Blog do Professor Márcio

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segunda-feira, 4 de fevereiro de 2019

BARRAGENS DE REJEITO QUE MATAM EM SILÊNCIO

A mina Morro do Ouro, em Paracatu – MG, é única pelo gigantismo:  é a maior mina de ouro a céu aberto no mundo e a maior em produção de ouro no Brasil. Estas características causam admiração àqueles que são ofuscados pelo vil metal, embora esta mina seja também gigante nos danos provocados à natureza e aos seres humanos.

Ela começou a operar em 1987, ao lado da cidade de Paracatu, e seu convívio com a cidade é uma típica relação de sujeição/dominação, um caso de estupro inevitável. Inúmeros conflitos se desenvolveram ao longo dos anos, especialmente a partir da expansão da produção ocorrida entre 2005-2010, com expulsão de comunidades quilombolas, ataques a garimpeiros tradicionais, expulsão de moradores de bairros vizinhos à zona de lavra, perturbações aos moradores da cidade com poeira e explosões e vários conflitos com proprietários e posseiros na zona rural.

Aqui, vamos falar apenas da questão das barragens de rejeito, que são gigantes não apenas pelo volume de material estocado, mas também por serem os maiores depósitos de arsênio de que se tem notícia. O ouro explorado em Paracatu está contido em rocha rica em arsênio, um semimetal tóxico, conhecido como o “rei dos venenos” – não tem cheiro e nem sabor, mas é letal em pequenas doses e, em doses mínimas, provoca uma série de doenças, que vão desde lesões de pele a vários tipos de câncer, má formação congênita, doenças neurológicas, diabetes e quase todas que se pode imaginar.

O arsênio, como os demais elementos químicos da Terra, está presente em todos os ambientes, mas nem sempre é bioassimilável. Nas rochas da mina Morro do Ouro ele se apresenta como sulfeto de arsênio e ferro (arsenopirita), e nesta condição os organismos vivos não o assimilam. Ele passa a ser tóxico quando está na forma de óxido de arsênio, e é isto o que faz o processo de beneficiamento: o minério é atacado por cianeto (que também é um produto altamente tóxico e letal), transformando o sulfeto de arsênio em trióxido e pentóxido de arsênio. Esta reação química é necessária para destruir o mineral arsenopirita e liberar o ouro que está incluso na sua rede cristalina. Daí o ouro é recuperado em um circuito de carvão ativado.

Quanto de ouro e de arsênio existem no minério da Mina Morro do Ouro?

De acordo com relatório técnico da mina, o teor médio de ouro é de 0,4 g/tonelada e o de arsênio é de aproximadamente 1,1 kg/tonelada de minério. Apresentando estes dados de uma forma mais compreensiva, para se extrair 1 g (um grama) de ouro são necessárias 2,5 t (duas toneladas e meia) de minério. Estas mesmas 2,5 t de minério teriam 2,7 kg de arsênio. A cada ano, portanto, levando-se em conta que a mineradora movimenta 61 milhões de toneladas de minério, ela libera para o meio ambiente mais de 67.000 toneladas de arsênio em sua forma tóxica. A mina opera desde 1987, e só nos últimos dez anos 670 mil toneladas de arsênio devem ter sido liberadas no meio ambiente, a maior parte estocada nas barragens de rejeito. 

Quando se questiona a mineradora sobre o arsênio, ela responde hipocritamente que o arsênio é natural nas rochas de Paracatu; mas não fala que nas rochas ele é inofensivo, e que nos efluentes do beneficiamento estocados na barragem ele é um veneno. Recentemente, deparamos com mais uma afirmação enganosa da mineradora: a de que o arsênio é estocado em tanques específicos, os quais são posteriormente enterrados e lacrados. É certo que um percentual de arsênio possa ser recuperado no beneficiamento e estocado, menos que 30%; mas também é certo grande parte da estocagem é na barragem, onde o seu grau de biodisponibilidade atinge 67%, de acordo com estudo financiado pela mineradora.  Entretanto, o processo de renovação de licenciamento da mina PA COPAM 099/1985/076/2016 não cita a existência de tanque específico para arsênio, mas somente para cianeto.

Se o arsênio está estocado na barragem, isto é problema?

As barragens de rejeito da mina Morro do Ouro não são impermeabilizadas no piso e, além disso, dela vertem drenos de água, em circuito aberto. Lembremos que além do arsênio, o estoque de rejeito contém produtos químicos tóxicos utilizados no beneficiamento mineral, além de metais pesados presentes no minério: cobre, chumbo, manganês, cádmio e prata, todos eles apontados como agentes tóxicos. Isto é uma séria violação ao princípio de precaução, instituído no direito ambiental brasileiro.
No processo de licenciamento das barragens a questão do rejeito tóxico sequer foi colocada, e a mineradora informa que as rochas do piso das barragens são impermeáveis. Em hidrologia, existem rochas permeáveis e de baixa permeabilidade, mas rochas absolutamente impermeáveis não existem, ainda mais quando se trata de rochas não cristalinas, como é o caso daquelas encontradas no local. Rochas de baixa permeabilidade, sujeitas a pressões de material com alto conteúdo de água e ainda mais contendo produtos químicos solventes, como aqueles usados no tratamento de minérios, alteram em muitos graus a sua permeabilidade e passam a se comportar como corpos permeáveis.

Tal é o que ocorreu na barragem do Santo Antônio, com 31 anos de operação e um estoque de aproximadamente 400 milhões m3 de rejeito, elevados a 110 m de altura. (A barragem do Fundão, em Mariana, tinha 56 milhões de m3, e a do Córrego Feijão, em Brumadinho, tinha 12 milhões de m3.). Deixando de lado o seu potencial de risco de rompimento, esta barragem lança a sua drenagem ácida a jusante da mina, atingindo as águas subterrâneas e superficiais da bacia hidrográfica do ribeirão Santa Rita, onde se encontram uma comunidade de pequenos proprietários e o povoado Lagoa de Santo Antônio.

A constatação de contaminação das águas superficiais e sedimentos dos córregos foi feita em 2012, através de um levantamento realizado pelo CETEM. Em 2015, publicamos no Congresso Latino-Americano de Risco os resultados de um levantamento que incluiu amostragem de águas subterrâneas, águas e sedimentos dos córregos e também o exame de arsênio presente na urina de uma parte da população residente. Este levantamento revela a gravidade, persistência e progressão da contaminação ambiental das águas superficiais e subterrâneas: todas as amostras colhidas superam os limites estabelecidos na legislação. A amostragem da população aponta cerca de 70% de moradores que apresentam concentração de arsênio na urina acima do valor de referência, o que pode ser explicado pela ingestão de água e alimentos contaminados. Ali, a concentração média supera largamente aquela observada no Quadrilátero Ferrífero, onde a mineração de ouro em rocha com arsenopirita iniciou-se há cerca de 180 anos.

Uma Ação Civil Pública que deu ingresso em 2009 solicitando um estudo epidemiológico em Paracatu foi recentemente declarada extinta, sem ter atendido o seu propósito. Acordo feito com o Ministério Público Estadual, na forma de Termo de Ajuste de Conduta, que obrigava a mineradora a divulgar os dados de monitoramento ambiental, jamais foi atendido. Todas as denúncias e reclamações contra a mineradora caem no vazio da omissão das autoridades públicas.

Casos de contaminação de pessoas já foram relatados e expostos na mídia nacional e estrangeira. Embora estes resultados tenham sido apresentados na forma de denúncia pública e também tenham sido encaminhados a diversas autoridades, até hoje nenhuma providência foi tomada, nem sequer para investigar a sua veracidade.

Pela Constituição Federal e as leis subsequentes, o Estado tem a obrigação de proteger o ambiente e garantir às pessoas um ambiente saudável. Porém, com baixa capacidade de verbalização dos seus problemas e reivindicações, sem lideranças efetivas, baixa participação popular e a crença bastante disseminada de que é impossível lutar contra a grande empresa, a resistência dos grupos atingidos de Paracatu é, assim, quase melancólica. O poder da mineradora estabeleceu uma relação de mando e obediência que foi internalizado pelas autoridades públicas, pela sociedade em geral e até mesmo por alguns que resistiam.

sábado, 26 de janeiro de 2019

BRUMADINHO: DE QUANTAS CATÁSTROFES PRECISAMOS?


Três anos após o rompimento de uma barragem da Samarco (Vale + BHP) em Mariana, a população brasileira acompanha estupefata o rompimento simultâneo de três barragens em Brumadinho. Ali, bem ali perto do Inhotim, a maior exposição de arte moderna do mundo, a lama da Vale cobre agora e para sempre os corpos de dezenas de pessoas. Serão inseridas na conta de "desaparecidas".

Políticos se mobilizam para expressar fingida angústia pelo evento catastrófico. Paralelamente, assistimos aos desmonte governamental das instituições e dispositivos criados para a proteção ambiental... Tanta hipocrisia! Entretanto, o presidente do País afirma que o governo federal "não tem nada a ver" com o que chamou de "a questão da empresa".

É isto mesmo! Estamos "nas mãos" das empresas, o governo federal quer apenas que as elas paguem impostos e criem postos de trabalho para colaborar com a paz social (mesmo com o risco de vida dos trabalhadores). O governo federal não precisa nem mesmo fiscalizar, porque ele concede às mineradoras o automonitoramento.

O Corpo de Bombeiros de Minas Gerais, em operação de resgate após o acidente de Brumadinho. O Poder Executivo do Estado Brasileiro, não tem nada a ver com isso.

O sistema de barragens da Vale em Brumadinho era considerado de baixo risco e tem todo o processo de licenciamento e vistorias em dia, atestando sua segurança. Minha opinião: a engenharia de minas brasileira faz o jogo das empresas, buscando o baixo custo e desprezando os riscos; e o sistema de automonitoramento concedido às mineradoras está na origem dos problemas de segurança que impactam pessoas e meio ambiente.

Links:
https://noticias.uol.com.br/cotidiano/ultimas-noticias/2019/01/26/juiz-de-mg-bloqueia-r-20-bi-de-acoes-da-vale-na-bovespa-madri-e-nova-york.htm
https://g1.globo.com/mg/minas-gerais/ao-vivo/barragem-da-vale-se-rompe-em-brumadinho-na-grande-bh.ghtml
https://g1.globo.com/mg/minas-gerais/noticia/2019/01/26/vale-divulga-lista-de-pessoas-sem-contato-em-brumadinho.ghtml
https://noticias.uol.com.br/cotidiano/ultimas-noticias/2019/01/25/desastre-em-barragem-de-brumadinho-e-destaque-na-imprensa-internacional.htm

segunda-feira, 7 de janeiro de 2019

DESEJOS PARA O ANO NOVO


Espero que sejamos dignos de esperança sem esperança.
Que possamos ter a coragem de ficar sozinhos e a coragem de assumir riscos para estarmos juntos, porque isolado é inútil um dente na boca, um dedo na mão.
Espero que possamos ser desobedientes, toda vez que recebermos ordens que humilham nossa consciência ou violam nosso bom senso.
Espero que possamos ser tão teimosos para continuar acreditando, contra todas as evidências, que a condição humana vale a pena, porque fomos mal feitos, mas não estamos acabados.
Espero que possamos continuar caminhando pelos caminhos do vento, apesar das quedas, das traições e das derrotas, porque a história continua, além de nós, e quando ela se despede, ela está dizendo: até mais tarde.
Espero que possamos manter a certeza de que é possível ser compatriota e contemporâneo de quem vive animado pelo desejo de justiça e a vontade de beleza, nasça onde nasça e viva onde viva, porque não têm fronteiras os mapas da alma nem do tempo.

Autor: Eduardo Galeano
Eduardo Hughes Galeano foi um jornalista e escritor uruguaio. É autor de mais de quarenta livros, que já foram traduzidos em diversos idiomas. Suas obras transcendem gêneros ortodoxos, combinando ficção, jornalismo, análise política e História. Wikipédia

domingo, 16 de dezembro de 2018

MSF não pode mais realizar buscas e salvamentos no mar

Aquarius - Médicos Sem Fronteiras
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É com profundo pesar que comunico a você que MSF e SOS Mediterranée foram obrigadas a interromper as operações de busca e resgate realizadas pelo navio Aquarius. Essa era a última embarcação de ajuda humanitária que ainda fazia esse tipo de operação no mar Mediterrâneo. Desde 2015, ajudamos no resgate de aproximadamente 80.000 pessoas que estavam em perigo no mar. Com essa interrupção, não haverá mais nenhuma organização não-governamental que interceda por essas pessoas.
Nos últimos 18 meses, sofremos fortes ataques de países da União Europeia contra operações de busca e resgate. Apesar de trabalhar em total conformidade com as autoridades, o Aquarius teve seu registro retirado duas vezes no início deste ano e agora enfrenta alegações claramente absurdas de exercer atividades criminosas. A sabotagem ao Aquarius ignora o compromisso humanitário e legal mais básico: o de salvar vidas.
Hoje a presidente internacional de MSF, Joanne Liu, participou do encontro do Pacto Global para Migração, realizado em Marrocos. Em seu discurso falou das terríveis condições por que passam migrantes e refugiados retidos na Líbia.
“Eu testemunhei cenas angustiantes em centros de detenção na Líbia, no ano passado. Pessoas desesperadas, confinadas em cômodos imundos, destituídas de qualquer esperança [...] Eu vi crianças desacompanhadas e mulheres grávidas trancadas em porões, sem nenhum acesso a cuidados médicos. Seus olhos cheios de lágrimas imploravam por liberdade [...].
Independentemente do motivo pelo qual as pessoas deixaram seu local de origem, elas precisam de proteção contra a violência e a exploração. Em todo o mundo, dezenas de milhões de pessoas estão em movimento. Temos de encarar a realidade: políticas desumanas destinadas a impedir a migração não impedem as pessoas de se deslocarem”, defendeu Joanne Liu.
Mais do que uma estrutura de busca e resgate, o Aquarius era um sinal de que as vidas dessas pessoas importavam. Agora, esse sinal foi covardemente silenciado.
“Na semana passada, 15 pessoas presas em um barco na costa da Líbia morreram de sede e fome. Quantas mais podem estar morrendo ou se afogando, sem que ninguém saiba? Salvar vidas não é negociável. Salvar vidas é o que fazemos, é o motivo pelo qual continuaremos lutando e o que insistimos que vocês devem defender” enfatizou Joanne Liu ao se dirigir aos participantes, entre eles parceiros da Organização das Nações Unidas, representantes de governos, membros da sociedade civil e pesquisadores que acompanham movimentos migratórios.
Junte-se a nós e clique aqui para compartilhar essa mensagem nas suas redes sociais.
Agradeço seu apoio e a confiança em nosso trabalho.




terça-feira, 25 de setembro de 2018

DESREGULARORES HORMONAIS EM CRIANÇAS BRASILEIRAS


Os desreguladores hormonais presentes em plásticos e cosméticos e que foram encontrados em crianças brasileiras


Diariamente, absorvemos diferentes contaminantes presentes não só no ar, na água e em alimentos, mas também em diferentes produtos – de garrafas plásticas, detergentes, papéis emitidos pela máquina de cartão de crédito a esmaltes, sabonetes e plástico filme.

A reportagem é de Alessandra Goes Alves, publicada por BBC Brasil, 23-09-2018.

Conhecidas como "desreguladores endócrinos", algumas destas substâncias podem interferir na síntese e ação de hormônios, responsáveis por funções como metabolismo, crescimento, desenvolvimento, reprodução, sono e estado de ânimo.
A fim de verificar o nível de exposição de crianças brasileiras a essas substâncias, um grupo de pesquisadores analisou a concentração de 65 desreguladores endócrinos em urinas de 300 crianças das cinco regiões do país, com idades entre 6 e 14 anos.
Segundo a pesquisa, os compostos químicos associados ao uso de cosméticos, produtos de cuidado pessoal e plásticos foram encontrados em concentrações elevadas, principalmente nas regiões Norte e Nordeste do país.

"Os dados da pesquisa mostram que crianças brasileiras estão expostas a alguns desreguladores hormonais em concentrações maiores do que aquelas encontradas em países como EUA, Canadá e China, que realizam esse estudo mais rotineiramente", diz Bruno Alves Rocha, pesquisador da Faculdade de Ciências Farmacêuticas da Universidade de São Paulo de Ribeirão Preto e autor do estudo, publicado na revista científica Environmental International.

Iniciada em 2016 e realizada em parceria com pesquisadores do Departamento de Saúde do Estado de Nova York, a pesquisa apontou que a maioria dos desreguladores relacionados ao uso de cosméticos e produtos de cuidado pessoal foram encontrados em maior concentração nas meninas.
Esta diferença chegou ao dobro em algumas substâncias - como o triclosan (presente em desodorantes e sabonetes antibacterianos), alguns parabenos (conservantes) e alguns benzofenonas (utilizados principalmente na formulação de esmaltes e presentes em protetores solares, produtos de maquiagem e produtos de cabelo).
"Isso mostra que esses produtos são uma fonte importante de exposição a estas substâncias", avalia o pesquisador. De acordo com a consultoria Euromonitor International, o mercado de cosméticos e produtos de cuidado pessoal voltados ao público infantil no Brasil foi o terceiro maior do mundo em 2017.

Outro destaque da pesquisa, segundo artigo publicado na revista Science of the Total Environment, se refere à presença de ftalatos em pelo menos 90% das amostras de urinas analisadas. A partir do cálculo do nível de ingestão diária, os pesquisadores apontaram que um terço das crianças apresentaram níveis tóxicos dessa substância.

Além de compor fragrâncias em produtos como sprays de cabelo, loções pós-barba, sabões, xampus e perfumes, os ftalatos também são usados como solventes e na fabricação de plásticos mais flexíveis ou resistentes - estando presentes em produtos de limpeza, resinas e principalmente em plásticos (como o policarbonato, plástico filme, embalagens e brinquedos).

Procurada pela BBC News Brasil, a Associação Brasileira da Indústria de Higiene Pessoal Perfumaria e Cosméticos (ABIHPEC) disse que "não está claro o efeito dos ftalatos na saúde humana". E a Associação Brasileira da Indústria Química (ABIQUIM) disse que ainda são necessários estudos científicos para entender "quando, onde e como usar seguramente cada substância".

Consequências ainda desconhecidas

Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), existem cerca de 800 compostos químicos suspeitos de interferir no sistema hormonal e "apenas uma pequena fração" dessas substâncias foi investigada. A organização diz que a falta de dados traz "incertezas sobre a extensão dos riscos".

"Muitas (dessas substâncias) propiciaram melhorias e progressos ao longo do século 20, mas ainda precisamos investigar os impactos sobre a saúde humana, principalmente quando elas estão associadas", diz Denise Pires de Carvalho, médica da Sociedade Brasileira de Endocrinologia Médica (SBEM) e professora de biofísica da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

Apesar das divergências na literatura científica sobre quais concentrações dessas substâncias são consideradas aceitáveis, em 2016, a Comissão Europeia divulgou uma lista com 66 compostos químicos avaliados de terem "clara evidência de perturbação da atividade endócrina".

Em 2016, os EUA proibiram a comercialização de sabonetes antibacterianos que contenham 19 ingredientes químicos, incluindo o triclosan (agente bactericida), sob a justificativa de não haver garantias de que essas substâncias sejam seguras. A determinação se baseou em pesquisas que indicaram que a exposição prolongada às substâncias analisadas pode provocar alterações hormonais e aumentar a resistência bacteriana.

Estudos recentes investigam impactos de desreguladores endócrinos sobre o sistema reprodutor humano. Uma pesquisa desenvolvida pela Universidade de Rochester, em Nova York, apontou que alguns ftalatos bloqueiam a ação do hormônio masculino testosterona em bebês, interferindo no desenvolvimento genital e cerebral de meninos. Cientistas também investigam se a queda da qualidade do sêmen no mundo, verificada pela OMS, está relacionada à ação de desreguladores endócrinos.

Em 2011, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) proibiu a presença do bisfenol A (usado na produção de plástico policarbonato) em mamadeiras destinadas a crianças de até 12 meses.

"Hoje sabemos que essa substância está associada à diabete mellitus e obesidade infantil, além de poder causar puberdade precoce e alterações na tireoide", afirma Carvalho, da UFRJ.

No estudo do pesquisador da USP, a mineração dos dados – metodologia que verifica padrões em uma grande quantidade de informações – apontou que urinas com altas concentrações de diferentes desreguladores também apresentaram maiores concentrações de 8OHDG, molécula que, em grande quantidades, indica a ocorrência de lesão nas células.

"Este processo danifica o DNA e favorece a ocorrência de obesidade, infertilidade, doenças cardiovasculares e alguns tipos de câncer, principalmente aqueles relacionados ao sistema reprodutor", explica Rocha.
Um terço dos 65 compostos químicos analisados na pesquisa apareceu simultaneamente em pelo menos metade das amostras e apresentaram altas concentrações de 8OHDG, o que indicou a associação entre diferentes compostos e a ocorrência de estresse oxidativo.
"Analisar a coexposição é importante porque as pessoas não estão em contato com um só contaminante, mas com vários ao mesmo tempo. Eles atuam juntos", diz o pesquisador.

Necessidade de investigação

Por e-mail, a Associação Brasileira da Indústria de Higiene Pessoal Perfumaria e Cosméticos disse que "o estudo é muito recente e existem variáveis importantes que precisam ser conhecidas/controladas para poder analisar os resultados identificados."
Já a Associação Brasileira da Indústria Química enfatizou que, sob a coordenação do Ministério do Meio Ambiente, a Comissão Nacional de Segurança Química(CONASQ) está formulando um regulatório nacional que dispõe sobre o cadastro, a avaliação e o controle de substâncias químicas industriais.

Contatada pela BBC News Brasil, a Anvisa disse adotar os limites apontados em avaliações conduzidas por autoridades internacionais e que as listas de substâncias permitidas são resultado de uma "harmonização entre os Estados do Mercosul e estão de acordo com o que está sendo praticado em outros países ou blocos, como Estados Unidos e Europa."

A agência disse que parabenos são conservantes "bem difundidos nas indústrias e em alguns casos, de difícil substituição por questões de estabilidade do produto, custos, etc.".
A Anvisa também disse já estar avaliando a redução da quantidade permitida de alguns parabenos e afirmou ter solicitado ao Mercosul a redução do limite de ftalatos permitidos em "materiais destinados ao contato com alimentos para crianças de até três anos."
Questionada se a exposição simultânea é utilizada para definir os limites aceitáveis dos compostos químicos destacados na pesquisa, a Anvisa disse que "na maioria dos casos, os limites dizem respeito a análises individuais."

Princípio da precaução

A diversidade de fontes, a dosagem e a análise dessas substâncias em conjunto no organismo estão entre os principais desafios para os estudiosos do tema hoje.
"Falta metodologia para dosar as concentrações desses compostos. Pequenas contaminações ocorrem diariamente, já que eles estão presentes em várias coisas. É importante analisar a intensidade das concentrações e o tempo de exposição a elas. Se uma pessoa está exposta a grandes quantidades de forma sistemática, haverá efeitos sobre a saúde", pondera Angela Maria Spinola, endocrinologista pediátrica e professora da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).

Ela enfatiza a necessidade de mapear e acompanhar as concentrações destas substâncias com regularidade, o que não é feito em países como o Brasil. "A meu ver, ainda não é possível fazer um prognóstico a partir dos dados da pesquisa da USP. É preciso um acompanhamento em longo prazo para verificar se as crianças brasileiras desenvolvem doenças a partir das altas concentrações de alguns contaminantes", avalia Angela.

Alguns estudos indicam que a contaminação por parabenos e benzofenonas também podem estar relacionados à puberdade precoce e ao aumento de câncer de mama em indivíduos suscetíveis.
"Testes in vitro e em animais de laboratório mostraram que essas substâncias têm ações estrogênicas (agindo como os esteroides sexuais femininos) e antiandrogênicos (inibindo a ação de hormônios sexuais masculinos). Os efeitos em humanos estão sendo estudados, por isso o princípio da precaução é necessário", diz Denise.

Aplicado pela Anvisa na proibição do Bisfenol A, este princípio prevê a adoção de medidas de proteção "sem ter que aguardar que a seriedade dos riscos se torne aparente" sempre que haja "incerteza sobre a existência ou amplitude dos riscos para a saúde humana".
"Devemos evitar contaminações, porque ainda não conseguimos definir qual a dose mínima de desreguladores endócrinos que não causam efeitos ruins no nosso organismo", avalia a professora da UFRJ.

Como se prevenir?

De acordo com especialistas ouvidas pela BBC News Brasil, ações cotidianas podem contribuir para diminuir a exposição a desreguladores endócrinos.
"É fundamental ler os rótulos dos produtos e procurar evitar aqueles que tenham desreguladores em sua composição. Principalmente mulheres grávidas, já que elas podem armazenar essas substâncias no tecido adiposo e liberar para o feto através da placenta", diz Denise.

Outra recomendação se refere ao cuidado com o manuseio de embalagens de alimentos.
"A contaminação dos alimentos pode ocorrer a partir de fissuras causadas nas embalagens", explica Angela. Por isso, é recomendado não esquentar ou congelar alimentos em recipientes ou embalagens plásticas, priorizar vidro em vez de plásticos e evitar o consumo de alimentos enlatados (cuja embalagem é revestida de bisfenol A).


quarta-feira, 4 de julho de 2018

O CUSTO HUMANO DOS AGROTÓXICOS

Terça-feira, 3 de julho de 2018.

Atrofia muscular, câncer, mutações genéticas, hidrocefalia e retardo mental são algumas das condições que afetam crianças e adultos nas províncias de Misiones, Entre Ríos e Chaco, no nordeste rural da Argentina, onde o glifosato, herbicida comercializado pela Monsanto sob o nome comercial de Roundup, é utilizado em grande escala. Em O custo Humano, o fotógrafo argentino Pablo Piovano retrata o efeito devastador do uso indiscriminado de agrotóxicos por aqueles que trabalham no plantio ou vivem nos arredores. O artista também é responsável por documentário do mesmo nome.
As fotos já tem mais de dois anos, mas o assunto continua extremamente atual, especialmente no Brasil, em que a chamada PL do Veneno, foi aprovada na Câmara dos Deputados na última semana. Entre outros, o projeto de lei quer mudar o nome dos agrotóxicos para “defensivos agrícolas” e “produtos fitossanitários”, conceder licenças temporárias e proibir apenas substâncias que apresentem “risco inaceitável”.
 Confirma a seguir algumas das fotografias.
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Lucas Techeira tem cinco anos e nasceu com uma doença incurável chamada ictiose lamelar, causada por uma mutação genética. Os pais de Lucas trabalhavam em campos de tabaco e outras plantações na área onde são utlizados agroquímicos como o glifosato e 0 2,4-D, um dos componentes do Agente Laranja (utilizado pelos Estados Unidos durante a Guerra do Vietnã).

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Quando Cándida Rodriguez deu à luz a Fabián Piris, disseram a ela que seu bebê viveria por apenas um ano. Atualmente, ele tem 8 anos,e sofre de hidrocefalia e retardo mental irreversível. Durante a gravidez, Cándida e seu marido manusearam agroquímicos em plantações de tabaco. Eles moram perto de uma serraria onde a madeira é curada com produtos químicos altamente tóxicos.

Ademir Gotin é um rapaz de 20 anos. Ele sofre de deficiência mental severa. Andrea Gotin, sua irmã, era uma garota saudável. Quando tinha oito anos, Andrea inalou bromometano, e teve que ser hospitalizada. Ela passou nove dias na UTI. Poucas horas após inalar a substância, sua temperatura subiu, afetando funções motoras de seu cérebro. Ela precisa de um transplante de rim e precisa de submeter a diálise três vezes por semana.

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Fabián Tomasi trabalhou por muitos anos manuseando agroquímicos em uma empresa de fumigação. Atualmente, ele sofre de polineuropatia tóxica severa e está sendo tratado por atrofia muscular generalizada. Fabián é uma das vozes da luta contra o modelo agroindustrial biotecnológico e o uso indiscriminado de agroquímicos.

Fonte: Carta Capital. Obtido em: http://justificando.cartacapital.com.br/2018/07/03/o-custo-humano-dos-agrotoxicos/?utm_campaign=newsletter_rd_-_04072018&utm_medium=email&utm_source=RD+Station


1º ENCONTRO MINEIRO SOBRE DÍVIDA ECOLÓGICA


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1º ENCONTRO MINEIRO SOBRE DÍVIDA ECOLÓGICA

PROGRAMAÇÃO

MANHÃ

08:00 -  Chegada e recepção dos participantes
08:30 -  Abertura
08:45 -  1º Painel – Adriano Peixoto (Moderador)

Palestra: Dívida Ecológica: somos credores.
Maria Lúcia Fattorelli
Coordenadora Nacional da Auditoria Cidadã da Dívida

Palestra: Governança ambiental, a questão territorial e a divida ecológica
Klemens Laschefski
Profª do IGC/UFMG
Pesquisador do GESTA- Grupo de Estudos em Temáticas Ambientais/UFMG

09:45 -  Perguntas e comentários
10:15 -  Coffe Break (caseiro e agroecológico) - Traga sua caneca ou garrafinha.

10:30 - 2º Painel – Maria Lúcia Fattorelli (Moderadora)

Palestra: Produção e qualidade das águas na natureza: como mensurar o seu valor?
Marcus Vinícius Polignano
Médico, Professor e Coordenador do Projeto Manuelzão/UFMG

Palestra: Amputação da vida e da esperança: como mensurar?
Patrícia Generoso Thomaz Guerra
Integrante da REAJA -Rede de Articulação  e Justiça Ambiental dos Atingidos pelo Projeto Minas-Rio
Conselheira do CBH Santo Antônio (FONASC)

Palestra: Um direito para a ecologia da restauração
Luciano J. Alvarenga
Mestre e doutorando em Ciências Naturais pela UFOP
Bacharel em Direito pela UFMG
Assessor no Ministério Público de Minas Gerais

12:00 -  Perguntas e comentários
12:30 -  Intervalo para almoço

TARDE

14:00 -  Reflexão “Povos indígenas, Rio Watu e Pachamama”
14:30 -  Grupos de Trabalho
15:45 -  Apresentação da síntese dos grupos de trabalho
16:30 -  Propostas, encaminhamentos e avaliação
17:00 -  Encerramento