Blog do Professor Márcio

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segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

FUTUROS ALIMENTARES

O ambiente alimentar começou a mudar há dez anos com o advento das redes sociais, que passaram a criar redes de consumidores ávidos por informação e engajados com a ideia de vida mais saudável. A indústria de alimentos está passando pela maior transformação de toda a história. 
A reportagem é de Rosa Alegria, publicada por Diário do Comércio, 24-01-2017. 
São vários os fatores provocando abalos sísmicos no setor: a hiperconectividade que informa e intensifica a conscientização sobre o que é ou não saudável; os fenômenos globais como o aumento da população, a escassez de recursos naturais, as mudanças climáticas e a concentração econômica das megacorporações. 
O ambiente alimentar começou a mudar há dez anos com o advento das redes sociais, que passaram a criar redes de consumidores ávidos por informação e engajados com a ideia de vida mais saudável. 
28% dos brasileiros consideram que o valor nutricional é o mais importante na hora de consumir um produto e 22% das pessoas ouvidas em um levantamento disseram preferir alimentos naturais sem conservantes (Euromonitor). 

Uma nova revolução alimentar 

O conceito de segurança alimentar tem ido além das doenças provocadas por alimentos insalubres, mas também envolve o impacto dos seus ingredientes.
Os Noodles Maggi da Nestlé foram recolhidos das prateleiras durante seis meses nos Estados Unidos devido à presença excessiva de chumbo. Depois desse incidente, as vendas desse produto caíram 80% na Índia. 
Cadeias de fast-food estão ajustando seus menus, reduzindo a quantidade de substâncias químicas em seus pratos (Baum+Whiteman. Already, Chipotle Mexican Grill, Panera Bread, McDonald’s, Papa John’s e Subway, Wraps, Seletti, Go Fresh e Salad Creations). 
A Chipote, a primeira cadeia de fast-food saudável, é um exemplo mexicano. O próprio Mc donald's tem trabalhado nessa direção. 
Sem falar das inúmeras outras estratégias para atender essas novas realidades que pessoas bem informadas e vigilantes impõem às empresas, sejam fornecedoras, produtoras ou varejistas. 

A eliminação do glúten e do leite é outra revolução. Mesmo não precisando eliminá-los dos alimentos, muitos estão passando a descartá-los por prevenção de saúde, fazendo com que a indústria responda a essa exigência, lançando itens gluten-free ou sem lactose, e já são muitos nas prateleiras dos supermercados. 
A Dinamarca se lançou no mundo adotando desde há dois anos a agricultura 100% orgânica. Outros países a seguirão em breve. 

Alimento será moeda de troca? 
À medida que cresce a população mundial, aumenta a demanda de alimentos. A previsão para os próximos 15 anos é de um aumento de 35 % na produção. 
A escassez da água e as mudanças climáticas definem o destino das plantações e o aumento dos preços. 
Ano passado, a mídia chinesa relatou que o governo tinha comprado soja, milho, trigo e arroz dos agricultores e armazenado em silos por todo o país para uso em casos de emergência, para evitar flutuações excessivas de preços. 
O futurista-ambientalista Lester Brown, fundador do Worldwatch Institute, quando afirma algo, é ouvido por todo mundo. Pois então é preciso prestar atenção ao que ele agora sinaliza ao afirmar que “uma perigosa geopolítica” de escassez de alimentos está surgindo. 
Países agindo em seu próprio interesse, reforçando as tendências que ameaçam a segurança alimentar mundial. Quer dizer então que a base da economia mundial poderá estar no valor dos alimentos? Haverá moedas lastreadas na produção de arroz, carne e cereais? Por que não? 

Das mesas para as ruas 
A magnitude desse cenário tem influenciado o ativismo político: os alimentos estão cada vez mais presentes nas passeatas em praças públicas e têm sido pauta e movimentos sociais, a exemplo da revolução de 2011 no Egito. Daqui em diante mais e mais pessoas vão querer ter controle sobre a forma com que os alimentos são produzidos e consumidos. Continuarão também se indignando com paradoxos de um mundo em desequilíbrio e extremamente desigual: enquanto 795 milhões passam fome, 2,1 bilhões lutam contra a obesidade e um terço do que é produzido se perde ou vai para o lixo. 
O ativismo alimentar de entidades brasileiras como o IDEC e o Instituto Alana têm promovido campanhas com especial atenção para as crianças, já que 70% delas decidem os alimentos que querem que os pais lhes comprem. 

Na contramão das escolhas, os monopólios 
Na contramão do movimento cidadão capaz de mudar o rumo da indústria, aumenta a concentração das corporações aglomeradas por fusões e aquisições, segundo recente estudo lançado na Alemanha (Konzernatlas 2017), e isso fragiliza a amplitude de ação e de escolhas, incluindo a biodiversidade. Aumenta o número de espécies alimentícias em extinção como a batata roxa, a jabuticaba, o jenipapo, o umbu, a pitanga, o pinhão, o pequi e o babaçu. Quanto maior a concentração produtiva controlada pelas empresas, mais padronizada a alimentação. 

Que futuros irão nos alimentar? 
As crianças que estão nascendo hoje serão talvez adultos com vaga lembrança de ter convivido com a fome, de terem comido carne de animais abatidos, de embalagens de rápido descarte. As novas tecnologias prometem novos mundos na relação com os alimentos. 
A era pós-animal: quase um terço das terras férteis são utilizadas para criação de gado e o consumo de carne deve crescer 70% até 2050 (Economist). Mas o futuro já indica a possibilidade de consumirmos carne sem ter de devastar a natureza com pastagens. 
Essa aventura redentora já começou na Holanda, que já desenvolveu um hambúrguer feito de células do músculo de uma vaca, o que podemos chamar de carne in-vitro ou carne de laboratório. Uma única amostra de célula-tronco poderia produzir 20 mil toneladas de carne suficientes para preservar 440.000 cabeças de gado e, com isso, haveria uma redução de 45% na energia utilizada no ciclo produtivo.
Engenharia genética: a ideia de alimentos geneticamente desenhados ainda faz os ambientalistas torcerem o nariz. Trata-se da criação de novas cadeias alimentares (plantas e animais), melhor dizendo, da manipulação de semente. Apesar das controvérsias, muitos ainda advogam que essa será a saída para o combate da fome e poderá ser financeiramente viável nos próximos cinco anos. 
Nutrigenômica: teremos alimentos personalizados para cada necessidade nutricional e condições de saúde individualizada. Afinal, estamos na era da individualidade genômica.
Realidade aumentada: dietas com base na realidade aumentada já estão em operação em Tóquio e funcionam com aparelhos visuais que mostram a comida em tamanhos bem maiores que o real para criar ilusões de consumação. O sujeito pensa que está comendo um quilo de batatas fritas (pela imagem ampliada) mas de fato não ultrapassa 100 gramas. 
Alimentos 3D: o restaurante Food Ink é o primeiro do mundo a ter um cardápio impresso em 3D. O exército norte-americano pretende usar as impressoras 3D para customizar o alimento para cada soldado. A NASA está explorando a impressão 3D de comida no espaço. A tecnologia poderia até mesmo acabar com a fome em todo o mundo. A fabricante de chocolates Hershey já oferece produtos impressos e permite os consumidores fazerem sua própria impressão. 
Fazendas biológicas: poderão funcionar como fábricas biológicas para produção de moléculas de alto valor agregado em larga escala e com baixo custo. Plantas, animais e microrganismos geneticamente modificados para produção de medicamentos.
Um misto de sensações podemos sentir no contato com esses e outros futuros alimentares. Entre incertezas e encantamentos, é inegável que temos adiante uma das mais impressionantes jornadas a serem trilhadas na história da humanidade. 
Onde ela vai dar, tem muito a ver com o que juntos, bem informados, cidadãos conscientes e organizados em rede, iremos escolher. 


A matéria original foi publicada em
http://www.ihu.unisinos.br/564321-futuros-alimentares 

segunda-feira, 9 de janeiro de 2017

JOVENS ESTÃO APRENDENDO PROFISSÕES QUE SERÃO EXTINTAS

AI (Inteligencia Artificial) vai se apossar de mais de 60% das profissões mundiais em menos de 20 anos e os profissionais de TI não estão fora desta lista de profissões que serão jogadas no "limbo".
Como problema perceber a extinção de profissões não é exclusiva de trabalhos manuais. Existem previsões catastróficas no mercado de TI.
Tendo como fonte The Independent, a reportagem é de Pablo Roots, publicada por Suporte Ninja, 04-01-2017. 

De acordo com o relatório The New Work Order, divulgado pela Foundation for Young Australians (FYA), mais da metade dos estudantes do país estão atrás de profissões que se tornarão obsoletas pelos avanços tecnológicos e automação. Em um apontamento preocupante, a pesquisa mostra que 60% dos jovens entram no mercado de trabalho em profissões que serão “radicalmente afetados pela automação”, e que pode ocorrer dentro dos próximos 10 a 15 anos.

A CEO da FYA, Jan Owen, disse que enquanto a taxa de desemprego e subemprego para os jovens na Austrália já é de cerca de 30%, as chances de conseguir uma posição no mercado de trabalho vão continuar a encolher. “Nossa análise descobriu que 60% dos estudantes ocuparão empregos que terão um nível de automação de dois terços nas próximas décadas”, destacou.
Neste relatório recomenda que se dê mais ênfase às habilidades digitais e ao empreendedorismo para os jovens. Acrescenta também que a redução dos impostos para os trabalhadores de baixa renda e a concessão de mais direitos aos trabalhadores freelancers poderiam ajudar a preparar a economia e a sociedade da Austrália para o futuro.

Fazendo coro, no ano passado, um relatório dos professores da Oxford, Carl Benedikt Frey e Michael Osborne, analisaram 702 profissões e estimaram suas chances de automatização nos próximos 20 anos. Neste ano a Foxconn substituiu 60.000 funcionários por robôs em uma fábrica na China este ano A empresa de eletrônicos que abastece a Apple, Samsung e dezenas de montadoras famosas reduziu o quadro de suas fábrica em Kunshan (China) de 110.000 a 50.000 empregados, de acordo com o jornal South China Morning Post.

A empresa explicou que os novos robôs terão tarefas mais mecânicas no processo de produção, mas que os seus centros continuarão a precisar de trabalhadores envolvidos em pesquisa e desenvolvimento.
Substituir trabalhadores por robôs na cidade de Kunshan na China não é apenas uma decisão isolada da Foxconn, sendo que 600 grandes empresas estabelecidas nesta cidade têm planos parecidos. Atualmente, a cidade de Kunshan é a mais importante do mundo em produção de laptops e eletrônicos e conta com mais de 4.800 empresas.
Como se percebe, o problema da extinção de profissões não é exclusiva de trabalhos manuais. Existem previsões catastróficas no mercado de TI. A maioria das pessoas pensava que a AI só poderia assumir trabalhos manuais, como o de motoristas de táxis, caminhões, ônibus, cobradores de ônibus, supermercado e etc... Isso com certeza torna as previsões surpreendentes até mesmo para o público de profissionais de TI, já que são obviamente bastante familiarizados com tendências de carreira no setor de TI.
Em uma Conferência, em San Francisco, o bilionário Vinod Khosla fundador da Sun Microsystems, afirmou que 80% dos empregos de TI poderiam ser substituídos por sistemas com AI em questão de décadas.
"Eu acho que isso é emocionante", acrescentou Khosla, fundador da Sun Microsystems e da empresa de risco Khosla Ventures em Silicon Valley. Isso, é claro, é uma afirmação estranha a fazer sobre a perda de emprego de talvez milhões de pessoas no mundo.
Falando a uma plateia formada basicamente por CEOs e outros grandes executivos da tecnologia do Vale do Silício, Khosla apoiou sua declaração citando exemplos de empresas que estão desenvolvendo tecnologia que automatizaria a indústria de TI.
Ele menciona a Nutanix, uma empresa onde a Khosla Ventures vem investindo pesado em novas tecnologias para automatizar a maior parte do trabalho de infraestrutura da computação, automatizando a configuração, manutenção, administração e planejamento de redes, tudo através da nuvem. Ele também menciona startups de software empresarial como a Mesosphere, que simplificam muito o trabalho de instalação e manutenção de software em servidores.
Khosla tentou acalmar seu público de grandes executivos do Vale do Silicio, dizendo-lhes para não se preocupar porque "estamos todos nos outros 20%, não os 80% que são funções automatizáveis."
Ele garantiu que CEOs e grandes executivos de tecnologia não precisam se preocupar, garantindo que para eles ainda há um futuro promissor nas carreiras do alto escalão da Tecnologia da Informação.
Mas o bilionário do Vale do Silício não está sozinho em ver um futuro de IA nas indústrias de colarinho branco, talvez como médicos, advogados e contadores. E agora, como eles.
Mas para ser justo, talvez Khosla esteja certo ao dizer que é "excitante", pelo menos até certo ponto. Afinal, ver máquinas fazendo o que os seres humanos podem fazer tem uma "certa vantagem". Sendo que com a automatização dos processos ficará mais rápida, produtiva e mais barata. Isso pode garantir preços mais baixos e proporcionará benefícios para a sociedade comum através de tecnologias mais acessíveis.
A forma como trabalhamos mudará – mais automação, globalização e carreiras mais colaborativas poderiam ajudar a diminuir as barreiras do trabalho e tornar nossa vida mais flexível e menos regulamentada e com isso a qualidade de vida da população aumentaria.
No entanto, essas mudanças também podem levar a aumentos de desemprego, desigualdade social incalculável, além de total insegurança nos empregos. Nas melhores perspectivas, acredita-se que esta mudança "possa ser contornada" através do empreendedorismo e startups. Mas mesmo assim, a perda de empregos em larga escala que está prestes a acontecer não pode ser ignorada. É importante que os decisores políticos e os líderes da indústria apresentem soluções que possam ajudar o trabalhador e o ser humano e, ao mesmo tempo, permitir que o progresso tecnológico siga o seu curso. E "oremos à Matrix Quântica" para que os exércitos de máquinas e nanomáquinas tragam grandes melhoras a qualidade de vida da maioria ao invés de trazer lucros gigantescos para tão poucas corporações em contraponto ao caos mundial, com a população perdida entre a miséria e o apogeu de um consumismo exacerbado. (Embora isso seja quase impossível).
Acesse AQUI a lista de profissões a serem extintas.
Matéria obtida em: Revista IHU On-Line - Instituto Humanitas UNISINOS


sábado, 31 de dezembro de 2016

Para Walderez

A UM AUSENTE
Carlos Drummond de Andrade 
[...]
Tenho razão para sentir saudade de ti,
de nossa convivência em falas camaradas,
simples apertar de mãos, nem isso, voz
modulando sílabas conhecidas e banais
que eram sempre certeza e segurança.


segunda-feira, 28 de novembro de 2016

Divulgado relatório sobre resíduos de agrotóxicos em alimentos

Programa de Análises de Resíduos de Agrotóxicos em Alimentos, o PARA, avaliou mais de 12 mil amostras de alimentos ao longo de três anos. Pela primeira vez, o documento revela o risco dos resíduos para a saúde.
Quase 99% das amostras de alimentos analisadas pela Anvisa, entre o período de 2013 e 2015, estão livres de resíduos de agrotóxicos que representam risco agudo para a saúde. O dado faz parte do relatório do Programa de Análises de Resíduos de Agrotóxicos em Alimentos, o PARA, divulgado pela Agência nesta sexta-feira (25/12), em Brasília. No total, foram 12.051 amostras monitoradas nos 27 estados do Brasil e no Distrito Federal.
Esta é a primeira vez que a Anvisa monitora o risco agudo para saúde, uma vez que, nas edições anteriores do PARA, as análises tinham o foco nas irregularidades observadas nos alimentos. O risco agudo está relacionado às intoxicações que podem ocorrer dentro de um período de 24 horas após o consumo do alimento que contenha resíduos. Este novo tipo de avaliação, que já vem sendo feito na Europa, Estados Unidos, Canadá etc., leva em consideração a quantidade de consumo de determinado alimento pelo brasileiro.
Foram avaliados cereais, leguminosas, frutas, hortaliças e raízes, totalizando 25 tipos de alimentos. O critério de escolha foi o fato de que estes itens representam mais de 70% dos alimentos de origem vegetal consumidos pela população brasileira, conforme detalhados na tabela a seguir.


O que foi encontrado?

Um dos alimentos com maior quantidade de amostras analisadas foi a laranja. Vigilâncias sanitárias de estados e municípios realizaram a coleta de 744 amostras em supermercados de todas as capitais do País. No montante avaliado, 684 amostras foram consideradas satisfatórias, sendo que, dessas, 141 não apresentaram resíduos.
Uma das situações de risco identificadas na laranja está relacionada ao agrotóxico carbofurano, que passa por processo de reavaliação na Anvisa. É a substância presente nas amostras que mais preocupa quanto ao risco agudo, sendo que 11% das amostras de laranja apresentaram situações de risco relativas ao carbofurano.
O agrotóxico carbendazim é outro que merece atenção quanto ao risco agudo. Os resultados do programa revelaram que em 5% das amostras de abacaxi há potencial de risco relacionado à substância.
Um aspecto importante é que as análises do programa sempre são feitas com o alimento inteiro, incluindo a casca, que, no caso da laranja e do abacaxi, não é comestível. Ou seja, com a eliminação da casca, a possibilidade de risco é diminuída. Isso porque alguns estudos trazem indícios de que a casca da laranja tem baixa permeabilidade aos principais agrotóxicos detectados, de modo que a possiblidade de contaminação da polpa é reduzida.
Já para os demais produtos, como a abobrinha, o pimentão, o tomate e o morango, o risco agudo calculado foi considerado aceitável em quantidade superior a 99% das amostras.
As irregularidades apontadas no relatório, apesar de não representarem risco apreciável à saúde do consumidor do ponto de vista agudo, podem aumentar os riscos ao agricultor, caso ele utilize agrotóxicos em desacordo com as recomendações de uso autorizadas pelos órgãos competentes.
As irregularidades também podem indicar uso excessivo do produto ou mesmo a colheita do alimento antes do período de carência descrito na bula do agrotóxico. As situações de contaminação por deriva, contaminação cruzada e solo, entre outros, também podem ocasionar a presença de resíduos irregulares nos alimentos, principalmente nos casos em que os resíduos são detectados em concentrações muito baixas.

O que é o PARA?

O PARA foi iniciado em 2001, com o objetivo de avaliar os níveis de resíduos de agrotóxicos nos alimentos de origem vegetal que chegam à mesa do consumidor. O programa é coordenado pela Anvisa, que atua em conjunto
com as vigilâncias sanitárias de estados e municípios e com os Laboratórios Centrais de Saúde Pública (Lacens).
As vigilâncias sanitárias realizam os procedimentos de coleta dos alimentos disponíveis no mercado varejista e os enviam aos laboratórios para análise. O objetivo é verificar se os alimentos comercializados apresentam agrotóxicos autorizados em níveis de resíduos dentro dos Limites Máximos de Resíduos (LMR) estabelecidos pela Anvisa. Atualmente, o PARA acumula um total de mais de 30 mil amostras analisadas, distribuídas em 25 alimentos de origem vegetal.

Com os resultados, o que acontece?

Os resultados obtidos no PARA contribuem para a segurança alimentar d a população. Quando são encontrados riscos para a saúde, uma das ações da Agência é verificar qual ingrediente ativo contribuiu decisivamente para o risco e, assim, proceder às ações mitigatórias, como fiscalização, fomento de ações educativas à cadeia produtiva, restrições ao uso do agrotóxico no campo e, até mesmo, incluir o ingrediente ativo em reavaliação toxicológica. Ou seja, reavaliar a anuência do registro do agrotóxico no país do ponto de vista da saúde.
A Anvisa não atua sozinha nesta questão. Para que os agrotóxicos sejam registrados, a Agência avalia essas substâncias do ponto de vista do risco para a saúde humana. Já o Ibama avalia a substância pela ótica da possiblidade de danos ao meio ambiente e o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa) avalia a eficiência do produto no campo e formaliza o registro com o aval dos três órgãos envolvidos.
O PARA ainda municia vigilâncias sanitárias com informações que podem auxiliar em programas estaduais de monitoramento. Também ajuda na identificação de culturas que possuem poucos agrotóxicos registrados em razão do baixo interesse das empresas em registrar produtos para essas culturas, denominadas minor crops ou Culturas de Suporte Fitossanitário Insuficiente (CSFI).
Nesses casos, há normas que simplificam o registro de produtos para essas culturas, melhorando de forma significativa a disponibilidade de
Ingredientes ativos autorizados para as CSFI nos últimos cinco anos. De 2011, quando a primeira norma para CSFI foi publicada, até hoje, mais de 900 novos LMRs de ingredientes ativos de relativa baixa toxicidade foram estabelecidos para as mais diversas culturas consideradas de baixo suporte fitossanitário no país.

Perspectivas para o futuro

Nos próximos anos, o PARA pretende aumentar o número de alimentos monitorados de 25 para 36, os quais terão abrangência de mais de 90% dos alimentos de origem vegetal consumidos pela população brasileira, segundo dados do IBGE. O número de amostras coletadas também se ajustará à realidade de consumo de cada alimento em cada estado.
Além disso, o programa ampliará o número de agrotóxicos pesquisados nas amostras, incluindo substâncias de elevada complexidade de análise, como glifosato e o 2,4-D, entre outras.
A Agência também está acompanhando o desenvolvimento de metodologias para avaliação do risco cumulativo, ou seja, quais são os riscos à saúde resultantes da ingestão de alimentos contendo resíduos de diferentes agrotóxicos com mesmo efeito tóxico.
A Europa, nos últimos anos, tem trabalhado no desenvolvimento de metodologia para avaliar esse tipo de risco e deve publicar no próximo ano os primeiros resultados dessa avaliação, segundo informações disponíveis no site da Autoridade Europeia de Segurança Alimentar (EFSA).
Clique aqui e acesse o relatório do PARA na íntegra ou clique aqui e confira uma síntese do documento.
Fonte: Anvisa

in EcoDebate, 28/11/2016

[CC BY-NC-SA 3.0][ O conteúdo da EcoDebate pode ser copiado, reproduzido e/ou distribuído, desde que seja dado crédito ao autor, à EcoDebate e, se for o caso, à fonte primária da informação ]

quarta-feira, 16 de novembro de 2016

A Nossa Guerra Assimétrica Contra A Natureza

danos ambientais
Artigo De Enzo Scandurra
by Redação - 9/11/2016
“Apenas se levantarmos o olhar para além dos anos que definem uma vida, entenderemos que a natureza não pode ser domesticada, tem os seus ritmos, a sua vida: chamaram-na de Gaia pensando-a como um gigantesco organismo vivo.”
A opinião é do engenheiro civil italiano Enzo Scandurra, professor de desenvolvimento sustentável para o ambiente e o território da Universidade de Roma “La Sapienza”, em artigo publicado no jornal Il Manifesto, 03-11-2016. A tradução é de Moisés Sbardelotto.
Eis o texto.
Estão em curso duas grandes guerras: a dos homens contra outros homens e a dos homens contra a natureza. Aparentemente diferentes, combatidas com armas diferentes, elas estão reunidas sob o mesmo objetivo: o domínio. A primeira guerra continua até hoje de modo totalmente semelhante ao passado; a diferença está nas armas utilizadas. Não mais apenas armas de fogo; agora, com armas financeiras mais poderosas, capazes de colocar povos inteiros de joelhos, fazê-los passar fome sem derramar sangue.
E há uma luta contra a natureza que tem data mais recente. Desde que o homem, tendo entrado na Modernidade, imaginou ter que ser o proprietário do planeta que o gerou: o Livro da Natureza está escrito nos símbolos da matemática, afirmava Galileu. Uma guerra, desta vez, “justificada” pela necessidade do Desenvolvimento e do Progresso: século soberbo e tolo, chamara Leopardi esta nova era de domínio do homem.
Agora, essas duas guerras se unificaram em uma única guerra: a guerra contra a vida ou contra a Criação (para quem tem fé), seja ela representada por humanos, seja por todas as formas de manifestação da natureza. As duas guerras se unificaram a tal ponto que é difícil distinguir uma da outra. Os migrantes são a prova disso: há muitos que defendem que eles são todos migrantes ambientais, ou seja, fogem de territórios que tornaram inóspitos por causa das mudanças climáticas, pela exploração excessiva de recursos por parte dos Conquistadores (raça especial de humanos), por falta de comida, água, por ditaduras odiosas.
A segunda dessas guerras terá um fim já marcado: a vitória da natureza, porque é uma guerra assimétrica, porque a criatura que destrói o ambiente destrói a si mesma; é como cortar o galho da árvore sobre o qual estamos sentados. Não temos outro planeta para emigrar: apenas este nos é dado. É ainda Bateson que nos lembra que vivemos em uma casa de vidro, e, em uma casa de vidro, antes de atirar pedras, é preciso pensar bem.
O “monstro” foi chamada aquela força obscura e poderosa que nasce das vísceras do planeta e atinge às cegas o solo onde a vida se desenvolve, sacudindo-o e contorcendo-o como se fosse papelão; redesenhando novas geografias, indiferente a tudo o que o homem produziu, incluindo as suas obras de arte. E só o fato de tê-lo definido como “monstro” nos faz parecer crianças assustadas.
Desde sempre, à natureza foi conferido um duplo nome: benigna, quando ela nos dá os seus frutos; maligna, e agora “monstro”, quando revela o seu rosto feroz. Estamos assistindo ao desaparecimento dos Apeninos, alguns profetizam. Mas, antigamente, os Apeninos não existiam. Apenas se levantarmos o olhar para além dos anos que definem uma vida, entenderemos que a natureza não pode ser domesticada, tem os seus ritmos, a sua vida: chamaram-na de Gaia pensando-a como um gigantesco organismo vivo.
Agora, é hora de luto e de silêncios. O domínio sobre a natureza nos parece ser totalmente fora de medida. E faz refletir aquele pastor, ou aquele idoso que não quer abandonar a própria casa. Há uma sabedoria, que nós, modernos, chamamos de inconsciência ou, pior, de ignorância: ele quer continuar convivendo com o “monstro”, como fizeram, antes dele, os seus antepassados. Porque perder a própria casa, o próprio teto e a própria terra é ficar órfãos para sempre, significa morrer órfãos. É preciso um idoso ou um pastor para reconhecer essa sensação, para se sentir em sintonia com a natureza, mesmo quando ela mostra o seu rosto impiedoso e indiferente, e é preciso um vilarejo para viver.
Conviver é o verbo certo; dominar, o errado. A Modernidade confundiu os verbos; a natureza nos restitui as coordenadas certas. Nestes dias, colado à televisão, muitas vezes tenho fiz a mesma pergunta: onde estão os animais naqueles territórios devastados: eles também migraram?

(EcoDebate, 09/11/2016) publicado pela IHU On-line, parceira editorial da revista eletrônica EcoDebate na socialização da informação.
[IHU On-line é publicada pelo Instituto Humanitas Unisinos – IHU, da Universidade do Vale do Rio dos Sinos Unisinos, em São Leopoldo, RS.]

sábado, 12 de novembro de 2016

REPÚDIO À CRIMINALIZAÇÃO E INTIMIDAÇÃO DE LIDERANÇAS COMUNITÁRIAS

ORGANIZAÇÕES DE DEFESA DOS DIREITOS HUMANOS E MOVIMENTOS SOCIAIS MANIFESTAM REPÚDIO À CRIMINALIZAÇÃO E INTIMIDAÇÃO DE LIDERANÇAS COMUNITÁRIAS EM CONCEIÇÃO DO MATO DENTRO/MG

Entidades e atores ligados à defesa, à promoção e à efetivação dos direitos humanos e defensores das lutas por direitos denunciam e repudiam o cenário de violação, intimidação e criminalização das lideranças comunitárias em Conceição do Mato Dentro/MG que realizam o trabalho de mobilização, organização e luta pelos direitos dos atingidos frente ao projeto minerário Minas-Rio, atualmente desenvolvido pela mineradora Anglo American na região.

A situação de intimidação e grave ameaça que vem sofrendo o líder comunitário Elias de Souza denota o contexto de criminalização dos movimentos e lideranças comunitárias que realizam o trabalho crítico em relação à mineradora Anglo American e aos danos causados por sua atividade.
Elias de Souza vem denunciando várias ameaças, perseguições, desqualificação de seu discurso e intimidações desde o início de sua atuação junto às comunidades atingidas do entorno da mineração. Frente ao mais recente processo de licenciamento ambiental referente à Etapa 2 de Otimização da Mina do Sapo, Elias de Souza apontou o significativo agravamento e recorrência das ameaças, perseguições e intimidações, o que vem sendo estendido à sua família, por meio de abordagens, constrangimentos e vigilâncias realizados em seu domicílio.

“Eles ficam virando carro aqui na porta de casa de madrugada; tem marcas de freiada aqui na porta de casa. Já chegaram em minha casa sem avisar, perguntaram por mim, mas minha esposa não sabia quem era. Então resolvi denunciar. Eu tenho medo de que eles façam alguma coisa comigo e com minha família”. (Elias de Souza).

Além do mais, processos de interdito proibitório ajuizados pela mineradora Anglo American colocam como réus Elias de Souza e outras lideranças, com o claro intuito de criminalizar as manifestações e protestos das comunidades. Essa atuação seletiva por parte da mineradora conta com o apoio da força policial, que atua reprimindo o movimento e criminalizando as condutas daqueles que lutam pela efetividade de seus direitos.

Frente a essa situação, a liderança comunitária acionou o Programa de Proteção dos Defensores de Direitos Humanos, com a finalidade de debater sua situação de insegurança e solicitar auxílio. De maneira emergencial, foi promovida a saída de Elias de Souza e de sua família do território onde residem. Por motivos de segurança, o endereço atual não será revelado.

Ressalta-se que Elias de Souza compõe e representa uma parcela da população do município que é a mais afetada pelos danos socioambientais decorrentes da instalação e operação do empreendimento Minas-Rio, tendo em vista a proximidade de suas residências da mina e das estruturas acessórias da mineração, como o mineroduto.

O histórico de exclusão dessa parcela da população, colocada à margem dos processos de poder e sob constante invizibilização e desqualificação de suas demandas e reinvindicações, traz à lume uma série de violações de direitos humanos e fundamentais às quais as comunidades residentes no entorno do empreendimento são submetidas.

O sentimento de insegurança, temor e incerteza quanto ao futuro faz com que os moradores vivam um clima de extrema tensão que, aliado à degradação ambiental, impedem a fruição de direitos fundamentais como acesso à água potável e de qualidade, saúde, segurança, equilíbrio ambiental, dentre outros, o que compromete significativamente sua qualidade de vida.

Como forma de dar visibilidade a esse cenário de violações, intimidação e criminalização das lideranças comunitárias em Conceição do Mato Dentro, foi apresentada a proposta da elaboração da presente Nota Pública Coletiva. As instituições que a subscrevem representam parte de organizações relevantes e expressivas no processo de luta contra os abusos recorrentes em relação à negação e violação dos direitos dos atingidos pelo empreendimento de mineração Minas-Rio.  Dentre suas preocupações, apontam a enorme apreensão com os efeitos no curto e médio prazo sobre as populações atingidas e expostas. Nesse sentido, faz-se importante não perder de vista a dignidade de trabalhadores, comunidades e gerações futuras em defesa do meio ambiente equilibrado e dos direitos humanos.

Destaca-se que Elias de Souza, negro, pobre, atualmente desempregado, pai de dois filhos ainda crianças, é apenas um dos muitos moradores vitimados desse processo. A criminalização de suas condutas em defesa dos direitos humanos e dos direitos dos atingidos pelo empreendimento minerário Minas-Rio reforça a seletividade da atuação do Estado que, aliado ao capital, reprime, sob uma roupagem de legalidade e legitimidade, atos e ações que buscam dar visibilidade às violações de direitos sofridas pelas comunidades.

Assinam a presente nota:

Coletivo Margarida Alves
Grupo de Estudos em Temáticas Ambientais – GESTA – UFMG
Rede de Articulação  e Justiça Ambiental dos Atingidos pelo Projeto
Minas-Rio da Anglo American – REAJA
Programa Polos de Cidadania – UFMG
Programa de Proteção aos Defensores de Direitos Humanos – PPDDH

terça-feira, 8 de novembro de 2016

Analfabeto Político


O pior analfabeto é o analfabeto político...
O analfabeto político é tão burro
Que se orgulha e estufa o peito, dizendo que odeia a política
Não sabe o imbecil que da sua ignorância
Nasce a prostituta, o menor abandonado,
O assaltante e o pior de todos os bandidos
Que é o político vigarista, pilantra,
Corrupto, lacaio
Das empresas nacionais e multinacionais
Ele não ouve, não fala nem participa dos acontecimentos políticos.
                                                              

Bertolt Brecht