Blog do Professor Márcio

Seja bem vindo. Gosto de compartilhar ideias e sua visita é uma contribuição para isto. Volte sempre!

quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

APARECIDA

Muitas vezes acontece de fracassarmos na realização de objetivos imediatos e, nessa busca, os acontecimentos nos levam a caminhos inusitados, como se houvesse um roteiro preparado para que o trilhássemos. Esta é uma idéia que me acorre quando penso na história dos pescadores Domingos Garcia, Filipe Pedroso e João Alves, que num dia de outubro de 1717 lançavam sua rede de pesca no Rio Paraíba do Sul. Muitas tentativas e nenhum peixe, a pescaria era um fracasso. Mas, eis que João Alves lançou a rede e nas suas malhas veio presa uma pequena imagem, um corpo sem a cabeça. Lançada novamente, a rede apanhou a cabeça da imagem, identificada como Nossa Senhora da Conceição. O relato histórico assinala que, daí em diante, a pesca foi abundante, mas isto não importa, porque o que eles realmente pescaram transcendeu para muito além dos seus objetivos.

É provável que aquela imagem tenha sido descartada por alguém, justamente porque ela havia se partido, assim como fazemos com os objetos que a nosso juízo perderam o seu valor.
Porém, os humildes pescadores não identificaram um objeto rejeitado, mas um sinal divino e a manifestação de um milagre. Naquele momento, eles poderiam tê-lo devolvido às águas, mas as suas mãos o seguraram com a força da fé: ali estava a imagem da mãe de Jesus, com todo o poder espiritual que ela simboliza para os crentes, que se entregava partida, como se pedisse proteção e carinho! (Ao lado, uma foto da imagem, feita em 1924.)

Eis a manifestação do poder da fé: justamente na hora em que parece estarmos fracassando em nossos objetivos é quando mais dele precisamos, justamente para descobrir o significado transcendental de nossas vidas, perceber, enxergar além dos objetivos imediatos que nos toldam a visão.

A história que se passou depois é, de maneira geral, conhecida do povo brasileiro: relatos de milagre, de devoção e do carinho especial que sentimos por esta santa brasileira. Sim, é como se a mãe de Jesus tivesse renascido em nossas águas, cidadã brasileira, e assumido a proteção do Brasil. De tal modo se tornou brasileira que adquiriu uma cor morena, acanelada, resultado da picumã de velas e candeeiros dos devotos que oravam a seus pés. E existe também a história que poucos conhecem: a imagem simples foi coroada de ouro pela Princesa Isabel, vestida com um manto luxuoso com o advento da República e destruída por um fanático de uma seita religiosa hostil, em 1978. O que se tem hoje é resultado de um trabalho de recuperação de uma artista plástica.

Há muito tempo eu desejava conhecer o Santuário de Aparecida, não porque acho importante estar diante de uma imagem, mas para estar presente naquele local de peregrinação, que fascina e atrai tanta gente em busca de esperança e consolo. Um lugar assim não é um lugar qualquer! Então, como brasileiro, cristão, no dizer do compositor Renato Teixeira, “como não sei rezar, só queria mostrar meu olhar, meu olhar, meu olhar”.

A imponência da Basílica realmente impressiona, com sua torre de 100 m e uma cúpula de 70 m de altura. Se considerarmos que ela comporta 75 mil pessoas (às vezes este número é superado!), a altura não é exagerada, porque o calor produzido pela multidão leva algumas pessoas ao desmaio.

Visitei o Santuário de Aparecida neste Natal, junto com minha filha Helga e o Juan, seu marido, porque sabia que seria uma visita tranquila.
É um espaço bonito, mas despojado; não há luxos ou ostentações, tudo muito simples, sóbrio e moderno. Mas o que interessa a todo visitante é exatamente estar de frente à imagem que inflama o imaginário e a fé dos brasileiros. Percorri as quatro naves que formam o corpo da Basílica, dispostas como uma cruz grega em torno da cúpula central. Um enorme crucifixo pende no ar, no centro exato da estrutura, sustentado por cabos presos na cúpula. De maneira diferente do comum das igrejas católicas, não há imagens de santos ao longo das paredes. Por fim, meu olhar foi atraído por um pequeno círculo dourado ao fundo e, somente quando estava bem próximo, pude perceber que se tratava da imagem de N. S. Aparecida, colocada em um pavimento superior.

O contraste entre a Basílica e a imagem de devoção é enorme: enquanto a cúpula se ergue a 70 m, a imagem tem apenas 40 cm de altura. Colocada em um nicho na parede, protegido por vidro especial, é o contraste entre o minúsculo e o colossal.
Nos poucos minutos em que lá estive, à parte meu agradecimento e pedido de proteção, passou no meu pensamento o significado e a importância da mãe de Jesus para a cristandade. Uma mulher humilde que soube cumprir a enorme responsabilidade a ela destinada e que passou por uma terrível prova e um sofrimento indescritível: ver seu filho torturado e morto de maneira ignominiosa e ainda assim bendizer a Deus. Um espírito iluminado, que compreende nossas dores, mesmo que sejam incomparavelmente menores do que aquelas que suportou neste mundo. Nas minhas conjecturas há um simbolismo nisto tudo: a imagem colocada ao fundo, seu tamanho minúsculo, sua cor morena, seu resgate das águas, sua sobrevivência ao atentado e a serena humildade que dela irradia.

Nossa Senhora Aparecida é mesmo uma Santa Brasileira!

(Por uma Graça alcançada, Nossa Senhora, Mãe de Jesus, aceita o meu preito de gratidão!)

Marcadores: aparecida; espiritualidade; nossa senhora; religião; santuário; .

sábado, 19 de dezembro de 2009

Viver bem

A coisa mais fácil do mundo é encontrar diferenças. Difícil é harmonizá-las.
É indispensável fazer com que cada dia de nossa vida tenha um sentido. E que nosso trabalho tenha um propósito dignificante para cada um de nós. É sempre possível mudar. Mas vencer emoções e pensamentos negativos requer disciplina e tempo. Comece agora.

Dalai Lama

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

A Busca da Felicidade - O Caminho do Meio (4ª Parte)

"
Tudo o que somos é resultado do que temos pensado (criação mental). Se um homem fala ou age com uma mente impura, o sofrimento acompanha-o tão perto como a roda segue a pata do boi que puxa o carro.
Se o homem fala ou age com a mente pura, a felicidade o acompanha como sua sombra inseparável." (Dhammapada 1-2.)


Iniciamos nosso estudo com a constatação da existência do sofrimento e da insatisfação devido à desarmonia entre o eu pessoal condicionado e o mundo real não-condicionado, encontramos sua causa no desejo ou ambição e vimos que é possível promover a cessação do sofrimento e da insatisfatoriedade pela erradicação do desejo. Mas, qual o caminho, qual o método para conseguir este objetivo?

Tendo experimentado os extremos do prazer e do sofrimento físicos e reconhecendo a inutilidade deles, Buda descobriu por experiência própria o Caminho do Meio que condensa o espírito da moral budista, conhecido como Caminho Óctuplo. São oito atitudes que devem ser seguidas no dia-a-dia, instrumentos práticos para uma vida equilibrada, poderosas forças morais e mentais, e não há nelas nada de místico. A finalidade destes oito fatores é facilitar o aperfeiçoamento dos três elementos essenciais no treinamento da disciplina budista, que são: Conduta ética: Moralidade; Disciplina mental: Concentração e Meditação e Introspecção: Sabedoria.

A “Conduta Ética: Moralidade” é baseada na ampla concepção de amor universal e compaixão para com todos os seres; não somente os humanos, mas todos os seres vivos. Para desenvolvê-la são necessárias três atitudes: Palavra Correta, Ação Correta e Meio de Vida Correto.

1°) PALAVRA CORRETA, ou linguagem pura, é a que traduz honestidade, verdade, paz, carinho; que é cortês, agradável, benéfica, útil, moderada e sensível. Você deve apenas falar a verdade e fomentar conversas que causem harmonia e progresso. Deve conversar produtivamente, usando palavras leves, elogiosas e construtivas. Significa abstenção das mentiras, difamação, calúnia e de todas as palavras capazes de provocar ódio, inimizade, desunião e desarmonia entre indivíduos ou grupos sociais. A palavra correta é dirigida pelo pensamento correto e ação correta.

"Melhor que mil palavras sem sentido, é uma só palavra sensata, capaz de trazer paz àquele que a ouve." (Dhammapada 100.)

2.°) AÇÃO CORRETA, ou conduta pura, tem por fim cultivar uma conduta moral honrada e pacífica e ajudar os outros na mesma finalidade. Suas ações devem preservar os seres vivos - homens, animais e vegetais. Você deve pegar apenas aquilo que lhe pertence. Deve ser fiel ao companheiro amoroso. Deve ingerir apenas alimentos e bebidas que façam bem à sua saúde e não fazer uso de tóxicos que perturbam a mente, ou fazem perder a consciência. A ação correta é dirigida pelo pensamento correto.

3.°) MEIO DE VIDA CORRETO, ou meios de existência puros, conduzem o indivíduo à aquisição do bem-estar material e espiritual próprio, ajudando os demais na mesma finalidade. Significa que se deverá evitar ganhar a vida numa profissão ou ocupação que possa ser nociva a outros seres vivos, sejam homens ou animais. O meio de vida correto é dirigido pelo pensamento correto.

Quaisquer sistemas de moral e ética estão enquadrados nesses três aspectos: palavra correta, ação correta e meio de vida correto. Sem esses três fatores, nenhum desenvolvimento espiritual será possível.

A “Disciplina Mental: Concentração” compreende os três seguintes fatores do Caminho Óctuplo: Esforço Correto, Plena Atenção ou Vigilância Correta e Concentração Correta, por meio dos quais se alcança o desenvolvimento mental e a visão interior (intuitiva).

4.°) ESFORÇO CORRETO, ou aplicação pura, é a arma que possuímos para enfrentar corretamente a luta contra o mal. Consta do seguinte: esforço de evitar e destruir os pensamentos negativos já existentes; enérgica vontade de impedir o aparecimento de pensamentos maus e nocivos; fazer surgir pensamentos bons e sadios ainda não existentes e cultivá-los até à perfeição.

5.°) PLENA ATENÇÃO CORRETA, ou Vigilância Correta, consiste numa atenção vigilante com tomada de consciência nas atividades do corpo, nas sensações, nos diferentes estados da mente (nas idéias, pensamentos, etc.), e na investigação da Doutrina (Verdade sobre o nosso ser). A Plena Atenção mental correta é a vigia da mente, que está sempre observando, porque a mente, por si só, vagueia a todo instante.

6.°) CONCENTRAÇÃO CORRETA é a condição indispensável para todo e qualquer desenvolvimento espiritual. Nossa mente está constantemente dispersa; quando concentrada num objetivo único, ela se torna poderosa e com isso desenvolve a sabedoria interior. Desenvolver a concentração requer que você abra mão do desejo passional e egoísta pelos prazeres sensual e material. Que cultive a alegria, a tranquilidade e o amor. Que se mantenha ativo, disposto, relaxado e despreocupado, certo do seu objetivo de vida.

A “Introspecção: Sabedoria” consta dos dois fatores restantes: o Pensamento Correto e a Correta Compreensão.

7.°) PENSAMENTO CORRETO, ou pensamento puro, é o correto pensar com sabedoria, com equanimidade e contemplação. Ele vem das ações meritórias e deve ser mantido em nossa mente o máximo de tempo possível. É o pensamento dirigido no sentido da renúncia, do desapego, da compaixão, do amor universal, da não-violência, estendendo-se a todos os seres vivos. Desenvolvendo estas qualidades, eliminamos todo pensamento egoísta de apego, má vontade, ódio, violência ou crueldade, seja de ordem individual, social ou política, que é fruto da ignorância. O pensamento correto não aparece quando existem pensamentos ligados aos apegos dos sentidos.

8.°) CORRETA COMPREENSÃO é a compreensão que, pela contemplação pura, permite reconhecer e penetrar na realidade da existência da insatisfação universal, criada pela desarmonia entre os seres e o mundo exterior. A compreensão verdadeiramente profunda consiste em ver uma coisa em sua verdadeira natureza, sem nome ou rótulo. Esta "penetração" só é possível quando a mente está livre de toda impureza e quando completamente desenvolvida na prática da meditação.

Como se viu, aqui foi apresentado um modo de vida que pode ser seguido, praticado e desenvolvido por qualquer indivíduo, através da disciplina do corpo, da palavra e da mente. Isto nada tem a ver com crenças, orações, adorações, ou cerimônias. Neste sentido, o Caminho do Meio não é uma religião; é um caminho que conduz à compreensão da realidade, à liberdade, à felicidade e à paz, mediante a perfeição moral, intelectual e espiritual.

Durante quarenta e cinco anos o Buda repetiu: "O meu ensinamento é sobre o sofrimento e sua transformação".

A semente do sofrimento dentro de você pode ser muito forte, mas não espere o sofrimento terminar para permitir-se ser feliz. Somos resultado daquilo que pensamos, por isso é perigoso manter pensamentos negativos. Nossas atitudes positivas quase sempre são seguidas por outras negativas: após o “sim”, nossa mente expressa o “mas”, duvidando de nossa capacidade de realização.

Seguindo o Caminho do Meio, adquirimos confiança e poder, tomando decisões equilibradas e firmes. A decisão firme elimina a negatividade automaticamente e transforma a escuridão em luz. Por isso, escutar os ensinamentos de um Mestre é tão precioso, porque expressa nossa decisão de aprender e de querer mudar.

Concluímos aqui mais uma etapa de nossa "Busca da Felicidade", compreendendo o aspecto impermanente de todas as coisas, a causa do sofrimento e o modo de extinguí-lo. Para finalizar nossa busca, citaremos uma frase de Buda que poderia resumir aquilo que aprendemos:

- Os dons são grandes; as meditações e exercícios religiosos pacificam a mente; a compreensão da grande verdade leva ao Nirvana; mas, maior que tudo é a gentileza amorosa.

Com certeza nos enriquecemos com os valiosos ensinamentos de Gautama Buda e estamos prontos para continuar nossa busca através dos ensinamentos de outro Grande Mestre: Jesus. Será nossa próxima postagem.

Os conceitos budistas aqui expressados foram extraídos de:

- SILVA, Georges da & HOMENKO, Rita. Budismo: Psicologia do Autoconhecimento. São Paulo: Ed. Pensamento, 1990.

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Inhotim

A gente passa anos preso ao nosso estreito mundo, trabalhando como se a vida tivesse que se resumir nisto, quando muito fazendo planos de passear nas férias em alguma praia poluída e superlotada. É, parece que isto é o máximo! Porém, de uns tempos para cá larguei esse sonho besta de mineiro e decidi conhecer o meu Estado natal e cada dia mais me surpreendo com a diversidade e a beleza do interior de Minas Gerais.

Acho que poucos dos meus leitores terão ouvido falar de Inhotim. Interessante, tem gente vindo do exterior para conhecer esse fabuloso local e nós, mineiros, o ignoramos.



Inhotim é um centro de arte contemporânea (vou chamá-lo de parque), idealizado por um empresário milionário – Bernardo Paz – há uns 25 anos. A instituição é privada, mas sem fins lucrativos. Fica a 3 km de Brumadinho e a cerca de 60 km de Belo Horizonte. Localiza-se numa região de mineração, mas tem a sua área rigorosamente cuidada sob o aspecto ecológico, com um projeto botânico-paisagístico sugerido por Roberto Burle Marx incrustado na mata nativa. Ali o meio ambiente convive em interação com a arte, e ambos formam uma base para o desenvolvimento de pesquisa, inovação científica e educação.




Desde que a mídia tem veiculado matérias sobre o lugar e sua arte, milhares de pessoas têm acorrido a Inhotim.

Pasme, no dia da minha visita jogaram Atlético e Cruzeiro, era véspera do Dia da Criança, mas lá deveria haver mais de 10 mil pessoas. Estimo isto pela quantidade de carros estacionados, embora o parque seja tão grande que parecia estar quase vazio.

Na entrada, a gente logo se impressiona com o acervo botânico, especialmente a variedade de palmeiras. Ali está uma das maiores coleções botânicas do mundo, misturando espécies nativas, espécies tropicais raras e uma reserva florestal que faz parte do bioma da Mata Atlântica. Entre as coleções botânicas, destacam-se as de Aráceas (antúrio, copo-de-leite, comigo-ninguém-pode etc.) e a de Orquídeas do tipo Vanda.

A entrada custa R$25,00 (terça e quinta), é gratuita na quarta-feira (exceto feriado), mas vale R$40,00 de sexta a domingo e também nos feriados. A meia-entrada é para crianças de 6 a 12 anos, idosos acima de 60 anos, estudantes identificados, professores das redes formais pública e privada de ensino identificados, É baratíssima! 

Para ter mais informações sobre visitas consulte http://www.inhotim.org.br/.

Alguém já chamou Inhotim de “um pedacinho do céu”, e não está longe daquilo que muitos imaginam o céu: um lugar prazeroso, que encanta os olhos e amaina o espírito. A recepção dos funcionários é primorosa, os banheiros são do tipo hotel cinco estrelas, existem boas lanchonetes, um restaurante internacional e, se você, precisar, eles lhe oferecem guarda-chuva e carrinho de bebê. Tudo é preparado para que você passe o dia admirando arte e paisagem, pássaros cantando, cisnes nos lagos e se refresque à sombra de frondosas árvores.

As obras de arte contemporânea estão espalhadas em luxuosos e amplos pavilhões, com indicação de cerca de 500 obras de mais de 100 artistas, brasileiros e estrangeiros, promovendo assim livre trânsito entre a arte produzida no Brasil e no exterior. Você não consegue ver todas em um dia. Nós, brasileiros, de modo geral não temos contato com a arte contemporânea, de maneira que elas precisam ser vistas sem pressa, ou você vai achar uma coisa simplesmente sem graça e sem sentido.


Caminhando entre as árvores, você também se deparará com obras expostas a céu aberto. A arte contemporânea não é um produto acabado, ela tenta de alguma maneira interagir com o observador. Dê uma de mineiro, puxe uma palha, coce a cabeça e fique imaginando o que é aquilo à sua frente, ou o que significa aquele bote virado de borco, pendurado no galho de uma árvore.

No momento, a arte que mais atrai visitantes é um furo de sonda de mais de 200 metros, no fundo do qual foram colocados microfones que captam as vibrações sonoras da Terra. Essas vibrações são amplificadas no ambiente e produzem um barulho parecido com aquele dos monges budistas repetindo os seus mantras. Para mim, que sou geólogo, foi como se eu tivesse ouvido a voz do planeta repetindo o seu interminável e poderoso mantra: cuiiiiidemdeeemiiin! Mas vou avisando, talvez você possa se decepcionar: antes de entrar nesse “templo da Terra”, cruzei com três rapazes e um deles dizia: - Nunca vi coisa mais sem graça!

Pois é, ainda não estamos preparados para a arte contemporânea. O conhecimento artístico apóia-se na sensibilidade. Ah, sensibilidade... nem todos nascem com ela; mas podemos desenvolvê-la através da educação. Enquanto vamos engolindo enlatados culturais aqui despejados pelo sistema capitalista, a sensibilidade permanece embotada, brutalizada.

Por isto mesmo Inhotim é importante, pelo seu trabalho sócio-educativo. Ali está a maior coleção de arte contemporânea do mundo e uma das paisagens mais belas do Brasil, simplesmente ali, na nossa Minas Gerais. Fiquei emocionado ao ver tantos pais levando os seus filhos, oferecendo como presente do Dia das Crianças um passeio cultural onde eles podem aprender e expandir seus horizontes.

Inhotim não é um lugar para uma visita solitária, vá com alguém ou com uma turma. Você desfrutará um momento mágico, maravilhoso.

domingo, 1 de novembro de 2009

Coragem

Medo e coragem são como duas faces da mesma moeda, uma não existe sem a outra.

Pessoas normais sempre têm medo, ele permeia a vida em todos os momentos. Enquanto houver ego, sempre haverá medo. Embora nem as pessoas, nem as situações representem, em si, medo, ele pode ser despertado no seu íntimo. Portanto, ele é resultado de uma percepção. Ao ser despertado, o medo contrai as energias do corpo, atraindo exatamente aquilo que tememos.

Observe os seus medos: medo de enfrentar pessoas que você considera superiores ou mais poderosas que você, medo de exprimir os seus sentimentos, de demonstrar emoções, de fracassar, de parecer tolo, de ficar sozinho, medo de errar... Quantas vezes você ficou paralisado, quando era preciso agir?

Por outro lado, não tente viver sem medo; com uma mente sã você não o conseguirá. Aja, sim, no sentido de modificar a sua relação com ele: enfrente-o! enfrente-o! Desta maneira, ele não vai dominá-lo e, quando surgir, você saberá como lidar com ele.

Desperte a coragem que jaz dentro de você. A coragem é ingrediente da fé, abre caminho para a ação. Mesmo que suas pernas tremam e sua garganta pareça sufocada, vá, vá, vá em frente! Treine, a vida lhe proporciona, a cada dia, oportunidades para enfrentar o medo. Se você recuar, ele irá subjugá-lo; se você o enfrentar, você irá dominá-lo; conhecendo-o, você sempre agirá com cautela.

Encha o seu peito e levante a sua cabeça. Agindo corajosamente, apesar do medo, sua vida florescerá e você poderá contemplar um mundo diferente, uma vida mais ampla, onde você terá maior poder. Esta é uma escolha que a Vida lhe oferece. Esta é a sua grande conquista!

Deus sempre estará ao seu lado em sua jornada, não importa qual seja a sua escolha.

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

A Busca da Felicidade - O Caminho do Meio (3ª Parte)

Nada do que foi será
De novo do jeito que já foi um dia
Tudo passa, tudo sempre passará
A vida vem em ondas como o mar
Num indo e vindo infinito
Tudo que se vê não é
Igual ao que a gente viu há um segundo
Tudo muda o tempo todo no mundo (...)


Os versos em epígrafe são do compositor Nelson Motta, os quais foram musicados por Lulu Santos na canção "Como uma onda". Coloquei-os aqui para mostrar como os conceitos budistas estão se disseminando e passam a fazer parte da nossa maneira de ver o mundo.

Sim, tudo passa! Até mesmo o mais cruel sofrimento. A Cessação do Sofrimento é a Terceira Nobre Verdade do Budismo, conseguida pela erradicação de todas as formas de desejo, levando ao Nirvana.

O Nirvana, que pode ser traduzido como “estar liberto”, é realizado pela completa renúncia: renúncia aos objetos exteriores e renúncia interna às ligações com o mundo exterior. É a aniquilação da ilusão do eu pessoal de separatividade, extinção dos apegos, afeições para consigo mesmo e sede de desejos que envolvem e suportam essa ilusão. Para destruir a ilusão é preciso eliminar o desejo e destruir o “ser”, que é impermanente, efêmero, nascido da ilusão.

SERMÃO DE BUDA SOBRE O QUE É O “SER”

"Esse desejo, essa sede, essa vontade, essa cobiça, que têm por objeto o corpo, que estão enraizados no corpo e solidamente enraizados nele, constituem o ser.

Imaginai meninos ou meninas que se divertem a erguer castelos de areia. Enquanto eles não deixam de ter desejos, vontade, cobiça ou uma paixão ardente por estes pequenos castelos de areia, eles os querem, divertem-se com eles, têm-nos em grande apreço e são ciosos deles.

Mas, desde que estes meninos, ou estas meninas, deixem de ter desejo, vontade, cobiça ou paixão ardente por estes pequenos castelos de areia, ali mesmo os desmantelam com os pés e com as mãos, os derrubam e põem abaixo, sem lhes encontrar o menor atrativo
".


"Só quando compreendermos que tudo no Universo é impermanente, efêmero, uma cadeia de causas e efeitos sem realidade substancial, e que tudo aquilo que julgamos ser eu é apenas um agregado impermanente, efêmero, não-real, só então a compreensão da unidade do todo se dá e, com isso o dissipar da ilusão. Assim, a realidade permanente existe, não porém, na base do nosso eu, onde a procurávamos, nas formas individualizadas, pelo nosso ponto de vista ilusório. Quando esse erro se dissipa e os falsos desejos dele oriundos se extinguem, o permanente se revela, é o Nirvana".

Aos olhos do Buda, a procura do Nirvana é semelhante à ação de vigiar dia e noite, é o estado de permanente Plena Atenção. O sofrimento surge por causa do desejo ardente, da “sede”, e cessa devido à Sabedoria. Mas Buda afirma: “Se tua conduta foi caridosa e pura, então na plenitude da alegria terás posto termo ao sofrimento”.

Do nosso ponto de vista cristão, alcançar o Nirvana é análogo a alcançar o céu. Entretanto, para alcançar o Nirvana não é necessária a morte do corpo. Também de modo distinto do Céu, o Nirvana não é uma condição negativa ou positiva. "As noções de “negativo” e “positivo” são relativas e pertencem ao domínio da dualidade. O Nirvana está além do pensamento de dualidade e de relatividade; portanto, está fora das nossas concepções do bem e do mal, do justo e do injusto, da existência e da não-existência. Mesmo a palavra “felicidade”, usada para descrever o Nirvana, tem um sentido completamente diferente".

Aquele que realizou esta Verdade – Cessação do Sofrimento ou Nirvana – é o mais feliz dos seres. "Sua saúde mental é perfeita, não se arrepende do passado, nem se preocupa com o futuro; vive o momento presente, está livre da ignorância, dos desejos egoístas, do ódio, da vaidade, do orgulho, livre das dificuldades e dos problemas que atormentam os outros. Torna-se um ser puro, meigo, cheio de amor universal, compaixão, bondade, simpatia, compreensão e tolerância. Presta serviço aos outros com a maior pureza, pois não pensa egocentricamente, não procura o lucro, nem acumula coisa alguma; nem os bens espirituais, porque está livre da ilusão do “eu”, da sede e do desejo de vir-a-ser".

O Buda disse:
Naquele que é caridoso, a virtude crescerá. Naquele que se domina a si próprio, nenhuma cólera pode aparecer. O homem justo rejeita toda maldade. Pela extirpação da concupiscência, do ódio e de toda ilusão, tu atingirás o Nirvana”.

Não há como descrever o Nirvana porque não há como compará-lo a qualquer experiência mundana e não há nada que possa ser usado para fornecer uma analogia satisfatória.

Descobrindo-se a Verdade da Cessação do Sofrimento, todas as forças que produzem a continuidade da roda da existência se acalmam, tornam-se incapazes de produzir novas formações cármicas, pois não há mais ilusão, nem sede de desejo para manter a continuidade. Então, será possível experimentar o Nirvana seguindo o caminho com paciência e aplicação, exercitando-se e purificando-se para alcançar o desenvolvimento espiritual necessário.

Esta Terceira Nobre Verdade será melhor compreendida pelo conhecimento da Quarta Nobre Verdade – O Caminho que leva à Cessação do Sofrimento. Será nossa próxima postagem.


Texto baseado em:

SILVA, Georges da & HOMENKO, Rita. Budismo: Psicologia do Autoconhecimento. São Paulo: Ed. Pensamento, 1990.

terça-feira, 27 de outubro de 2009

Tiradentes

Há muitos anos que eu acalentava o desejo de viajar de trem, saudade de um passado distante na velha Estrada de Ferro Leopoldina. Minha idéia era fazer a viagem de Belo Horizonte a Vitória, então fui à Praça da Estação, em BH, e lá procurei o guichê da Vale do Rio Doce. Quinta-feira e os bilhetes já estavam esgotados até sábado! Era véspera de um fim de semana prolongado pelo feriado da Independência, de maneira que a viagem só seria possível no domingo. Fiquei por ali uma meia hora, vacilando se compraria ou não a passagem: a viagem é demorada, cerca de 14 horas, ainda teria a volta e isto não compensaria se eu não ficasse em Vitória pelo menos uns dois dias. Tomei a decisão de pensar no assunto até mais tarde, primeiro iria verificar se haveria uma alternativa

Pela Internet achei a solução (santa Internet!): uma pequena viagem numa locomotiva de museu, daquelas que a gente vê em filme de faroeste, que vai de São João del Rei a Tiradentes. A troca, à primeira vista, não tem cabimento: o trem BH-Vitória é moderno, com duas classes de passagens, onde se pode optar por vagão com ar condicionado, uma longa viagem passando por muitas cidades;
a Maria Fumaça é uma locomotiva à vapor de 1890, e a viagem pra lá e pra cá dura apenas uma hora e vinte minutos. Mas o que pesou na balança para que eu ficasse com a Maria Fumaça é que eu poderia convidar meus filhos para o passeio, e aí qualquer um concordaria comigo que o melhor de qualquer passeio é a companhia que a gente tem.

A Estação Ferroviária de São João del Rei é primorosa, guarda os traços antigos, mas tem ar de museu, com recepcionistas sorridentes, bons sanitários, uma coleção de locomotivas à vapor e um vagão onde os saudosistas podem tirar fotos de época. Você aluga uma indumentária completa do Século XVIII e fica vestido à caráter, seja homem ou mulher. Então os “retratistas” tiram de você uma foto envelhecida e fica como se você tivesse entrado numa máquina do tempo, de volta ao passado colonial.

Lá estávamos a Janine e o Diogo - meus filhos; a Simone - minha nora, e meus netos Iasmin e Gabriel.
Não sei quem estava mais alegre, se avô ou netos, porque embora sejam as crianças que mais saboreiam os momentos da vida, para mim era um retorno à infância, e eu estava experimentando as mesmas emoções dos momentos mágicos que marcaram minhas viagens de trem. Aguardando a partida, enquanto tirávamos fotos, eu prestava atenção a cada detalhe: as cadeiras reversíveis, o toque do sino, o vendedor de doces, uma linda negra vendendo pirulitos. O apito do fiscal deu o sinal de partida, logo veio o cobrador de bilhetes, os sacolejos ritmados enquanto a máquina seguiu fazendo “café com pão, manteiga não, café com pão, manteiga não”.

O vale do Rio das Mortes, por onde o trem serpenteia entre São João del Rei e Tiradentes, tem uma feição estranha.
A exploração do ouro contido nos leitos de cascalho deixou uma série de monturos entremeados por buracos, marcas perpétuas na paisagem. Os monturos estão hoje cobertos por uma relva baixa e rala, enquanto nos buracos formaram-se pequenas lagoas. Isto se remete ao ciclo do ouro, quando centenas de aventureiros e seus milhares de escravos escavaram os depósitos auríferos, deixando para trás desolação e generalizada contaminação ambiental.

Levanto os olhos e contemplo a Serra de São José, extenso e íngreme paredão de quartizito, donde o ouro migrou junto com o cascalho para se depositar no fundo do vale.
Tiradentes, logo abaixo, foi um dos locais onde mais se produziu ouro de superfície no Brasil. Meu pensamento traz a lembrança de Tiradentes – o homem, e tento imaginá-lo andando à cavalo nas trilhas que levavam até ao arraial que, então, era conhecido como Santo Antônio da Ponta do Morro. Veio-me uma profunda compaixão por aquele sonhador, que morreu como bandido, condenado pelos portugueses. Se naqueles tempos seus próprios compatriotas se envergonhavam dele e seu nome foi logo esquecido, hoje três cidades disputam ser o berço de seu nascimento. Afinal, a República transformou o bandido em herói, aí todos querem se identificar com ele, ganhou estátuas e admiradores, pois em todos os tempos a hipocrisia continua sendo a marca dos oportunistas.

Os apitos da Maria Fumaça me tiram do passado, avisando-nos que estamos chegando à Estação de Tiradentes. Estico o pescoço sobre a janela do trem para ver a aglomeração de pessoas que esperam sorridentes a nossa chegada, mas não enxergamos a cidade, oculta do outro lado da ponte sobre o Rio das Mortes.

Durante vários dias fiquei pensando numa palavra que descrevesse a cidadezinha de Tiradentes, uma palavra que ninguém ainda tivesse dito sobre ela. Vasculhei na Internet muitas páginas sobre Tiradentes – a cidade – e vi que não sobrou uma palavra assim, de maneira que só posso dizer aquela que, para mim, melhor a descreve: encantadora! Uma jóia do Século XVIII que escapou da destruição e da descaracterização que atingiram nossas cidades coloniais. Quem conhece de perto o que aconteceu com Paracatu acaba se surpreendendo com uma cidade que, mesmo intensamente explorada pelo turismo, ainda se preserva como uma relíquia barroca.

O centro da cidade fica a uns mil metros da estação, o sol estava quente, então resolvemos fazer o trecho em uma charrete. Iasmin, fã número 1 da Barbie, ficou encantada com a nossa charrete cor de rosa. Passando sobre um calçamento irregular de pedras, fomos até uma praça que talvez seja o maior estacionamento de charretes do Brasil.
Nunca vi tanta charrete, parece ser um bom negócio levar turistas morro acima, sacolejando entre os vãos do calçamento. Ali tudo é voltado para o turismo, todas as casas foram transformadas em pontos de comércio, vendendo artesanato ou comida.

As belezas de Tiradentes estão bem documentadas em vários sítios na Internet, de maneira que vou aqui apenas fazer referência ao artesanato mais diversificado e bonito que vi até hoje, coisas de estanho, madeira, prata, palha, tecidos, ferro, tudo do mais fino gosto; também os doces artesanais, que só as cozinheiras mineiras sabem fazer bem, restaurantes para todos os gostos e, se você tiver tempo, as capelas e museus.


A minha turma estava com fome, então fomos atrás de um restaurante. Pedimos referência a três carroceiros e todos nos indicaram o mesmo – Divino Sabor -, segundo eles o melhor e o mais “em conta”. Filosofia de mineiro: “em conta”. Pois é pra lá que fomos, comer frango com ora-pro-nóbis, jiló, angu e lingüiça caseira. Bem, isto comi eu, já que a minha turma, geração Mcdonalds, foi mesmo de batatinha frita e acompanhamento.

Estava acontecendo uma feira de artesanato, promovida pelo Governo de Minas, com expositores de muitas cidades, tinha banca até de índios e de peruanos (pode acreditar!). Andamos por lá comprando pouco, porque é tanta coisa que a gente fica em dúvida e desiste. Circulamos nas ruas próximas e aí chegou a hora de ir embora, pois o último trem volta para São João del Rei às cinco da tarde. Ficou a sensação de que conheci pouco da cidade e que um dia ainda voltarei para caminhar nas ruas íngremes, conversar com as pessoas do lugar e apreciar a cidade numa tarde calma, sem tantos turistas.


Novamente dentro da Maria Fumaça, constatei que todos estávamos felizes com o passeio. O sol já se escondera por detrás da serra e a tarde ia se fazendo noite quando o trem entrou barulhento em São João del Rei, as pessoas da cidade paradas nas calçadas nos vendo passar, crianças acenando e a gente acenando de volta, feito criança, o maquinista tocando o apito furiosamente, fazendo festa para a nossa chegada.

Como é bela a felicidade quando ela é compartilhada!