 21, 415–416 (2006)
  10. Crowley, T. J. & North, G. R. Abrupt climate change and extinction events in Earth history. Science 240, 996–1002 (1988)
  11. Mora, C. & Zapata, F. A. in The Balance of Nature and Human Impact (ed. K. Rohde) 239–257 (Cambridge Univ. Press, 2013)
  12. Berg, M. P. et al. Adapt or disperse: understanding species persistence in a changing world. Glob. Change Biol. 16, 587–598 (2010)
  13. Lobell, D. B. & Gourdji, S. M. The influence of climate change on global crop productivity. Plant Physiol. 160, 1686–1697 (2012)
  14. Zhang, X. & Cai, X. Climate change impacts on global agricultural water deficit. Geophys. Res. Lett. 40, 1111–1117 (2013)
  15. Taylor, R. G. et al. Ground water and climate change. Nature Clim. Change 3, 322–329 (2013)
  16. Patz, J. A. & Olson, S. H. Climate change and health: global to local influences on disease risk. Ann. Trop. Med. Parasitol. 100, 535–549 (2006)
  17. Epstein, P. R. Climate change and infectious disease: stormy weather ahead? Epidemiology 13, 373–375 (2002)
  18. Khasnis, A. A. & Nettleman, M. D. Global warming and infectious disease. Arch. Med. Res. 36, 689–696 (2005)
  19. Sherwood, S. C. & Huber, M. An adaptability limit to climate change due to heat stress. Proc. Natl Acad. Sci. USA 107, 9552–9555 (2010)
  20. Berry, H., Bowen, K. & Kjellstrom, T. Climate change and mental health: a causal pathways framework. Int. J. Public Health 55, 123–132 (2010)
  21. Díaz, S., Fargione, J., Chapin, F. S. & Tilman, D. Biodiversity loss threatens human well-being. PLoS Biol. 4, e277 (2006)
  22. Tol, R. S. Estimates of the damage costs of climate change. Part 1. Benchmark estimates. Environ. Resour. Econ. 21, 47–73 (2002)
  23. Kloor, K. The war against warming. Nature Rep. Clim. Change 3, 145–146,http://dx.doi.org/10.1038/climate.2009.120 (2009)
  24. Williams, J. W., Jackson, S. T. & Kutzbach, J. E. Projected distributions of novel and disappearing climates by 2100 AD. Proc. Natl Acad. Sci. USA 104, 5738–5742 (2007)
  25. Solomon, S. et al. (eds). Climate Change: The Physical Science Basis. Summary for Policymakers (Cambridge Univ. Press, 2007)
  26. Taylor, K. E., Stouffer, R. J. & Meehl, G. A. An overview of CMIP5 and the experiment design. Bull. Am. Meteorol. Soc. 93, 485–498 (2012)
  27. Vuuren, D. P. et al. The representative concentration pathways: an overview. Clim. Change 109, 5–31 (2011)
  28. Meinshausen, M. et al. The RCP greenhouse gas concentrations and their extensions from 1765 to 2300. Clim. Change 109, 213–241 (2011)
  29. van Vliet, J., den Elzen, M. G. & van Vuuren, D. P. Meeting radiative forcing targets under delayed participation. Energy Econ. 31, S152–S162 (2009)
  30. Raven, J. A. et al. (eds). Ocean Acidification due to Increasing Atmospheric Carbon Dioxide(Royal Society, 2005)
  31. Zeebe, R. E., Zachos, J. C., Caldeira, K. & Tyrrell, T. Carbon emissions and acidification. Science 321, 51–52 (2008)
  32. Rockstrom, J. et al. A safe operating space for humanity. Nature 461, 472–475 (2009)
  33. Gaston, K. J. Global patterns in biodiversity. Nature 405, 220–227 (2000)
  34. Deutsch, C. A. et al. Impacts of climate warming on terrestrial ectotherms across latitude. Proc. Natl Acad. Sci. USA 105, 6668–6672 (2008)
  35. Colwell, R. K., Brehm, G., Cardelús, C. L., Gilman, A. C. & Longino, J. T. Global warming, elevational range shifts, and lowland biotic attrition in the wet tropics. Science 322, 258–261 (2008)
  36. Hoegh-Guldberg, O. Climate change, coral bleaching and the future of the world’s coral reefs. Mar. Freshw. Res. 50, 839–866 (1999)
  37. Baker, A. C., Glynn, P. W. & Riegl, B. Climate change and coral reef bleaching: An ecological assessment of long-term impacts, recovery trends and future outlook. Estuar. Coast. Shelf Sci. 80, 435–471 (2008)
  38. Tittensor, D. P. et al. Global patterns and predictors of marine biodiversity across taxa. Nature 466, 1098–1101 (2010)
  39. Chown, S. L., Gaston, K. J. & Williams, P. H. Global patterns in species richness of pelagic seabirds: the Procellariiformes. Ecography 21, 342–350 (1998)
  40. La Sorte, F. A. & Jetz, W. Tracking of climatic niche boundaries under recent climate change. J. Anim. Ecol. 81, 914–925 (2012)
  41. Sorte, C. J. B. Predicting persistence in a changing climate: flow direction and limitations to redistribution. Oikos 122, 161–170 (2013)
  42. Devictor, V. et al. Differences in the climatic debts of birds and butterflies at a continental scale. Nature Clim. Change 2, 121–124 (2012)
  43. Zhu, K., Woodall, C. W. & Clark, J. S. Failure to migrate: lack of tree range expansion in response to climate change. Glob. Change Biol. 18, 1042–1052 (2012)
  44. Angert, A. L. et al. Do species’ traits predict recent shifts at expanding range edges? Ecol. Lett. 14, 677–689 (2011)
  45. Baird, A. & Maynard, J. A. Coral adaptation in the face of climate change. Science 320, 315–316 (2008)
  46. Pandolfi, J. M., Connolly, S. R., Marshall, D. J. & Cohen, A. L. Projecting coral reef futures under global warming and ocean acidification. Science 333, 418–422 (2011)
  47. Allen, C. D. et al. A global overview of drought and heat-induced tree mortality reveals emerging climate change risks for forests. For. Ecol. Manage. 259, 660–684 (2010)
  48. Carey, C. & Alexander, M. A. Climate change and amphibian declines: is there a link? Divers. Distrib. 9, 111–121 (2003)
  49. McKechnie, A. E. & Wolf, B. O. Climate change increases the likelihood of catastrophic avian mortality events during extreme heat waves. Biol. Lett. 6, 253–256 (2010)
  50. Mora, C. & Sale, P. Ongoing global biodiversity loss and the need to move beyond protected areas: a review of the technical and practical shortcomings of protected areas on land and sea. Mar. Ecol. Prog. Ser. 434, 251–266 (2011)
  51. Kier, G. et al. A global assessment of endemism and species richness across island and mainland regions. Proc. Natl Acad. Sci. USA 106, 9322–9327 (2009)
EcoDebate, 11/10/2013
Publicado em outubro 11, 2013 por 
 18
 5

 4

Trecho do discurso de José Mujica na ONU

Presidente do Uruguai, José Mujica

Parece que nascemos apenas para consumir e consumir e, quando não podemos, nos enchemos de frustração, pobreza e até autoexclusão. O certo, hoje, é que, para gastar e enterrar os detritos nisso que a ciência chama de poeira de carbono, se aspirarmos nesta humanidade a consumir como um americano médio, seriam imprescindíveis três planetas para poder viver.

Nossa civilização montou um desafio mentiroso e, assim como vamos, não é possível satisfazer esse sentido de esbanjamento que se deu à vida. Isso se massifica como uma cultura de nossa época, sempre dirigida pela acumulação e pelo mercado.

Prometemos uma vida de esbanjamento, e, no fundo, constitui uma conta regressiva contra a natureza, contra a humanidade no futuro. Civilização contra a simplicidade, contra a sobriedade, contra todos os ciclos naturais.

O pior: civilização contra a liberdade que supõe ter tempo para viver as relações humanas, as únicas que transcendem: o amor, a amizade, aventura, solidariedade, família.
Civilização contra tempo livre que não é pago, que não se pode comprar, e que nos permite contemplar e esquadrinhar o cenário da natureza.


Arrasamos a selva, as selvas verdadeiras, e implantamos selvas anônimas de cimento. Enfrentamos o sedentarismo com esteiras, a insônia com comprimidos, a solidão com eletrônicos, porque somos felizes longe da convivência humana.